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março 12, 2006
Vendo tv e lendo os jornais
Quando a gente muda de país, até saber das notícias se torna um passatempo engraçado.
Ver televisão não, dada a quantidade de campanhas educativas que rodam nos anúncios. Apesar da fama de aventureiros, o que as estatísticas dizem é que a maioria dos australianos é composta de couch potatoes, gente que se aboleta no sofá em frente da televisão e dali não sai.
O que não seria problema maior para a saúde, comparando-se com a incidência de câncer de pele a cada duas pessoas, se não fosse comportamente copiado pelas crianças. Por isso, no momento rola uma campanha na qual o sofá onde os petizes estão sentados começa a se sacudir e a brincar com elas, ao ritmo duma música que diz "you gotta move, you better move".
Há coisa de um mês começou uma série nova de programas do Jamie Oliver, aquele cozinheiro inglês. Dessa vez ele resolveu se meter a descobrir o que faz dos italianos tão grandes conhecedores de gastronomia e como de costume, resolveu fazer sua inspeção in loco. Equipou a antiga kombi -- não é modo de dizer, ele tem uma kombi velha, mesmo -- e se mandou para o sul da bota. Não sei se está rolando na tv a cabo, então vou comentar.
O mais genial é vê-lo tentando se expressar com a meia dúzia de palavras que aprendeu em italiano e os locais absolutamente alheios ao inglês dele, falando como se ele entendesse italiano desde pequeno. Quis ser carinhoso e ficou chamando uma velhinha de nona e quase levou um cutucão, "não sou sua nona seu moleque!". Genial.
O formato dos programas é bastante regular: Jamie descobre alguém se alimentando mal, Jaime faz sua alquimia gastronômica, Jamie ilumina o paladar de alguém e ganha um amigo. Primeiro foi ele tentar se meter a vender peixes grelhados numa rua na Calábria. Quase deram-lhe um passa fora. Ofereceu peixe de graça, mas os italianos não queriam arriscar porque estava super temperado com ervas. Acabaram dando o braço a torcer, depois de um tempo. Depois, foi se meter a trabalhar para um restaurante local. O dono quase arranca-lhe o couro, mas libera para que el faça suas receitas. Jaime dá duro, prepara uma penca de pratos, serve, fica meio indignado: "todos eles acham que a comida de suas mães é melhor!". Hilário. No final, cada pessoa dá uma nota aos pratos que comeu. O dono do restaurante pega a imensa quantidade de notas altas, amassa e joga tudo no lixo, ficando só com as 3 baixas e enfia no desconsolado bolso do Oliver. Abraça-lhe e dá uma recomendação: não trabalhe tanto. Eis a diferença entre latinos e anglo-saxões.
Mais depois, Oliver se mete a ir morar num convento onde os frades tinham fama de se grandes glutões. Descobre um latão de legumes preservados na geladeira e começa a ficar intrigado. A janta é legumes no vapor sem tempero. Começa a se irritar -- alguém teria lhe enganado? Resolve fazer tudo sozinho e convoca dois noviços para uma ação de caridade: distribuir comida de graça numa beira de estrada. Claro que é o mote para conquistar os noviços e lhe abrir as portas para os demais frades. O episódio termina com ele botando uns 10 frades para cozinhar coelhos assados, beber vinho e a cena final é ele dançando no meio dos religiosos ao som de uma música do The Cure.
O último que passou foi o melhor de todos: Jamie vai viver com uma família que mora perto de um bosque de onde tira todo o sustento. A primeira providência que eles fazem é colocar Jamie para matar um bezerro. Ele geme, reclama, resmunga, bufa, mas sangra o bruto. Depois vão caçar um porco do mato e Jamie participa de um torneio da cidade local onde ganha quem espalhar a maior área de massa sem furinhos preparando com a mesma quantidade de ingredientes: 2 quilos de farinha e uns quantos ovos. Jamie perde para uma velhinha de uns 80 anos aparentes.
Poucos programas são mais divertidos de assistir.
A melhor edição do Western Australian é a de sábado, vendida nas ruas a partir da noite de sexta-feira nos sinais e nos bairros boêmios. Melhor porque vem com a revista, WA Magazine e um suplemento de final de semana, combinando cultura e viagem, além de classificados de empregos e imóveis e um caderno específico sobre coisas para casa. Viagem, empregos, imóveis, casas: bem vindo à Western Australia.
O Magazine é uma emulação das revistas de fofocas que contaminam as bancas, com um nível um pouco melhor que não é defarçado pela programação de tv no final. Arrumam um jeito de sempre colocar alguma atriz de Hollywood loira, de preferência que tenha o suposto "conteúdo", ou ao menos que dê pano suficiente para uma matéria de capa.
