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abril 26, 2005

exposições também

henfil do alto da caatinga
Impressionante como o Henfil ficou datado: impossível sair da exposição retrospectiva de toda sua carreira inaugurada há uma semana no CCBB, com direito a matéria no Jornal Nacional e tudo (doutor Roberto é generoso com seus contratados, até além túmulo). Em termos de mostra, uma única sala se mostrou acanhada para receber as centenas de originais guardados pelo filho Ivan. A solução escolhida foi espalhar álbuns e mais álbuns sobre mesas comunitárias para o público folhear; se isso aproxima sobremaneira dos originais, acaba atrapalhando o acesso, porque só pode ser folheado por um de cada vez -- e muvuca é comum no pico. Também achei má escolha dividir a exposição em espaços iguais para Fradim, Graúna, Ubaldo, Orelhão e Outros Personagens; os dois primeiros mereciam maior destaque, exatamente por serem os que melhor sobreviveram ao tempo.

fradimHenfil produzia para o dia seguinte, estava em cima do lance. É sintomática a história da criação do Ubaldo o Paranóico, com Tárik de Souza, num final de semana em Arraial do Cabo -- na semana seguinte, souberam da morte de Wladimir Herzog. Captaram o sentimento no ato. Hoje, Ubaldo é impensável; medo paranóico, só se for de bala perdida ou qualquer outro desses fantasmas da segurança pública -- mas o poder paralelo é suficientemente explícito para gerar paranóia; o que ele gera é medo. Mesmo a Graúna, bode Orelana e capitão Zeferino fazem parte de um contexto muito específico no qual o êxodo para as cidades começava a esvaziar o campo, que se convertia em paradigma do que fosse a carestia. Hoje em dia, com o inchaço dos centros urbanos, a melhor imagem para falar de carestia e más condições de vida seria a favela. Personagens como o Cabôco Mamadô, que administrava o cemitério dos mortos-vivos, e o Tamanduá, que chupava o cérebro dos zumbis enterrados lá, gente conivente com o regime militar -- ou, na visão de Henfil, de qualquer um que se recusasse a criticá-lo sistematicamente, o quase o levou a enterrar Carlos Drummond de Andrade -- são inconcebíveis em tempos de bandas de roque patrocinadas por fábricas de refrigerantes, revistas de celebridades que divulgam casamentos de políticos e empresários corruptos e propaganda eleitoral feitas descaradamente por atores de telenovelas. Piorou o mundo, mas os cartunistas não melhoraram. Faltaria lápide para tanta gente. O que ficou mesmo foi o humor violento, catártico e espontâneo dos fradezinhos Baixim e Cumprido, que capturam facetas inalteráveis do comportamento.


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Aproveitando a proximidade, dei um pulo na mostra do I Festival Internacional de Humor em DST e AIDS, com escalas nas livrarias que Moacy Cirne vive citando, Al Farabi e Folha Seca, nas ruas do Ouvidor e do Rosário. Ótima oportunidade para conferir como o humor fica comprometido toda vez que tenta defender uma causa, por mais nobre que seja. Humor é crítica, é desconstrução; vestir camisinhas em letras i, foguetes, revólveres e tudo que é tipo de símbolo fálico pode ajudar a prevenção mas não é exatamente engraçado. De qualquer jeito, é uma chance de ver cartuns da América Central, Europa Oriental e China em profusão. O melhor cartum mostrava uma fila de dominós derrubados que parava a poucas peças do final: uma delas estava "vestida" com um preservativo. Tradução perfeita da idéia de propagação interrompida.

Escrito por Rafael | abril 26, 2005 10:49 AM

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