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fevereiro 20, 2006
Pura Dinamite
Good Vibrations Festival é um dos vários festivais que aconteceram desde que cheguei aqui, tal como o Big Day Out e o Summadayze, tudo na mesma linha: mais de um palco com revezamento das atrações, muita música eletrônica e dois ou três nomes de peso para puxar a atenção, apesar do grosso ser de artistas locais, como o grupo F'dell, do qual eu já tinha ouvido falar bastante bem e conferi, é bom mesmo.
No caso do Good Vibrations, o local escolhido foi o Belvoir Amphitheatre, um espaço ao ar livre coberto por grama onde construíram o palco principal, um domo geodésico similar ao que erguem para os shows na praia ou no Ibirapuera, duas cabanas menores para o povo da música eletrônica (uma delas, patrocinada pela Bacardi) além do anfiteatro propriamente dito. Com shows programados de 11 da manhã até 11 da noite, tinha combustível para muito ânimo ali.
Cheguei por volta de 3 da tarde, um sol de mais de 30 graus fritando a moleira, e eu estupidamente de camiseta preta, na dúvida do que escolher que servisse tanto contra o calor abrasivo do dia e para o frio que chega assim que o sol se põe, numa variação térmica de mais de 10 graus. Usei uma daquelas calças em que se pode remover um pedaço das pernas, que se mostrou perfeita para a situação, mas tanto o calor insuportável quanto a poeria que subia dos gramados me fizeram lembrar dos comentários dos primeiros imigrantes ingleses que li em vários museus. Além dos tecidos sintéticos, eles ainda traziam na bagagem a moral vitoriana em longos vestidos de mangas e várias camadas que se mostraram absolutamente desapropriados para o ambiente australiano. Eu tinha apenas que resolver meu problema de hidratação, em grande parte solucionado por uma barraquinha que distribuía copinhos com Lipton Iced Tea Green, mas não deixei de pensar quantas pessoas baixariam enfermaria naquelas mesmas condições, no Brasil.
Assisti mais shows do que os que vou mencionar aqui, quase todos razoavelmente esquecíveis, por isso vou me concentrar em 3 nomes não porque tenham sido os melhores, mas por serem os mais conhecidos de quem tem um interesse apenas marginal para música eletrônica.
O primeiro deles foi Shaun Ryder, aquele gordinho mesmo do Happy Mondays, que tinha sido escalado para uma apresentação de uma hora. Meu interesse advinha exclusivamente do filme 24 hour party people, onde Shaun tem um dos papéis principais, uma figuraça total. Foi um dos maiores estelionatos musicais aos quais presenciei. eu devo estar mal informado sobre esses shows de música eletrônica, porque esperava ao menos que ele fizesse algumas das firulas de DJ ao vivo, mas não -- o trabalho dele se resumiu a escolher a sequência de entrada das músicas, e nem isso pode-se atribuir a ele, porque foi um tal de Kev quem trocou as bolachas. Shaun se limitou a ficar dançando bem desajeitadamente com microfone na mão, onde muito de vez em quando balbuciava algo incompreensível, e nem a seleção foi assim um primor de originalidade, indo de Beatles (Back in USSR) a Prodigy (Smack my bitch up, esses eu vi ao vivo em 1998) passando por The Doors (L.A. Woman). Foi muito eficiente na nobre tarefa de arrancar cavaco do salão.
Por volta de duas horas depois de encerrado seu ato, encerrando um interminável e irritante ciclo de hip hop, assumiu as carrapetas no palco roots o DJ Marky, de quem eu já ouvira muito falar, mas nunca assistira ao vivo. Marky fez tudo o que eu esperava de um DJ: mixou (atenção aos maiores de 40 anos: lê-se micsou, não michou) seu drum and bass ao vivo, sacudindo a poeira e botando o anfiteatro inteiro para sacudir o esqueleto, sem um minuto de trégua. A Marky coube fechar aquele palco, com uma exibição de duas horas, a qual abandonei no meio para assistir ao show que encerraria o palco principal, o motivo, enfim, pelo qual resolvi ir ao Good Vibrations. The hardest working man in show business, the general of funk, the godfather of soul, mr. Dynamite em pessoa: James Brown.
Ainda há o que se falar de James Brown? Que ele podia reclamar paternidade, ou melhor, ser avô de todos aqueles gêneros musicais presentes ali naquele dia? Que ele ainda se apresenta com banda de metais envenenados, cabrochas na segunda voz, topete e terno de 3 peças de cetim vermelho, aos 72 anos de idade? Que ele faz aqueles movimentos com os pés, aquela dançinha de andar de lado com um pé só e aquela de correr sem sair do lugar? Que sacode a cabeleira e solta os gemidos "uhn" e "yeah" entre os versos? Eu li em algum lugar que a banda estica tanto os solos de saxofone que a impressão é de assistir a apenas 6 músicas em uma hora e meia, mas todo mundo sabe que tudo é aquecimento para ver James Brown levar Living in America, I feel good e, claro, Sex Machine. Sim, eu o vi fazer his mean thing. Ao vivo, aos 72 anos de idade.
Um final apoteótico que fica como metáfora para a superação humana num festival dominado por música eletrônica e DJs, que faziam pouco mais do que trocar os pratos.
Escrito por Rafael | fevereiro 20, 2006 10:14 PM