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maio 13, 2005

Livros & barcos

[Uma nota dedicada ao Alexandre, e inspirada no estilo dele.]

Final de semana passado fui numa feira náutica. Tinha de iates de 60 pés a diminutos equipamentos de pesca, mas a grande atração eram as lanchas a motor. Instalada numa marina, a feira estava bastante cheia no final da tarde de sábado; cheia de gente que gosta de mar, que tem, teve ou quer ter sua embarcação. É tocante ver o afeto com que se relacionam com barcos: tiram fotos em frente a lanchas velozes, fazem test-drives em modelos novos, comentam baixinho com suas esposas, excitados, algo sobre sua performance técnica; crianças são presenteadas com máscaras de mergulho ou iscas artificiais em forma de camarões, acostumando-se desde cedo com aquele mundo azulado e verde. Formosas damas escassamente vestidas distribuem panfletos e conduzem potenciais compradores, ou apenas fãs mais atirados, em visitas aos modelos mais luxuosos. Senhores de idade abonados sobem escadinhas para avaliar um veleiro, com olhar clínico e enamorado; estão em seu meio. Gente menos afortunada contenta-se em levar amostras grátis de revistas especializadas, ou um chaveirinho imitando uma âncora, ou o capacete de um escafandro; resignam-se diante dos preços como uma criança numa feira de filhotes, ao saber que não poderá levar a tartaruguinha para casa. O importante é estar ali, perto de seu objeto de culto e paixão.

Fiquei pensando como seria se as pessoas se comportassem assim com livros.

Uma imensa feira num enorme pavilhão de exposições, cheia de novidades, edições luxuosas com lombadas folheadas a ouro e capa de couro, os grandes escritores atraindo enormes filas de autógrafos como flautistas de Hamelin literários. As principais editoras usariam lindas promotoras de eventos, uniformizadas em cores seguindo o projeto gráfico da última coleção lançada, para atrair leitores para seus stands -- mas não seria necessário, porque a paixão pelos livros faria cada uma daquelas pessoas se deslocar por uma hora, apenas para ficar perto de livros, pela a cálida sensação de estar rodeado por livros. Senhoras de óculos atacariam com avidez novas edições, comentariam a espirituosidade e a precisão de traduções recentes; crianças receberiam livros com letras grandes e ilustrações divertidas; jovens colecionariam clássicos e seriam premiados ao encontrar aquelas raridades que só se revelam para os mais tenazes. Todo mundo leria; todo velho, todo adulto e toda criança sairia de lá com seu embrulho, nem que fosse uma edição de bolso, um reles paperback em papel jornal, uma mera (essa eu não vou deixar) revista em quadrinhos. Na completa impossibilidade de comprar qualquer livro, se contentariam em ir para casa com um marcador de páginas; um postal de propaganda -- porque todos sabiam que o importante era estar ali, participar daquele frisson.

Já começou a Bienal do Livro 2005 para, ao invés de imaginar, conferirmos se é assim mesmo.

[fonte: O Globo]

Escrito por Rafael | maio 13, 2005 09:02 AM

Comentário

você já foi à Feira do Livro de Porto Alegre?

Escrito por: Nessa | maio 13, 2005 04:41 PM

Só uma pergunta, como você colocou o & afrescalhado no título?

Escrito por: Ram | maio 15, 2005 02:50 PM

Nessa: não fui; já fui na Bienal em SP.
Ram: shift + tecla do 7 (tem um & em cima).

Escrito por: Rafael Lima | maio 16, 2005 08:54 AM

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