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março 19, 2006
Multiculturalismo, aqui vou eu
Ao invés de fazer como a imensa maioria dos brasileiros que vêem para Perth e meter a viola no saco, ir à praia, jogar futebol no Kings Park e fazer churrasco, não, resolveu explorar a nova cultura, se integrar aos locais, experimentar outros conhecimentos -- agora, paga. Foi assim que resolvi me meter a assistir o principal evento de celebração da Austrália multicultural organizado pela Kulcha, (uma espécie de Centro Cultural Sérgio Porto do multiculturalismo), a saber: um apanhado de músicos e bailarinos chineses, indianos, africanos, enfim dos quatro cantos do (terceiro) mundo, muito propriadamente chamado World Music Carnival 2006.
Na bilheteria, fui recebido por uma senhora com forte sotaque francês -- eu tinha que ter desconfiado! Onde tem etnias exóticas em extinção tem francês, não tem europeu que curta mais isso do que francês, sobretudo se for do terceiro mundo. Amigo meu pós-graduando na França diz que, no dia em que a pobreza acabar, acaba junto o interesse dos franceses pelo Brasil.
Você sabe que está entrando num evento multicultural na Austrália quando o primeiro som que ouve, antes mesmo de enxergar o palco, é o berro de um didjeridoo, o berimbau australiano. Você tem certeza de que está num evento australiano quando vê um monte de gente sentada na grama -- grama em país anglo-saxão é para se usar, sentar, jogar golfe, críquete, futebol e sobretudo andar descalço -- fazendo piquenique e bebericando vinho, de preferência com o luar estrelado por cima. Ô povinho para gostar de uma farofada, esse.
A programação prometia ritmos de Moçambique, dança indiana, coreografias chinesas, canções do Sudão e, para encerrar, "o mais excitante trio de percussão"... da Austrália! Peraí, não era para ser um evento do terceiro mundo? O que a Austrália está fazendo aqui? Ah, é claro, afinal, somos multiculturais, somos globalizados, mas antes de tudo somos asutralianos... Então que eu cheguei a tempo de pegar o comecinho de um grupo de dançarinas da China, numa coreografia cujo movimento mais impressionante era o jogar de cabelo para a frente e para trás, com fortes golpes de cabeça, ao som do que um brasileiro classificaria apenas como música oriental. Muito me chamou a atenção que tivessem umas duas ou três bailarinas gorduchas ali no meio, porque dançarinas em geral são as que tem o corpo mais bem torneado entre atrizes, atletas, gente cujo corpo é instrumento de trabalho, enfim. Mas não no grupo chinês, ali as gordinhas se misturavam ao resto na maior, numa coreografia que dava mostras de falta de ensaio. Tudo bem, é o primeiro número apenas, vamos em frente.
Eram várias apresentações intercaladas, nem sempre contando uma história linear; das que se propôs a isso, a melhor foi a da dupla Valli Batchelor e Kitsiri, um duo indiano que contou uma história de sedução do Rei Davi, da Bíblia (não me pergunte o que os indianos foram procurar na Bíblia com tanto Mahabaratha para ler), com aquelas sensualíssimas danças das mil e uma noites, foi o momento "tirem as crianças da grama" da apresentação. Eu fiquei um bocado desconfiado porque os números indianos aconteceram ao som de música gravada, e no entanto um dos dançarinos lá pelas tantas pegou um tambor e começou a fingir que estava batucando. Aí não, aí é demais, vamos deixar o amadorismo para quem faz essas coisas. Tipo aquela guria no Rock in Rio 3. Mas depois se redimiram, sobretudo a moça, arrancando aplausos da platéia, que assistia a tudo só quebrando a atenção para beliscar alguma coisa de um dos potinhos plásticos de piquenique.
