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abril 27, 2005

jornalismo (quase) literário, brasileiro?

À medida que se avança na leitura de Cem quilos de ouro, um estranho padrão vai se formando. Você nota a maneira incomum como o sequestrador da reportagem-título julga seu cativo, uma "pessoa sensível, preocupada com o Brasil" e registra algumas falas, "Eu sei que esse sequestro é um acoisa detestável [...] Entrei nessa por puro desespero", além de de perceber uma certa "precupação social" no discurso ("o senhor já entrou em escola pública?") e ética, que recusa uma proposta de suborno. Seria o velho espírito do bom marginal rousseauniano, personagem conhecido do fabulário brasileiro, reencarnando nas reportagens de Fernando Morais?

Em seguida tem O sonho da Transamazônica acabou, quase uma anti-propaganda do governo militar linha a linha, desconstruindo todo o esforço ufanista de Brasil grande, e o Primeiro rascunho de A Ilha. Quando A Ilha foi lançado no Brasil, em meados da década de 70, a repressão tinha atingido seu auge e terminava de esmagar a guerrilha do Araguaia. Cuba prosperava, cevada pela mesada soviética e impressionava essa gente bronzeada; Morais está sinceramente impressionado quando relata que era permitido a noivos em casamento fugir do racionamento, ganhando um passeio de limousine até a Igreja, ou sobre as filas que cidadãos encaravam para ter acesso a quartos em motéis, tanto quando anota que "não existe o moralismo exagerado com que frequentemente se procura caracterizar os regimes socialistas". Hoje, essas afirmações só despertam compaixão, assim como a eficiente medicina pública assume ares de burocrática no relato.

O próximo texto é novamente sobre Cuba, O homem de Fidel na C.I.A., uma história de contra-espionagem de tirar o fôlego, onde se descobre o quanto Fidel Castro era esperto ao infiltrar agentes duplos nos grupos rebeldes, mesmo que para isso fosse necessário esconder a dupla identidade até da esposa (à maneira de Zé Dirceu) e filhos do espião, que passam a conviver com a fama do traidor. Quando se começa a ler A guerrilha na Nicarágua, uma das primeiras reportagens brasileiras sobre os embates entre Ortega e Somoza, o olho já está atento para captar entre as declaraçõs do líder guerrilheiro, "o que recebemos de Cuba é solidariedade política, e só", eximindo Castro de fomentar rebeldes com armas ou logística. Até em República fantasma, curioso relato sobre as vicissitudes de formação da RASD, República Árabe Saarauí Democrática, pesca-se uma declaração de um político local, também perto do fim (coincidência?), afirmando que "há um preconceito segundo o qual todo o movimento de libertação é vermelho". Até o final do livro, o leitor ainda vai ler sobre o ativismo de Frei Betto (numa entrevista que parou na Playboy, Confissões do frade) e saber que o implacável juiz que mandou prender Pinochet "atuava indistintamente em guerrilheiros, ditadores, torturadores de guerrilheiros, traficantes de cocaína, presidentes corruptos, onde quer que estivessem."

Ou seja, mais de dois terços do livro são infestados por proselitismo marxista nas entrelinhas, mais ou menos disfarçado. Eu não tenho nada contra proselitismo de esquerda, contanto que ele ouse dizer o próprio nome. Mas não gosto quando é feito subrepticiamente, sobretudo em grandes veículos de comunicação, como aqueles para os quais Fernando Morais originalmente escreu suas reportagens. Soa a propaganda escondida. É dever de todo consumidor de informação desconfiar de cada linha que lê na mídia, mas quando se publica um livro com o que pressupõe-se que seja o melhor de um dos mais notáveis repórteres brasileiros e ninguém menciona nem sombra desse visível padrão em qualquer resenha, alguma coisa está errada -- nem que seja a pressa das redações.

Fernando Morais faz lembrar, nestas reportagens, aquele atrevido comentário de Tom Wolfe de que, em sua época, a melhor literatura estava sendo feita por jornalistas (e não por escritores); é de se perguntar se sabe prazos apertados e pautas restritas não fariam bem ao beletrismo de certos monstros sagrados brasileiros. Seu texto é fluido, elegante, informativo, leve e, sobretudo, bem estruturado (como o de Gay Talese); quando se atém aos dados e fatos e a costurá-los sem deixar fio aparente, abandonando proselitismo e julgamentos morais (como Talese), é imbatível -- como provam os perfis de Collor (O Napoleão do Planalto e O solitário da Dinda) antes e depois da queda, ou a transcrição do papo de Encontro marcado com Chatô. Pena que Morais teve que amargar uma longa decepção política para chegar lá. Aposto que não cometeu esse tipo de erro em seu novo livro, Na toca dos leões.


