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dezembro 28, 2005
Os sem origem
Uma ferida australiana onde se deve colocar o dedo é a questão dos aborígenes, o povo que neste território se encontrava quando há 200 anos aportaram os ingleses. E se encontrava há muito tempo, segundo consta, há uns 40 mil anos, ou seja, mais tempo do que as civlizações grega e egípcia -- somadas.
Ao ocuparem a terra que seria conhecida como Austrália, de austral, sul, os ingleses partiram do princípio conhecido como terra nullis, ou seja, de que não é proibido tomar uma terra desconhecida onde não haja um sistema de ocupação organizado. O problema começa aí, em não se reconhecer a civlização aborígene como organizada ou ocupante do território (na verdade, eles eram semi-nômades). Claro que a invasão se deu nos termos em que se deu qualquer invasão com objetivo colonial, não importa se a Austrália seria a única colônia fundada no mundo com fins estrittamente penais, ou seja, na base da pólvora e dos germes.
Se fosse só isso, até que não seria muito complicado interromper e até reverter o processo. Mesmo que não tenha havido uma miscigenação a auxiliar o processo integracional, como houve no Brasil (onde o bígamo Caramuru é exemplo), seria apenas questão de interromper a matança e devolver as terras, o que aconteceria assim que os invasores se estabelecessem nas melhores localidades. Na verdade, um pouco mais complicado do que isso, porque foi preciso se aliar aos aborígenes nos primeiros anos de exploração para conhecer o território; havia a noção clara de que eles conheciam melhor aquela terra -- noção que se converteria em ressentimento com o passar do tempo, porque nos primeiros anos de colônia, depois que a coroa britânica cortou a ajuda, houve sérios períodos de fome e privação: os ingleses não sabiam cultivar a terra como os locais, e são muitos os relatos de gente morrendo ao lado de saudáveis tribos de nativos. Peter Carey nota que não há Dia de Ação de Graças na cultura australiana; não havia o peru a ser dividido. E ainda hoje persiste a idéia: o Lonely Planet cita como norma de etiqueta oferecer-se para levar uma salada ou porção de carne ao ser convidado para um BBQ, o churrasco local.
Se não passaram fome, os aborígenes sofreram uma desgraça pior, que a ONU já definiu como genocídio: a prática de separar à força pais e filhos, isolando-os em partes distantes do país, com o objetivo de desmontar uma etnia, uma cultura. A rigor, até a década de 1970, era prática na Austrália a separação forçada de pais e filhos de aborígenes, o que se chama apropriadamente hoje de Stolen Generation. Os poucos mestiços eram também separados (provavelmente renegados) e criados em orfanatos; os filhos de aborígenes eram postos a trabalhar desde crianças em troca da comida, até conquistarem uma espécie de alforria aos 18 anos. Hoje em dia esses fatos não são mascarados nem distorcidos, mas encarados de frente, com direito a exposição detalhada no WA Museum, cheia de fotos e relatos. Qualquer australiano reconhece a barbaridade que se cometeu com os aborígenes, mas persiste o sentimento dos aborígenes serem tidos como preguiçosos, apesar de se reconhecer o sucesso deles em diversas áreas, particularmente esportivas. Entre os esforços de reintegração, o mais notório foi o estabelecimento nacional de um feriado, o Dia do Perdão (Sorry day) onde a nação pede desculpas pelos últimos duzentos anos. Distribuem-se livros de assinaturas onde qualquer cidadão deixa seu recado na forma de um pedido de desculpas, como forma de expiação pública pelos males exercidos.
Mas o Sorry day não é o único esforço de reintegração, pelo contrário. Diversos termos aborígenes são incorporados a sinalização pública. No Jardim Botânico, ao lado dos nomes em latim de cada árvore, aparece o nome usado pelos nativos e o uso que davam àquela espécie. Nas placas públicas da Western Australia é comum ver-se chamado de Nyoongar, que é como os aborígenes nomeavam os habitantes daquela região. Mais ou menos como se, nas placas brasileiras, você lesse "tupiniquim" no lugar de "cidadão". E isso é visto de maneira séria, sem o menor tom depreciativo por aqui. Talvez a maior demonstração de valorização da cultura aborígene seja através dos altíssimos preços que quadros e artefatos típicos alcançam no mercado de arte. Não é preciso ser um colecionador para ter noção de onde se está pisando: numa loja como Creative Native um pequeno bumerangue autêntico, pintado à mão por um aborígene idem, de reserva, pode custar mais de 50 dólares australianos, e um didjeridoo, passa de 200 -- enquanto o bumerangue chinês feito a metro, evidentemente imitando os padrões estéticos aborígenes, sai por menos de 5 dólares.
Ainda que supervalorizada, a cultura aborígene parece sem futuro. Primeiro, porque manipulada pelas mãos estrangeiras como está sendo, tende a se tornar ou objeto de estudo, perdendo valor prático (usar cocar não te transforma em índio), ou agregar novas formas, miscigenar, evoluir, mudar enfim. Segundo, porque se forem mantidas as condições atuais, dependerá da sobrevivência em cativeiro, ou seja, nas reservas quase isoladas onde os aborígenes permanecem hoje; não há chance de evolução sem troca com outras culturas -- como foi durante 400 séculos, e por isso mesmo é de se desconfiar se ela resistiria a uma exposição franca e aberta. Talvez isso explique o abandono que as novas gerações têm dado à sua cultura, assim como as dificuldades de adaptação -- nos centros urbanos os aborígenes são marginalizados e violentos, ainda que em mínima quantidade. Terceiro, porque a sobrevivência deles continuará sendo posta em questão toda vez que se descobrir um veio mineral próximo de uma reserva. A exploração de ouro e minerais enriqueceu e deu sustento a esse lado do país, é de se duvidar que abram mão da riqueza material em nome da terra dos Nyoongar.
Escrito por Rafael | dezembro 28, 2005 09:00 PM
Comentário
Objetividade anglo saxônica é isso aí !
A esculhambaçâo ibero-lusitana é muito mais humana.
Escrito por: pedro | dezembro 29, 2005 03:47 PM
Rafael, estou adorando conhecer um pouco mais da cultura australiana.
Um ótimo 2006 pra você!
Escrito por: Viva | dezembro 30, 2005 08:54 AM