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fevereiro 12, 2006
Australianas III
Final de semana cheio.
Noite de sexta-feira foi dedicada à estréia do time local, Western Force, no campeonato de rugby australiano. Encararam os Brumbies, campeões algumas temporadas atrás. Diversas semelhanças e diferenças com, digamos, um Fla-Flu no Maracanã, a saber, guardando evidentemente as devidas proporções. As semelhanças:
:: O trânsito nas imediações do estádio também engarrafa, os torcedores que deixam para chegar em cima da hora atrasam, usa-se celular para localizar o outro, o pessoal vai paçocado nos meios de transporte públicos e fica fazendo piada sobre isso, todo mundo marca de se ver "em frente da estátua do Bellini", tem os que chegam antes e aproveitam para fazer uma boquinha e a torcida vem uniformizada com as cores do time.
:: xingam-se os jogadores do time adversário, o juiz, quando apita contra seu lado e os jogadores do seu time, quando eles parecem não estar se esforçando o suficiente.
:: tem gente que vai ao estádio e se diverte mais com a torcida do que com o jogo, que está acontecendo lá no campo.
:: alguns jogadores fazem catimba e tentam influenciar o juiz.
:: o ritmo do jogo em campo tem algumas semelhanças, são dois tempos praticamente do mesmo tamanho e os times trocam de lado no intervalo.
:: a torcida vai uniformizada e puxa gritos de guerra de quando em quando, embora sua principal função seja mesmo fazer barulho.
:: depois do jogo, muita gente estica para tomar uma num bar próximo.
:: os nomes dos patrocinadores aparecem em tamanho grande nas camisas dos times, e chegam mesmo a fazer parte dos próprios nomes.
:: no intervalo do jogo, todo mundo corre para o banheiro, comprar comida e bebida.
:: todo o estádio é coberto por cadeirinhas aparafusadas no concreto; são melhores do que as "privadas" do Maracanã, porque têm enconsto, mas igualmente apertadas.
:: Tem gandula para devolver as bolas que saem pela lateral.
Agora vamos às diferenças:
:: Apesar do time da casa perder, levando um sacode (25 a 10, em termos de futebol, mais ou menos 3 a 1), ninguém saiu vandalizando os imóveis ou carros estacionados nas imediações do estádio.
:: São péssimos em puxar musiquinhas de incentivo ao time, fica-se só na sem-gracice marcial de um "Go, Force, go" ou, pior ainda, "Force, Force, Force". Nada das geniais paródias a marchas de carnaval que rolam em qualquer estádio brasileiro.
:: Precisa que alguém grite para fazerem barulho, "make some noise", senão a gritaria não decola. Hábito esse encontrado também em várias bandas de rock e que tem sido lamentavelmente copiado por vários ditos artistas brasileiros, como Dudu Nobre e Marcelo D2 em seus shows, "vâmo fazê barulho!".
:: Ao invés de tambores e cornetinhas, usam umas bisnagas infláveis compradas em par para fazer barulho, batendo umas contra as outras, um barulho assustador. Como não entram instrumentos musicais no estádio, não tem Charanga rubro-negra.
:: A mesma dificuldade em fazer barulho a torcida tem ao iniciar uma ola. Provavelmente porque tentam fazê-lo de forma organizada, ao invés de espontânea, contando com o contágio do comportamento: alguém puxa uma contagem regressiva e espera que todo mundo o siga. Claro que só funciona quando o jogo está paralisado por algum motivo, mas aí a ola embala e dá bem umas 3 ou 4 voltas no estádio. Fazer ola passa a ser mais importante do que assistir ao jogo.
:: Não tem vendedores ambulantes de comida ou bebida nas arquibancadas. Quer comer, tem que sair do lugar e ir até os corredores externos procurar uma vendinha, onde os grandes hits são a ciaxa de batatas fritas, o hot dog e uma empadinha com carne, meat pie, à base de muita Coca-Cola. Você pega o que quer e paga no caixa, em frente, enfrentando uma fila que se forma espontaneamente.
:: As cadeiras são numeradas, e o número de ingressos vendidos é igual ao de cadeiras, evitando super-lotação. Isso significa que, se tua turma chegar em cima da hora, não vai pegar fila para entrar nem ter problema para encontrar lugar porque cada um senta onde o ingresso indica, e os seus estarão livres, esperando. Essa foi a mais supreendente de todas para mim, mais até do que a da comida...
