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junho 23, 2005

Bah que lugar trimmassa

Histórico
Nos últimos tempos, acompanhei pelo menos duas invasões gaúchas: a primeira, há 15 anos, da turma da DumDum -- Jaca, Fabio Zimbres, Adão, Gilmar etc. --; a segunda, há cinco anos, da patota do CardosOnline, ainda relativamente coesa e próxima. Se somarmos gente como Otto Guerra e Jorge Furtado, desde sempre envolvidos com audio-visual, e mais meia-dúzia de escritores conhecidos nacionalmente, a impressão rápida que se forma é a de que sempre tem um gaúcho por perto, batendo ponto. O que há naquela terra para gerar talentos continuamente, sobretudo exportáveis, a despeito do conhecido caráter insular? Por que não aproveitar a visita a um velho amigo que, há longa data, mudara-se para lá, para investigar respostas?

In loco
Desembarquei no último feriadão preparado para pegar entre 15 e 20 graus C, mas os recepcionistas encasacados em lã, couro e náilon me deixaram na dúvida se eu tinha subestimado o frio -- ou se todo mundo ali era desesperado, mesmo. Acabei descobrindo que a segunda opção era a mais correta; duas semanas antes, baixara uma frente fria na região que, supostamente, inaugurara o inverno, mesmo que ainda fosse o meio termo doo outono. E ninguém mais esperou aviso nenhum. Gatos escaldados e encasacados.

Primeiras impressões do ponto de vista carioca
As distâncias são menores, anda-se meia dúzia de quadras no centro da cidade para o lado e já se trocou de bairro. Quase me perguntei se não valeria ena juntar uns 3 sob um nome só, mas não insisti na idéia de jerico. Qualquer um que leu sobre conflitos entre etnias e reinos medievais sabe o quanto significa, para os descendentes, afirmar aquela bandeira, aquele pedaço de terra, como seu torrão. Não seria diferente no Rio Grande do Sul, com sua história de Farrapos e separatismo.

Aliás
Não é difícil entender esse espírito separtista, uma vez que se colocam os pés lá. Uma terra razoavelmente distante dos grandes centros, com formação étnica particular -- atenção: pouco miscigenada, ao contrário do mito brasileiro -- um dos poucos pedaços do Brasil onde os recursos naturais incomodam (apesar das margens do Guaíba serem um espaço lógico e convidativo para a ocupação), tudo isso soma-se para construir uma identidade de orgulho e isolamento muito pessoais, aqui e ali com rasgos de radicalidade, expressos, por exemplo, nos altos índices de mortes em decorrência de discussões no trânsito.
Ainda sobre esse negócio de raça, não se encontram muitos mulatos nas ruas da cidade, apesar de sempre se esbarrar num negro. Não deveria ser surpesa; tentei enumerar os negros gaúchos notórios e não consegui encher mais do que a mão esquerda do Lula: Alceu Collares, Lupicínio Rodrigues, Ronaldinho Gaúcho, Daiane dos Santos -- se tirarmos os atletas, fica ainda pior. Não, não adianta dizer que, no resto do Brasil, também há poucos negros famosos; são muitos.

Aliás II
O Guaíba não é um rio propriamente dito, é um estuário. Esse é um dos muitos mal-entendidos da cidade. Outro: não existe Rua da Praia, e não adianta procurar; placa, você só vai encontrar uma, perto do seu comecinho, onde tudo fica explicado: Rua dos Andradas, antiga Rua da Praia (os Andradas em questão sendo aqueles mesmo, José Bonifácio e o outro).
Descobri isso por mera curiosidade, folheando um livro que, se não tivesse título tão pitoresco, eu provavelmente não teria aberto: Nós, os Gaúchos, na livraria do Museu de Artes do Rio Grande do Sul (MARGS), onde tinha um texto de cada escritor gaúcho conhecido e mais um de um monte que eu nunca tinha ouvido falar. Corri os olhos pelo do Veríssimo, onde ele se dedicava a desfazer esses mal entendidos, e escapei de pagar mico perguntando na rua, ou pior, rodando pela cidade que nem barata tonta. Bem que eu não tinha encontrado no mapa que me deram a tal Rua da Praia...

Documento! Identidade!
Por mais pitoresco que seja encontrar um livro com aquele título -- você não encontra um Nós os Amazoninos em Manaus, nem um Nós os Alagoanos em Maceió, muito menos um Nós os Paulistanos na Augusta -- raramente o orgulho bairrista gaúcho sai do tom. Uma delas se deu quando encontrei, numa seção intitulada "O Som Daqui" em uma loja de discos, um CD da Elis Regina. É mais ou menos como encontrar o último disco do Sérgio Mendes na prateleira do samba carioca das Lojas Americanas. Menos, turma, menos. Talvez o mais interessante seja notar como esse orgulho não tem vergonha de dizer o próprio nome. Parágrafo novo para explicar.
Encontram-se pela cidade (no Parque da Redenção, aliás Parque Farroupilha: olha mais um mal-entendido) estátuas, todas elas muito similares, sempre do mesmo sujeito: poncho, calças largas, botas com esporas, bigodão nietzschiano, semblante de Dunga partindo para a dividida -- não adianta procurar saber quem é. Na placa que porventura lhe identifique, estará escrito apenas "O Gaúcho", numa evidente prova de anti-personalismo, de fé na identidade coletiva, na força de uma... etnia. O mais bacana é constatar como se preserva essa identidade entusiasmadamente, mesmo que isso implique em tomar chimarrão quente debaixo de sol, domingo de manhã, enquanto se passeia no Brique da Redenção (a feira hippie dominical de lá -- paulistanos, leiam: feira da Benedito Calixto), em geral em casais: ela leva a cuia com erva; ele, um garrafão térmico com água quente. E se ri de quem vai de frango com farofa para a praia!

