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janeiro 23, 2006

Praia

Tenho para mim que tanto brasileiro se despenca para a Austrália por dois motivos: o clima é parecido e aqui tem praia. Motivos mais prgamáticos, como a facilidade de conseguir um visto ou emprego temporário por aqui em relação a EUA e, sobretudo, Europa, também devem contar, mas tenho certeza que o que faz peso mesmo é a praia. Quando eu cheguei, me disseram: se quiser encontrar brasileiros, é só ir à praia. E haja opção, de Cottesloe (cartão postal da cidade, com a Indian Tea House, uma casa de chá na orla!) a Scarborough, passando por Swanbourne (em cujo canto direito ficam os nudistas) ou City Beach, isso sem contar algumas margens do Rio Swan.

Chega-se na praia de trem ou, se você tiver um, mais confortavelmente, de carro: há estacionamentos em abundância nessa cidade com jeito de Estados Unidos. A areia é mais limpa e incomparavelmente menos ocupada do que qualquer praia brasileira, onde o espaço de circulação chega a ficar comprometido. Isso tem uma consequência interessante, que é a dificuldade, senão ausência de comportamento de grupo na praia, porque cada núcleo está suficientemente isolado para que a interação seja quase nula. Em suma, imagino que não existam por aqui esses típicos modismos de praia que acontecem a todo verão no Rio.

É proibido vender ou preparar alimentos ou bebidas na areia (para quem não sabe, no Brasil também é proibido preparar), o que significa que, se você estiver com sede, vai ter que subir até o calçadão, atravessar a rua e comprar um fish and chips, um fried calamari, um seafood platter -- tudo empanado, muito frito e gorduroso -- ou o campeão de popularidade, o copo de batatas fritas, em tamanhos pequeno, médio e grande.

Se for dar um pulo na água, tenha o cuidado de deixar a caixinha ou o copo com a comida fechados, porque as gaivotas -- que caminham entre os banhistas como os pombos, no Brasil -- já se adaptaram e vão atacar as migalhas. A água é mais fria do que no sudeste e muito mais fria do que no nordeste brasileiros, mas nada que impeça de entrar para alguns mergulhos. Porém, se você for aproveitar as ondas e o vento para surf, é recomendável o uso de long john (ou, ao menos, short). O vento, Fremantle Doctor, que convida à prática de windsurf e kitesurf, é um tremendo incômodo para quem só está na areia se bronzeando, e não pode esquecer do filtro solar. Afinal, aqui eles indicam a incidência de ultra-violeta no dia para você se prevenir.

Não se vai de cadeira nem de guarda-sol para a praia: cadeira dobrável é para pic-nic, e ainda não descobriram amplamente o uso do guarda-sol; senta-se em toalhas de banho, algumas até felpudas, ao invés de cangas; não é difícil encontrar uma farofada, só a farofada não se constitui de frango assado com arroz e farofa, mas de algum tipo de salada. É proibido consumo de bebidas alcoólicas em lugares públicos, o que não significa que você não pode tomar a sua cervejinha fora do famigerado saco de papel marrom; pode, tanto quanto pode tomar vinho no gramado do Kings Park, mas há que ser discreto e não fazer algazarra. Recomenda-se que o banho de mar seja feito sempre entre os dois postes vermelho e amarelo entre os quais fica a área monitorada por salva-vidas; há chuveirinhos para tirar o sal e areia dos pés na saída, bem como sacos plásticos para desovar o lixo em cacimbas.

Falta bem pouco para conseguirem a proeza, eu diria absurdo, de fazer da praia uma coisa organizada. Em suma, é a praia perfeita para aquele tipo de amigo que gosta de mar mas acha que areia é ruim porque gruda.

Escrito por Rafael | janeiro 23, 2006 10:27 PM

Comentário

:-)

Escrito por: FDR | janeiro 24, 2006 09:11 PM

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