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junho 14, 2005
Lugares que morrem e que abrem
Já tem vários meses, e ninguém mencionou o fechamento do Ballroom. Vai ver que o que dizem é verdade; blogueiro não sai, e quando sai, só se encontra em lugares onde dê para tirar foto com a câmera digital.
Todo mundo falava mal do Ballroom -- da acústica, do espaço, da decoração --, todo mundo assistiu pelo menos um show marcante por lá. De minha parte, contabilizo: Mestre Ambrósio, Masters of Groove, Tom Zé, Ratos de Porão, Karnak, Orquestra Imperial, Celebrare, Lia de Itamaracá e Dona Selma do Côco. Entre outros. Ballroom era forró nas quartas (ou nas quintas?), Orquestra Imperial nas segundas, Celebrare no sábado (ou era sexta? Não, era sábado), rock algumas terças e, domingo, o dia mais vazio. Relativamente perto do que a imprensa rapidamente batizou de Baixo Humaitá (imprensa não vive sem um baixo...): o mata-fome da Fornalha, os bares ao ar livre da Cobal, a locadora Cavídeo etc. E claro, o cachorro-quente da corrocinha que aparecia em 10 de cada 9 reportagens sobre roubo da rede elétrica nos telejornais, o "gato" mais famoso da cidade.
Me peguei pensando no Ballroom, em lugares que morrem e que abrem. Antes, o que ocupava aquele logradouro era uma casa singelamente chamada Sambão e Sinhá, restaurante típico com show de música e mulatas, de propriedade do Sargentelli (ou era do Ivon Cury?). Ninguém imaginava que desse para alguma coisa quando começaram a colocar música no Ballroom. Mas deu, e eu sei de pelo menos duas pessoas que conheceram suas talvez -- não arrisco nessas coisas -- futuras esposas por lá. Will Eisner fez o comentário definitivo sobre prédios que morrem em O Edifício, mesmo que se derrubem as estruturas, não é possível remover os destroços psíquicos de quem uma vez ocupou o local. Conta-se que Eisner marcava seus encontros em NY em esquinas onde, em alguma época de sua juventude, havia prédios que serviam como referência. Ele ficava procurando no nada suas lembranças de concreto.
Andei lembrando -- faz muito tempo que me dei conta -- nessas coisas quando soube que um antigo cinema pornô que existia na praia de Botafogo foi comprado e reformado e transformado num Unibanco Arteplex. O nome não me era estranho: onde o piercing encontra o bigode, foi o que se disse quando o, o que?, complexo?, abriu em São Paulo (no Rio, clubber sai da rave cedo para não perder a praia no dia seguinte; esse tipo de distinção não serve). Em suma, mais um curral com pipoca, este com os agravantes da pretensão artística e de outra, o que?, coleção de salas de cinema duas quadras para o lado e uns dez andares para cima, no que o vulgo apropriadamente apelidou de Botafogo Escada Shopping. Cumpre lembrar que as 3 salas do Espaço Unibanco também foram erguidas sobre um cinema pornô desativado, ao que parece existiam em profusão naquele bairro.
Esses movimentos de demolição e reconstrução urbanas são naturais, sobretudo em lugares onde a atividade econômica é mais viva; bairros esvaziados por causa da violência são revitalizados, décadas depois; Eisner conta isso com maestria em Dropsie Avenue. Mas dói perceber que cada vez mais a cidade vai ficando parecida com um hipermercado, onde enfileram-se prateleiras para se procurar o que se quer.
Escrito por Rafael | junho 14, 2005 12:18 PM
Comentário
Aquele cinema pornô, de rômantico não tinha coisa alguma. Ficava bem ao lado de onde estudei da 8a série ao 2o ano, e deixava todo aquele pedaço de rua meio decrépito. Além disso, era de conhecimento público que as salas de cinemas era utilizada por homens homossexuais para fazer sexo casual e até orgias. A morte dos cines pornôs é mais culpa do videocassete e dvd, além do barateamento da produção, do que do movimento urbano. Não imagino que Eisner guardaria alguma memória boa daquele pulgueiro (guardaria sim, fedia até a porta. Só conheço um corajoso-mané que foi lá, quando completou seus 15 anos).
Quanto ao Ballroom, que pena que fechou. Eu vi la , entreoutros, Jorge Ben (!), e um show de música indiana, mas isso é ancião. Gostava da pizza que você encontra atravessando a rua... O fechamento do local talvez esvazie um pouco aquele pedaço, que não fossem as pessoas em frente ao Ballroom a noite, seria uma quadra com ar meio sinistro. E por seis graus de separação, eu estudei no Andrews, que fica a duas quadras do Ballroom! Incrível...
Escrito por: Ram | junho 14, 2005 01:02 PM
Será que as pessoas não vão mais ao cinema pornô? Será que eles não existem mais em Botafogo porque na Zona Sul todo mundo tem DVD, CHS ou internet?
Mas o Cine Íris continua lá, né?
Fiquei curiosa agora...
Escrito por: Baxt | junho 14, 2005 06:06 PM
Oi, vim aqui pelo Inagaki. Engraçado, nesse post é que e dei conta que quase não leio blogs de cariocas.
Uma pena o Ballroom ter fechado - menos uma opção para shows. Você sabe qual o motivo? O incrível é que a casa durou bastante (uns 10 anos?) então não se pode deizer que foi má administração, né?
Interessante o conceito de Eisner. Me lembrei do Castelinho, em Ipanema, point da praia da minha geração (ih, escancarei minha idade, rs). Mesmo anos depois de demolido as pessoas se referiam ao local como Castelinho. As vezes é preciso passar um geração para que os hábitos se modifiquem...
Escrito por: Viva | junho 15, 2005 07:08 PM
Ram, aquele cinema era decrépito, abandonado e imundo; eu também não o via com nenhum romantismo. Lamento seu final por ter sido substituído por mais um complexo impessoal de cinemas, como tantos outros onde o serviço (pipoca, ar condicionado, som, estacionamento) é mais importante do que a experiência da sala grande, tela gigante e filme marcante, ao invés desse passatempo escuro de hoje, onde se vai falar ao celular, namorar e dormir.
Escrito por: Rafael Lima | junho 16, 2005 08:52 AM