Símiles
Embora a comparação com a feira hippie de Ipanema tenha sido automática, há que se ter cuidado em estabelecer analogias do Rio com Porto Alegre. Para começo de conversa, a distinção entre cidade "de mar" e cidade "de rio". Os símiles mais corretos vão se encontrar em Buenos Aires e São Paulo; da primeira, um ar meio europeu em certos prédios e ruas, incluindo a baixa densidade populacional e os tipos que ali circulam, além do desenho urbano arborizado, convidativo para passear; da segunda, um certo jeito cosmopolita, a seriedade profissional, a busca de uma sofisticação em padrões importados que recai, sem fazer força, no ridículo. Por exemplo, é muito mais correto dizer que o bairro de Moinhos de Vento lembra a Recoleta do que o Leblon, ou que determinada rua comercial é "a Oscar Freire daqui" a compará-la com, bem, sei lá o que é a Oscar Freire do Rio. Não tem uma.
Reconfortantemente, Porto Alegre parece dispensar o que há de pior em cada uma delas: a desumanização das massas sem rosto e o atroz encanto de ser argentino.

Tem mais
Outros motivos por que a vida cotidiana lá atrai? É difícil, praticamente impossível, identificar onde está o centro da cidade. Não tem Bolsa de Valores, não tem um centro financeiro, o fórum e órgãos de justiça ficam espalhados a caminho da zona sul -- tudo isso contribui para evitar o adensamento de pessoas num só lugar, diminuindo as pressões por transporte público de massa e engarrafamentos humanos. Na maior parte dos bairros residenciais, não existe o paredão de prédios que tampa a vista do céu: respeita-se um gabarito que garante um vão entre duas construções, preservando o espaço para a vista descansar. Claro que isso só é possível graças à ausência de pressões demográficas, representadas por crescimento e taxa de imigração quase nulos; fica mais fácil projetar e prover quando se sabe para quantos vai ser. Com menos prédios e menos gente, o trânsito tem menos engarrafamentos e flui melhor -- não lembro de demorar mais de 10 minutos para ir de um canto para outro qualquer na cidade, incluindo aeroporto e estádios de futebol -- os shoppings ficam menos muvucados e privilegia-se o convívio humano, ilustrado em inesperados traços de gentileza e bom humor, a despeito da grossura que atribui-se aos gaúchos. E se lhe falta o mar, não falta um horizonte de água que alivie a impressão de selva de concreto, inevitável em qualquer cidade moderna. Somando tudo, Proto Alegre pareceu-me, para usar um termo ora em voga, "blindada" contra boa parte do stress que já se incorporou ao modo de vida de urbes caóticas. E quando se a visita é que se percebe que não, não precisava ter incorporado assim.

CCs
Quem se sente meio culpado porque no Rio qualquer sobrado reformado vira centro cultural, vai encucar menos quando visitar Porto Alegre. Caminhando pela 7 de Setembro, enfileram-se, além do MARGS, o Memorial do Rio Grande do Sul, a Casa de Cultura Mário Quintana (uma das referências literárias inescapáveis da cidade, ora completando 100 anos de nascimento. A outra é Érico Veríssimo), o Santander Cultural -- esse é o próprio Centro Cultural do Banco do Brasil, sem tirar nem pôr (uma das poucas analogias que funciona). Uma velha agência bancária em lindo prédio, totalmente reformado para abrigar exposições de artes plásticas, um pequeno cinema e um teatro de bolso. A descrição serve perfeitamente para os dois -- e no finalzinho da linha, já de frente para o mar, quer dizer, para o "horizonte de água", a Usina do Gasômetro. Sem falar em lugares menores, como o Museu do Trabalho, ou mais específicos, como o Museu de Ciências e Tecnologia da PUCRS.
Apenas me pergunto se existe atividade cultural e público tanto para preencher quanto para consumir essas atrações, ou se é sempre a mesma turminha que, um bocado à base de incentivos fiscais e dinheiro público, mimetiza a vida desses lugares, tal e qual numa certa cidadezinha que eu conheço bem.