:: Rugby, em grande parte, é um esporte para ser visto pela televisão, com diversas câmeras mostrando detalhes que se perdem na distância e na muvuca, ao contrário de futebol. Boa parte do tempo de jogo se passa olhando para os placares luminosos e o juiz usa o video-tape para irar dúvida quando rola uma jogada duvidosa.
:: Os jogadores não fazem nenhuma dancinha de vitória quando conseguem um "treshold".
:: A quantidade de torcedores uniformizados no estádio é imensamente maior. Em compensação, é irrisória a quantidade de bandeiras e nula a de bandeirões e daqueles mantos que a torcida inteira estica, encobrindo todo um pedaço da arquibancada.
:: Tem muito mais mulher frequentando os jogos na arquibancada.
Sábado fui curtir uma praia, porque é difícil perder certos hábitos, e de noite dei uma esticada na Beck's Verandah, que é o similar perfeito do pilotis do MAM em época de Free Jazz. Já os cinemas do grupo Luna são a tradução australiana escarrada do grupo Estação. A adaptação fica mais fácil assim.
Lá pelas tantas abriram uma roda de street dance na varanda. Eu, que nunca tinha visto uma daquelas ao vivo, gostei. O toque de exotismo foi ainda maior porque só tinha branco na roda, e nenhum trajava o visual gangsta. Falta crioulo a essa terra.
E domingo fui assistir minha primeira atração do Perth International Arts Festival. Eu já tinha vasculhado de cima para baixo o programa e estava de olho numa atração que, de acordo com o que diziam, misturava circo moderno -- acrobacias, contorcionismo, dança -- com teatro, mímica, humor: exatamente o tipo de receita que me empurrava todo ano para o espetáculo novo da Intrépida Trupe. Já estava disposto a arriscar quando li no jornal de sábado uma entrevista com o diretor da companhia que me deixou ainda mais animado, e o resultado não foi nem um pouco decepcionante.
La Veillée des Abysses tem tudo que você pode encontrar num show da Intrépida Trupe, e mais uns belos e inesperados momentos em que o humor se transforma em poesia, não fosse o diretor, James Thierreé, neto de Charles Chaplin. Em pelos menos 3 cenas fiquei com a séria impressão de estar vendo o próprio Carlitos, só que dessa vez sem a ajuda do tubo catódico, ali na frente, no palco: a cena da cadeira, em que ele não consegue sentar com as pernas cruzadas porque o corpo sempre escorrega; a cena em que sua mão direita se rebela contra o corpo e parece querer puxá-lo para fora do palco e a cena em que não consegue ler o jornal, que parece grudar em suas mãos -- e pés. Magnífico. O elenco de La Compagnie du Hanneton era composto de uma contorcionista francesa, um ator sueco, uma contra de ópera catalã e um capoeirista brasileiro, para quem abriram espaço nas cenas para executar aqueles saltos típicos, sem contudo transformá-los no centro da peça. Tem uma mesa redonda que se transforma num carretel gigante, utilizado pelos atores para evoluir no palco, um pêndulo gigante empregado como um balanço e uma estrutura de metal a partir da qual James é suspenso ao dar rasantes sobre a platéia que poderiam perfeitamente estar num espetáculo da Intrépida, e mais um sofá que traga os atores, um portal de ferro retorcido que se converte em trepadeira para o contorcionismo dos atores, e duas impressionantes tempestades.
O público ria escancaradamente das rotinas cômicas como se estivesse num show dos Trapalhões e aplaudia cada de cena como se os atores fossem as focas amestradas do AQWA. Talvez em função de ter muito adolescente e criança na platéia; associaram circo a criança. No final, cobriu a trupe de aplausos, mas não soube presentá-la com a consgração suprema que qualquer artista de palco almeja, standing ovation, bater palmas de pé. Ai que saudade do meu Brasil, onde qualquer platéia do interior do Cariri sabe que tem que bater palmas de pé se gostou muito do que viu. Mas também, o que eu iria esperar daquele bando de gente tosca que vai de camisa havaiana e bermuda para o teatro e não sabe nem fazer ola?
Escrito por Rafael | fevereiro 12, 2006 11:46 PM
Comentário
Para uma cidade que tem a alcunha de "dullsville" até que a sua vida em Perth está bastante movimentada...
Escrito por: Daniel | fevereiro 14, 2006 10:28 AM