Há algumas semanas a capa foi a Scarlett Johansson. Mas dessa vez rasgaram o verbo: a chamada inicial era It's all ahead of her (está tudo à frente dela) -- on Woody Allen, a so-far impressive career and her two constant companions e o título da matéria era Keeping abreast of Scarlett. Dois trocadilhos infames com os seios da atriz ANTES mesmo de começar a matéria, cujo primeiro terço inteiro era todo dedicado aos peitos de Scarlett Johansson. Unashamedly. Depois de uns 6 parágrafos, enfim podem-se ler as primeiras aspas dela: "Yeah, well, you know, they're the stars of the fim, really". Isso vindo de uma atriz que foi considerada injustiçada por não ter sido indicada ao Oscar de melhor coadjuvante. Dito em meio a um "sorriso beatífico", segundo a matéria.
Eu queria saber o que aconteceria se fizessem matéria semelhante no Brasil. Com uma atriz nova, ainda não consolidada, de evidentes dotes físicos. Digamos, uma reportagem no mesmo tom e com o mesmo tipo de trocadilhos sobre, vejamos, Luana Piovani em O Homem que Copiava. Qual seria sua reação.
Certamente, sairia com 6 pedras na mão berrando que já é uma atriz conhecida, que aquilo era um desrespeito com seu talento, que o jornalista era de meia tigela e que não aturaria mais tamanha [sic] falta de profissionalismo...
Mais Western de sábado. Entrevistão com Kurt Vonegut no suplemento de fim de semana; Kurt anda fazendo sucesso com seu novo livro, que fala mal do governo dos EUA. A matéria ocupa duas páginas do formato tablóide e traz uma bela foto do autor aos 20 anos, mas a melhor coisa é um punhado de frases que alinharam na coluna da direita, a título de legendar a foto clássica do Escritor Soltando Fumaça de Cigarro pela Boca". Diz Kurt: "If you really wnat to hurt your parents and you don't have the nerve to be homossexual, the least you can do is go into the arts" (Se você quer realmente fazer seus pais sentirem dor e não tem peito para virar homossexual, o mínimo que pode tentar é uma carreira nas artes).
E ainda tem Calvin, Modesty Blaise (alô alô Dante) e, desse eu senti saudade, O Mago de Id no suplemento de quadrinhos.
Outra seção muito boa é a de notícias do Mundo, exatamente porque faz jus ao título: Mundo. Reporta não somente o que se passa na Europa ou EUA, mas muito da Ásia, aliás aqui do lado, e África. Numa dessas, peguei um artigo muito bom sobre protestos na Indonésia. Como se sabe, o governo da Indonésia é muçulmano, a política é vinculada à religião (o que faz os ateus ansiarem pela sexta-feira, quando o almoço tem 2 horas de duração por causa de orações obrigatórias) e anda passando por um recrudescimento que tenta aprovar leis mais severas, como a punição de casais que se beijem em público ou uso de roupas menores por mulheres. Levando-se em conta o lucro que o turismo de praia de lugares como Bali tem, dá para imaginar a poeira que anda sendo levantada. O mais interessante é que nesse rolo todo a Playboy resolveu lançar sua edição indonésia.
Para não ofender os costumes locais nem entrar em atrito com as autoridades políticas, os editores prometeram, atenção agora, que a revista não traria fotos de mulheres peladas, apenas pouca e pudicamente vestidas.
Pelo menos dessa vez os leitores da Playboy terão uma bela desculpa ao dizerem que compraram a revista apenas para ler os artigos, conclui a matéria.
E outro dia, passando pela biblioteca pública, descobri uma coleção completa de The New York Times Review of Books entre 1920 e 2000. Hmm. Deu vontade de conferir umas diatribes literárias famosas ali.
Escrito por Rafael | março 12, 2006 09:59 AM
Comentário
ah, eu adoro o programa do Jaime Oliver. são muito divertidos e acho ele espontâneo. além de todas aquelas guloseimas...
e eu naum sou cdf!!
:))
bjk's
monica
Escrito por: monica | março 12, 2006 12:52 PM
Saldöza, Modesty Blaise.
No Bananão, a Cultura importou exemplares do Locas: A Love & Rockets Book.
Escrito por: dgr | março 13, 2006 01:26 PM
Lima, caro, a não ser que você tenha querido aportuguesar o nome do cozinheiro, à moda do antigo "Tesouro da Juventude" (Jorge Washington, Abraão Lincoln, Teodoro Roosevelt and so on), é JAMIE Oliver (e desculpe pela caixa-alta; não sei sublinhar aqui). No mais, post bem bom. Abraço!
Escrito por: Ruy | março 14, 2006 01:12 AM