« Balanço de fevereiro | Principal | Carnaval 2006 em duas imagens »

fevereiro 28, 2006

E a tristeza vai acabar!

Joaquim acertou mais uma vez: almoço de pobre é café. Essa crônica sobre as marchinhas de carnaval me fez balançar.

É carnaval, quem não chora não mama, e o meu periquitinho verde, urubu malandro que é, chegou muito à sorrelfa e perguntou na orelha da jardineira: o que que há com a sua baratinha que não quer funcionar? É carnaval, é Orlando Silva, é Jorge Veiga lembrando com justiça que foi ele, o bigorrilho, quem me ensinou a tirar o cavaco do pau. Vou aproveitar.

O pundonor foi ali ver se eu estava na esquina, foi ver o que o Luzia perdeu na horta, e liberou geral, lança-perfume no olho do verbo, para que se diga o seguinte. Dois pontos. Há várias maneiras de se contar a história de um povo. Os egípcios escreveram nas pirâmides, os gregos narraram nas esculturas, os ingleses nas receitas de batata. Eu quero aqui sugerir que alguém conte um dia a história da civilização carioca no século passado através do que está escrito nas marchinhas de carnaval. Se a radiopatrulha chegasse aqui agora, eu repetiria com a empáfia daqueles que sabem que cachaça não é água, não. Está tudo nelas. Nas marchinhas. Ouve só. É nessa onda que eu vou, é nesse mundo de zinco que é Mangueira, é nessa falsa baiana nariguda que sapateia sobre o meu destino. Tenho motivos acadêmicos para colocar a lata d’água na cabeça e dizer. Os compositores de marchinhas foram os Pero Vaz de Caminha de sua época.

Ela é fã da Emilinha, não sai do César de Alencar — por quê?

Vão acabar com a Praça Quinze, não vai haver mais escola de samba, não vai — quem foi que disse?

O bonde de São Januário leva mais um grande otário, sou eu que vou trabalhar — como assim?

As marchinhas de carnaval contavam este ano os principais acontecimentos do ano anterior. Em 1957 derrubaram a Galeria, meu amor, fizeram o Edifício Avenida Central, e isso foi contado no carnaval de 1958. Morreu o aviador-líder dos cafajestes, e no ano seguinte lá estava Dalva de Oliveira cantando o zum zum zum zum, estava faltando um. É só destrinchar para as novas gerações os fatos embutidos nas letras e as aulas de História — bota o retrato do velho outra vez — vão ficar cheias.

As marchinhas eram pequenas reportagens bem-humoradas e é com elas, pra seu governo, que eu vou sambar até cair no chão. Garrafa cheia eu não quero ver sobrar. Garota, você é uma gostosura. E por aí em diante.

Há quem prefira os grandes registros históricos, os discursos das altas patentes, os contratos de armistícios, o Diário Oficial da Prefeitura, o texto da pedra fundamental. Eu prefiro as miudezas, os pequenos classificados dos jornais, os panfletos das ciganas no meio da rua, as gírias dos adolescentes, os gritos de guerra das torcidas, os grafites nos muros, os jingles das Casas da Banha, os bordões dos comediantes e, acima de tudo, o discurso de deputado baiano que quando fala pouco é para falar do coco. Se a turma agüenta, ele fala da pimenta.

Marchinhas não mentem. Sintetizavam o melhor da temporada passada, o pó-de-mico que tinha causado mais impacto na emoção do povo, e davam o toque. Sabiam tudo. Sem saçaricar essa vida é um nó. Não se deve amar sem ser amado. Que me importa que a mula manque, eu quero é rosetar.

As marchinhas de carnaval eram a versão ritmada das crônicas de jornal, que não passam também de confetes, pedacinhos coloridos do que vai de sentimento na alma das ruas. Percebem, sem que se precise sacar dos chatíssimos números do IBGE, sem que se precise chamar o Palocci, que sapato de pobre é tamanco. Almoço de pobre é café. Nenhum jornal fez editorial mais contundente sobre a esculhambação do serviço público do que Blecaute em “Maria Candelária”. Era aquela funcionária letra “O” que à uma hora ia ao dentista, às duas ia ao café, às quatro assinava o ponto e dava no pé. Grande vigarista ela é!!! A miséria econômica nacional foi dissecada por Ary Barroso em “Falta um zero no meu ordenado”. Ei, você aí. Dá um dinheiro aqui.

