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fevereiro 10, 2006
Calma Betty, calma
Muitas loas a Betty Friedan nos anúncios fúnebres. Nunca li nada dela. Exceto uma única entrevista, que acabou com minha vontade de ler qualquer coisa de Betty Friedan. O ano era 1972, e ela caiu na besteira de visitar o Brasil, onde morava sua amiga Rose Marie Muraro e na insanidade ainda maior de dar uma entrevista ao Pasquim. Por algum motivo obscuro, eu coloquei na minha mudança o livro de entrevistas do Pasquim, então cito após relê-la. Quem abre os trabalhos é Paulo Francis, perguntando elegantemente se ela tinha vindo para terminar com a "submissão secular da mulher brasileira". A seriedade dura mais ou menos umas 4 perguntas, quando Flávio Rangel quer saber a opinião dela sobre "as posições da mulher brasileira". Betty Friedan saca a molecagem e diz que não vai responder porque aquilo era piada e queria que o movimento feminista fosse levado à sério. Millôr Fernandes corta, dizendo que não permitir que se faça piada com um assunto era uma atitude muito pouco democrática dela. Na sequência, ele falaria que ali todos eram humoristas, gente para quem o humor era uma coisa muito séria. Betty Friedan continua defendendo suas teses, sem ser interrompida -- o livro foi diagramado em duas colunas por página, e uma de suas respostas chega a ocupar as duas colunas de determinada página. Depois de muito trólóló, Millôr diz que leu o livro dela e que ficou com a séria impressão de que ela não chega a lugar nenhum no final; Friedan replica que o "movimento de libertação é contínuo" e não terminou. Lá pelas tantas alguém mete os hippies e o lance de queimar sutiãs no meio da conversa, e Betty Friedan primeiro afirma que o tempo dos hippies já tinha passado e depois que não houve queima nenhuma, aquilo foi armado pela imprensa. Foi não foi, foi não foi, perde as estribeiras e começa a chutar os entrevistadores por debaixo da mesa, "fuck you! fuck you!".
Muita gente até hoje acha que ela deu um show ao não deixar nenhuma pergunta no ar e defender o movimento. Minha impressão clara é a de alguém, ainda que intelectualmente extremamente articulada, que não sabe o que quer -- mas quer continuar esperneando, que não sabe reagir ao humor e que nega alguns fatos. Quando fala nela até hoje, Jaguar se lembra mais que ela foi beber com ele no Antonio's depois e aguentou legal o vira-vira do que da entrevista propriamente dita. Sinceramente, se isso é o melhor que o movimento feminista conseguiu gerar...
Escrito por Rafael | fevereiro 10, 2006 02:20 AM