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dezembro 30, 2005
Aula de comportamento
Eu pensava muito vagamente em fazer uma retrospectiva do ano, a começar dizendo que eu dirigi carros automáticos e de marcha dentro e fora do Brasil, na mão inglesa e fora dela. Mas desisti completamente diante da última coluna do Arnaldo Bloch, verdadeira aula de comportamento para os tempos em que se vive. Essa merece nada menos que reprodução na íntegra.
Nos últimos anos, uma meia dúzia de expressões irritantes caiu no gosto de uma certa sociedade carioca pretensamente moderna e alternativa, principalmente dos que se querem fashion e dos que se gabam de ter aquela coisa vaga que se convencionou chamar de “atitude”, e que é vendida como biscoito nos guias de comportamento e anúncios de publicidade. São expressões de uma pobreza absurda se a gente considerar o estupendo leque de gírias e modos do falar coloquial brasileiro, e são usadas como bordões da falta de inteligência que se apoderou das cabeças mais variadas.
“Ninguém merece”, “fala sério”, “vamos combinar”, “básico” — e a campeã de todas, a quase-fascista “menos” —, são expressões reducionistas e opressivas que, na essência, têm a mesma função: excluir de uma discussão (ou da convivência entre pessoas e grupos) tudo que apareça como desmedido, “estranho”, não adequado a um certo senso comum que nunca se estabelece claramente (pois, no fundo, é puramente arbitrário).
O incrível é que estas expressões são usadas principalmente por gente “livre” que, por lidar muito mal com a própria liberdade, anseia por um “equilíbrio elegante” no elástico das relações. São anarquistas enrustidos, performáticos ponderados, loucos customizados, vanguardistas formatados, pansexuais homofóbicos. Para livrar-se da inconveniência do que sentem, essas pessoas procuram (e encontram) no vizinho o excesso, o ridículo, o absurdo, para se encaixarem em algum figurino que as impeça de meter o pé na jaca que tanto lhes atrai.
Assim, o sujeito que, por falta de conhecimento, coragem ou espírito argumentativo, não quiser aprofundar um assunto, dirá:
— Vamos combinar que isso não tem nada a ver. Vamos combinar que fulano é uma mala. Vamos combinar que gostar disso é muito cabeça. Vamos combinar. Vamos combinar.
Na verdade ninguém combinou nada, mas a maioria concordará, estampando sorrisos inexpressivos ou tolos, pois assim é mais fácil beber a sua champanhota sem aporrinhação, “está tudo combinado até prova em contrário, imagina se eu estou aqui pra contrariar”.
Os poucos que discordarem não terão forças para reagir, ou buscarão abrigo numa roda mais viva, se a encontrarem no deserto de vida inteligente que domina os salões.
O “fala sério” e o “ninguém merece” têm mais um efeito de criar cumplicidades redentoras entre espíritos frívolos, crônica ou temporariamente incapazes de conviver com a diversidade de personalidades e de discursos que os cercam. É como fazer uma listinha de “melhores ou piores pessoas e atitudes”, em vez de pensar sobre o que se diz ou procurar entender melhor o mundo e as idéias.
Mas não há nada pior e mais violento que o “menos, fulano, menos” — em geral acompanhado de um gesto de mão pedindo moderação. O “menos” aplica-se a tudo. Se o Zezé resolver contar um detalhe um pouco mais picante de uma história pessoal ou de sua própria intimidade e o Bebeto julgá-lo inconveniente, o Bebeto, serelepe, vai logo dizer:
— Menos, Zezé, menos...
Notem que o Bebeto provavelmente é o cara mais fofoqueiro da paróquia, veste-se com umas roupas espalhafatosas, mas sua “atitude” tem alta aceitação. Diante dele, o Zezé, se não for peitudo, vai calar a boca, sorrir amarelo, quando o mais sensato a fazer seria mandar o Bebeto à merda junto com sua atitude.