Depois as chinesas voltaram com mais uma daquelas coreografias na linha Busby Berkeley, fazendo desenhos com os corpos, do gênero que a Unidos da Tijuca andou aprontando no carnaval, só que com a delicadeza de movimentos que um carioca diria que compõe a identidade oriental. Por exemplo, aqueles movimentos com os pulsos como quem está desatarrachando uma lâmpada do bocal, que tem muito nessas coreografias chinesas. Mais palmas.
Seguiu-se à segunda entrada das chinesas o que julguei o melhor show da noite, o grupo de Ngoma, trazendo os ritmos e as danças típicas da região de Moçambique. A crioula que liderava o pequeno grupo entrou com um sorriso muito aberto no palco, foi carismática ao microfone, disse que era hora de trazer a diversão e conquistou o público: mais simpatia em meio minuto do que eu presenciei nos últimos 3 meses, mas vamos em frente. Pelo que entendi, faltava moçambicano para exibir as danças típicas, então engrossaram o côro com umas 4 australianas loiras, duas das quais enormes, selecionadas apropriadamente para o fundo do palco, cada uma trajando uma peça típica moçambicana e com o cabelo preso numa bandana, à maneira africana, o que aumentava um pouco a sensação de estranheza. O primeiro ato foi uma música típica na qual cada dançarina vinha para o centro do palco e exibia um movimento típico de dança, meio como uma apresentação do repertório. Do segundo em diante é que começaram a dançar em grupo. É aí que começa ficar bom.
Começa porque tinha uma mulatinha no palco, estilo Camila Pitanga, que botava para quebrar; vi mais jogo de cintura e rebolado ali do que em 3 meses de Perth. Daqui para diante, toda a vez que eu ouvir a expressão "tem branco no samba", vou me lembrar daquele número. Funcionava assim, a Camila Pitanga no meio do palco fazendo uma sequência de movimentos e o côro repetindo em conjunto, mais ou menos como a Ivete Sangalo puxando uma dancinha numa micareta. Aliás deu para ver de onde esse pessoal tira muitos dos passos de coreografia de micareta na apresentação moçambicana: Mama África. Então tinha um passo que era similar ao can-can, uma pedalada com uma perna de cada vez, se dúvida um movimento vigoroso, mas que ficava solto, leve e até gracioso quando feito pela mulatinha -- porque quando chegava a vez da loirona repetir, ai de quem estivesse na frente daquele pernão chutando o ar.
Eu sei é que a última música, a crioula-líder foi ao microfone e disse que aquela música era a nossa música e quem quisesse, podia vir dançar junto. ENCHEU de gente na boca do palco, desanimados e com a mesma cintura dura das loiras gigantes, mas sacudindo o esqueleto assim mesmo. Detetei inclusive alguns versos em português na música que estava rolando, antes de aproveitar a muvuca para conferir de perto a Camila Pitanga. Que engano! Era mirradinha, menor do que eu, feita impressionante pelo arranjo de trajes coloridos e pela imensa liberdade de movimentos em comparação com as cinturas duras do côro...
À essa altura cumpre a sequência dos eventos observar que volta e meio um australiano levantava e ia embora, carregando as cadeiras dobráveis baixas -- era um evento politicamente correto, todo mundo tinha o direito de ver o palco -- e a tralha de piquenique, afinal nós somos multiculturais, nós somos globalizados, nós somos australianos, nós curtimos dançarinas chinesas e música africana mas o que nós gostamos mesmo é de fazer piquenique... Em cada intervalo o microfone era apoderado por um coroa de cabeça branca para apresentar o que viria em sequência e falar um pouco sobre a Kulcha, um estabelecimento de onde o cigarro foi banido, de onde "você não precisa lavar as roupas depois de chegar em casa". Um estabelecimento cultural cuja grande vanglória é não deixar as roupas do espectador fedendo a fumaça? Eu devia ter desconfiado.