Tragos
No sábado, Mojo -- mais do que tatuagens ou ludismo capilar, o que o distingue é que ele se refere assim a si mesmo, pelo nickname, o que denuncia, no mínimo, suas horas gastas de internet --, Fabíola e Cardoso -- sim!, ele existe e ao vivo não é um sujeito superativo ou ansioso, como eu imaginava a partir dos textos. O resto, a barba ruiva, altura de vara-pau, é igual nas fotos -- gentilmente me levaram para um bar da Cidade Baixa (para cariocas: Santa Teresa, para paulistas: Vila Madalena), aproveitando para celebrar o aniversário do Cardoso. Acabamos praticando bar crawl, encontrando Sabrina e uma amiga em outro lugar, com direito a GBRL, Mojo, um sujeito cujo nome não sei até agora, dono de um dos e o dono de um dos apelidos mais contrangedores que já vi, cujo nome até agora ignoro, Suruba ("Tem uma suruba querendo falar com você", dizia minha mãe às gargalhadas com o telefone, me contou Fabíola), e Elvis tentaram a toda força me convencer a torcer pelo Grêmio.
O histórico não ajudava muito; eu nutria uma simpatia pelo Internacional desde 87, quando perdeu o título para o Flamengo, e por ter revelado craques como Falcão e Carpegiani. Já o Grêmio, para cada Renato e Ronaldinho gaúchos revelados, trouxe dez Emersons, vinte Anderson Polgas, mil Felipões. Todos eles campeões da Libertadores, do Mundo, o que complicava a escolha: um time que se orgulha do futebol força, futebol de resultados (antológica primeira frase de Eduardo "Peninha" Bueno para o livro sobre o Grêmio: "Futebol arte, todo mundo sabe, é coisa de viado"), campeão do mundo e rebaixado à segunda divisão.
Acabei, mineiramente, não tomando partido, ou antes, deixando para tomar em situação mais apropriada. Pellizzari (eu me sinto mais confortável chamando-o assim) não engoliu minha admiração pelo Zico, mas como eu também não entendi sua -- dele, não do Zico -- afirmação de não compreender o que levava alguém a ir à praia. Empatamos em incompreensão. Fiquei com a impressão que as festas desse pessoal devem ser bem animadas, o que estranhamente vai contra a fama de gente ali em não sair muito de casa. Mulher bonita não deve faltar, para animá-las. Falando nelas:

Mamãe eu quero
Em Porto Alegre realizei um antigo sonho de estar num lugar que só tinha mulher bonita. Sem exagero. O que teve o indesejado efeito colateral da angústia em imaginar se eu não tinha nascido no lugar errado, se toda minha vida até aquele momento não fora um grande, irreversível e redondo erro. Um terrível engano.
Desencanei ao ver que até o pessoal da terra se espanta com isso. A mim, supreendeu a profusão de narizes bündchenianos, provando irrefutavelmente minha velha tese de que uma mulher nariguda também pode ser bonita. E no desespero buscar defesas para recompor o equilíbrio psíquico, só consegui lembrar de uma citação de Roberto Drummond sobre as paulistanas, totalmente aplicável às gaúchas, vai de memória: "é verdade que elas são mais elegantes e bem vestidas do que as cariocas, mas esse é o problema: elas estão vestidas".

Em suma
Não é uma cidade bonita como o Rio, mas como é bem freqüentada...

Escrito por Rafael | junho 23, 2005 08:53 AM

Comentário

Já li em algum lugar que a Oscar Freire do Rio seria a Garcia D'Ávila (na verdade uns dois pequenos quarteirões desta última).

Muito boa resenha. Gostei da forma natural como mencionou o separatismo gaúcho. Isso é coisa de quem não se deixa contagiar facilmente por tabus bobos (sinto que é um pouco tabu o tema dos separatismos regionais brasileiros e você tratou da questão como deve ser adultamente tratada: sem cerimônia).

E gostei de mencionar a facilidade de locomoção dentro da cidade. Já faz uns três anos que fui a Porto Alegre e esse é um dois dois aspectos que mais me chamaram a atenção (o outro foi o da grande quantidade de garotas de programa verdadeiramente louras; let me say it again, louras autênticas!). Claro, há muito mais que me impressionou em P.Alegre, mas essas duas recordações se sobressairam das demais...

Escrito por: Juremar | junho 23, 2005 03:43 PM

Boas lembrancas de POA do fim do ano passado. Quanto a mulheres bonitas e seus anseios, o fato de voce ser carioca ajuda muito por la. Que coisa deprimente, mas verdadeira :). Encontrou o que voce estava procurando?
PS: Compre casacos no centro. Sao otimos! E na sua proxima ida, vista a bombacha e va dancar no centro cultural :).

Escrito por: Ram | junho 23, 2005 04:07 PM

bah..que vontade que me deu de ir pra porto!Só uma coisa que senti falta no teu comentário:o sotaque!Eu queria ler oq um carioca tema dizer sobre o modo porto-alegrense de falar, que por sinal, é mto diferente de outras parte de Rio grande, como por exemplo, Pelotas, onde moro agora.
Adorei o blog.

Escrito por: viajandona | julho 3, 2005 04:02 PM

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