* * *

Alguma coisa irrita profundamente enquanto se lê Queda Livre, de Otávio Frias Filho. É o acrófobo que vai pular de pára-quedas, é o sedentário que vai fazer o caminho de Compostela, é cético que vai experimentar a visão do Santo Daime, é o ex-adolescente de tendências mórbidas que vai ser voluntário do CVV, é o tímido que vai participar de uma peça de teatro como ator. Com apenas três ensaios. Dirigido pelo Zé Celso.

Á época do lançamento do livro, foi comum encontrar nos blogs o comentário de que Queda Livre era a experiência gonzo de Frias, por causa do método participativo que adotou para colher os dados. Exagero: primeiro, e principalmente, porque, ao contrário de Hunter Thompson, que corria riscos pessoais, de integridade mesmo (foi espancado por Hell's Angels, para ficar só no mais severo), Otávio mantém sempre um distanciamento crítico de seus objetos, "não se misturando". Mais: Frias não chega nem no nível de um George Plimpton, esportista medíocre que chegou a trocar socos num ringue de boxe e jogou golfe num torneio, fazendo amizade com outros atletas; fica sem ter o que fazer dentro do submarino Tapajós, recusa o misticismo sincrético da seita do Daime, arrebenta os pés de bolhas, andando na Andaluzia. É de se perguntar, afinal, o que aquele sujeito arrumado e culto está fazendo em cada roubada daquelas -- jornalismo de imersão, afinal, não é coisa para amadores. Segundo, porque o estilo dele mal e mal se aproxima do gonzo. Há um capricho de redação e construção do texto que passa longe do caos informativo de Thompson; não são propriamente ensaios, como quer o autor, tampouco reportagens; alguma coisa estranha e desafiadora a meio caminho. Eu gostei muito de ler, sobretudo os capítulos O Terceiro Sinal, Casal Procura, Viagem ao Mapiá e No caminho das Estrelas. Mas não sei se gostaria tanto se estivesse submetido ao cabresto do manual de redação da Folha de São Paulo -- o mesmo que impede que grandes bolações assim sejam publicadas lá.


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Mais jornalismo de reportagem brasileiro? Fausto Wolff em O dia em que comeram o ministro. Claudio Tognolli, vasto arquivo na página dele. Joel Silveira. Para ficar só nos repórteres. Mais jornalismo literário? Aqui.

Escrito por Rafael | abril 27, 2005 01:09 PM

Comentário

Gosto muito do livro do Frias. Estranhei os sequestradores do Fernando Morais com português extremamente refinado. Neste instante ataco a parte final de Chico Mendes do Ventura. Mas nada ganha de A Sangue Frio.

Escrito por: Anonymous | abril 27, 2005 08:07 PM

Lima, não li o livro do Frias, mas do seu texto ficou a impressão -posso estar errado; se for o caso, diga-me- de que "jornalismo de imersão" é necessariamente gonzo, requer se envolver a ponto de levar porrada de Hell's Angels etc. Por quê? Essa idéia soa tão camisa-de-força que parece um manual-da-Trolha às avessas e igualmente limitante. Algum distanciamento nessas narrativas jornalísticas em primeira pessoa é uma escolha, a meu ver, perfeitamente legítima (falo em teoria, claro; não sei qual é o resultado disso no livro). Você, leitor contumaz de Tom Wolfe, sabe disso melhor que eu. Abraços.

(Não consigo imaginar um Frias "gonzo", e acho que quem classificou assim o livro ou está brincando -e aí é divertido- ou não tem nenhum parâmetro. Não conhece quase nada de "jornalismo literário"; leu as orelhas do Thompson e olhe lá.)

Escrito por: Ruy | maio 2, 2005 10:25 PM

Ruy, acho que é mais para o contrário: "jornalismo de imersão" não é necessariamente gonzo, mas gonzo é, necessariamente, jornalismo de imersão. É intrínseco ao processo e pode ser considerado, sim, uma camisa de força. Se o texto deu a entender o contrário, bola fora minha.

Concordo inteiramente com seu comentário entre parênteses.

Escrito por: Rafael Lima | maio 3, 2005 09:11 AM

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