A história de um povo não se faz só com os gritos à margem do Ipiranga, nem com um JK solitário discursando os parágrafos cheios de borboletas que Augusto Frederico Schmidt tinha escrito para ele. A turma do funil, o gato na tuba, o zé marmita, o pirata da perna de pau, o china pau, o pierrô apaixonado — essa gente do dia-a-dia também escreve atos institucionais que interferem no destino da nação.

Quando as moças começaram a querer ir mais longe, prum piquenique na Barra da Tijuca, um swing no Joá, a Emilinha, amiga da Chiquita Bacana, existencialista com toda razão, foi no ponto. Não citou Simone de Beauvoir. Disse apenas. Vai, Chiquita. Mas com jeito vai, senão um dia a casa cai. Eu não escreveria a saga da mulher brasileira sem misturar a Mulata Bossa Nova e a Chiquita Bacana no mesmo enredo que a Irmã Dulce, Ana Néri, Lina Bo Bardi, Maria Esther Bueno, Leila Diniz, Bené, a princesa Isabel, Clarice Lispector e Maria da Conceição Tavares. Todas danadas.

Sou suspeito, confesso. As marchinhas de carnaval foram meus primeiros clássicos e minhas primeiras namoradas. Com o umbiguinho de fora feito a laranja da Bahia, a garota Saint-Tropez até hoje me guia na busca de uma similar. Tinha aquela outra, que quando passa todo mundo grita — e eu mais ainda — estou aí nessa marmita. Hélio Silva, Werneck Sodré e Thomas Skidmore. Esses pesquisadores profissionais preferem o pó dos grandes documentos. Eu prefiro o pó-de-mico, o bafo da onça. Eu olho essas majestades sábias e na verdade vos digo. A coroa do rei é de lata.

O preconceito racial está na nega do cabelo duro e no pente Flamengo que a penteia. O machismo move o sujeito que queria uma mulher que soubesse lavar, cozinhar e o acordasse cedo na hora de trabalhar.

Se a canoa não virar, eu chego lá, mas por enquanto não me leve a mal. Dá um tempo. Hoje é carnaval. Vou de marchinha. Como quem não quer nada, elas retrataram tudo. E é com elas que eu vou, não quero broto, sambar até cair no chão. O bonde de São Januário leva mais um grande otário, sou eu que vou pesquisar.

Essas mulheres, essa morena grau dez, eva querida, lourinha dos olhos claros de cristal, pastorinha, colombina-onde-está-você — nenhuma delas existe mais. As marchinhas menos ainda. É da vida, é da fila que anda, e não sou eu que vou lamentar. O passarinho do relógio tá maluco. Eu, não. Vou é gargalhar. Rir do palhaço. Rasgar a minha fantasia e cantar minha marselhesa: quem gosta de cerveja bate o pé, reclama, eu quero Brahma. O resto é general da banda e dele já ouço, subindo a escada, o grito final. Xiiii. Tem nego bebo aí.

Escrito por Rafael | fevereiro 28, 2006 04:13 AM

Comentário

"Este espetáculo foi examinado pele censura federal e aprovada a sua exibição em todo o território Nacional a partir deste horário...!!!!"
"Garota você é uma gostosura... Foi aprovada pela censura, olha ai... Sai de perto de mim. Olhar prá você eu não posso. Me segura que eu vou ter um troço..."
Bom texto. Eu também quero é rosetar...
Pàrabéns!
Luciano
www.naiveartplace.cjb.net
lucianomoojen@gmail.com

Escrito por: Luciano Moojen Chaves | fevereiro 11, 2007 04:26 PM

Deixe seu comentário




Lembre-se de mim ?

(permitidas tags de estilo)