Se a Maria der uma gargalhada escandalosa, de opereta (porque essa é a gargalhada de Maria quando ela está feliz!), a Luiza, que é uma perua de dar dó mas tem a personalidade mais forte que a da Maria (e usa umas grifes feias consideradas in), vai intervir:
— Menos, Maria, menos — e a Maria vai engolir a gargalhada e pensar duas vezes antes de rir desse jeito. Depois, vai ter úlcera aguda por não ser mais ela mesma.
Outro dia, numa festa, levei um “menos” na cara que me deixou desconcertado. Estava dançando com umas amigas quando um velho chapa se aproximou e pôs a mão no meu ombro e dançamos juntos, celebrando a alegria do encontro. Então eu, que estava num leve pileque (e ele completamente bêbado), entrei numa de ensaiar um can can debochado, uns passos só, ia ser engraçado, uma esculhambação básica (aaargh!). Então o meu amigo, logo ele, um dos sujeitos mais pirados e barulhentos e alternativos e vanguardeiros e bizarros e palhacentos e porristas e inconvenientes e cheios de atitude que conheço, resolveu me censurar.
— Menos, Arnaldo, menos...
Mandei-o amolar o bode, pois não engulo essa bobagem entre amigos. Ainda se fosse alguma coisa séria, uma inconfidência covarde, uma traição, um gesto agressivo, um ato de humilhação, normalmente tão bem aceitos...
Menos é a vovozinha. Eu quero mais. Quem não quiser escutar que vá embora. Ou, se quiser ficar, que responda, diga alguma coisa útil, desenvolva. Às favas com a etiqueta castradora dos modernos, disfarçada em “atitude”. Pro quinto dos diabos os maledicentes que posam de equilibrados quando têm os piores vícios do espírito, a espuma do ódio a escorrer pelos cantos dos lábios.
Eu ia terminar a crônica dizendo que o “menos” é a síntese do tempo em que vivemos. Um tempo em que tudo que resvala no complexo ou no inesperado é excesso. Um tempo em que qualquer elaboração é papo-cabeça, e papo-cabeça é escória. Um tempo em que só o simples vive. Tempo em que só o resumo vale, o saber é lixo. Eu ia dizer que, enquanto isso, os verdadeiros donos do poder acumulam História e informação em seus megaHDs para, um dia, dominar o mundo dos convenientes — hordas cheias de atitude e sem conteúdo. Eu ia dizer que, no futuro, cérebros vazios serão escravos dos barões do saber. Mas não vou dizer nada disso, tenho muitos amigos partidários do “menos”. Eu mesmo já andei adotando umas tolices assim. Digo apenas: neste Natal, seja “mais”. “Mais” é dez. “Menos” é zero. (Putzgrila, que lugar-comum...).
Escrito por Rafael | dezembro 30, 2005 12:34 AM
Comentário
Desculpe aí, Rafael, mas toda vez que esse cara encosta o dedo no teclado pra escrever, alguém tinha que dizer "menos". E se eu fosse amigo cara e visse essa figura gelatinóide ensaiando passo de can-can eu daria logo um pedala.
Btw, feliz 2006!!
Escrito por: A | dezembro 30, 2005 09:23 AM
du caraio o texto!
Escrito por: Genésio Jota | janeiro 3, 2006 09:45 AM
Eu acho que ele escreveu o texto só porque ficou puto de ter sido reprimido em sua alegria. Compreendo, mas achei exagerado. Menos, Arnaldo :-)
Essas gírias são como outras quaisquer. No dia em que eu quiser que gírias expressem significados transcendentes e libertários, eu me mudo do planeta.
Escrito por: Marcus Pessoa | janeiro 9, 2006 08:27 PM
valeu, Rafael. Marcus, que mané significado libertário? A questão não são as gírias, mas um certo uso que uma certa galera faz delas.
quanto à espinafração do A, que deve ser um grande escritor... bom, espinafrar sem se identificar e ameaçar pedalada é coisa de almofadinha. quanto à gelatina, tá cheio de muié quase pagando pra balançar. inté.
Escrito por: Arnaldo Bloch | janeiro 18, 2006 04:56 AM