Ainda estava sentindo saudades das moçambicanas, ai como faz falta a influência africana para ajudar esse povo a ter ritmo, a saber batucar, a rebolar -- aliás o suplemento de final de semana do West de sábado é exatamente sobre os refugiados africanos na Austrália --, quando o adentrou o palco Ajak (pronuncia-se áiaque) Kwai e sua banda com canções do sul do Sudão. A bem da verdade, só Ajak era do Sudão, a banda inteira era de australianos: eu já estava desconfiando de ver aquele monte de brancos no palco afinando os instrumentos terem vindo do Sudão.
O repertório se constituiu essencialmente de canções ao mesmo tempo alegres e tristes sudanesas, aquele tipo de melancolia que depois veio a gerar o blues e o samba nas Américas. Senão o melhor, sem dúvida o momento mais interessante foi exatamente quando Ajak cantou um blues, permitindo a comparação dos dois tipos de lamento em forma de música, uma baita lição das formas como o sentimento pode tomar numa canção. Curiosamente, Ajak foi apresentada como cidadã da Tasmânia, segundo ela, muito parecida com o Sudão a menos do frio, para onde emigrou fugindo da guerra civil. A julgar pelas 3 tasmanianas que conheci até hoje, Ajak Kwai deve ter sozinha mais melanina em sua pele do que o resto do bairro inteiro.
Fechou a noite Circle of Rhythm, o tal conjunto de percussão australiano, bem interessante, mas que se focou de mais na pirotecnia da percussão, deixando um pouco de lado o ritmo propriamente dito, o balanço, o suíngue. Inventivo e instigante, mas nem um pouco inovador para quem já conhece Hermeto Paschoal ou Uakti.
Domingo teve manifestação contra a guerra do Iraque na praça principal da cidade. Como se sabe, desde que pediram ajuda aos EUA na II Guerra contra os japoneses que os australianos são aliados e mandam contingentes para que tipo de guerra os americanos se enfiarem da vez: Coréia, Vietnã, Afeganistão e agora Iraque. Não juntou nem 100 pessoas, menos que o bloco de carnaval do Bip Bip. Dentre os quais, contei exatamente 2 hippies, um sujeito com uma camisa escrito em espanhol Los Heroes de la Revolucion sobre as efígies de Hugo Chaves, Bolivar e Che Guevara; 3 góticos, dentre os quais uma ruivinha linda, 3 mães de negro contra a guerra, um sujeito com uma bandeira da Palestina, 3 mulheres de véu árabe e um pessoal de sindicato. Cheguei tarde, peguei apenas os dois últimos discursos: uma muçulmana -- tem muito por aqui, é comum ver gente de véu e até burca nas ruas -- falou sobre o preconceito que enfrenta por conta dos terroristas e como a Austrália deveria acolher muçulmanos, que sim, estavam protestando em sua comunidade contra os atos terroristas e um rapaz alto, de óculos rayban, pele muito branca cuja franjinha na testa e camisa verde musgo deixavam-lhe com uma incômoda semelhança com um Adolf Hitler mais alto e sem bigodinho, que fez um discurso mais inflamado, aproveitando para descer o malho no governo, tiro e queda nesse tipo de manifestação. Depois puxaram uma fila para dar a volta no quarteirão gritando palavras de ordem e empunhando cartazes -- tinha uma caixa de cartazes prontos para você escolher o seu, incluindo protestos contra Israel, Bush e o corte de verbas da saúde pública australiana: é bom aproveitar a chance para protestar tudo de uma vez. Constatei o que já tinha notado no jogo de rugby: australiano é muito ruim em bolar grito de guerra: what we want? Troops out! When we want? Right now!, a única que decolou foi John Howard, war criminal! John Howard, war criminal!, confirmando a tese de que o que sacode o povo mesmo são os problemas domésticos (Howard é o primeiro ministro há 10 anos, o segundo há mais tempo no cargo). Ai que saudade da riqueza de versos e inventividade de Sarney ladrão, Pinochet do Maranhão ou Eu quero mocotó, eu quero mocotó! Será que ao menos ia rolar polícia? Ou o protesto era tão vagabundo que nem policiamento teve? Ah não, olha o carro da polícia ali, com sorte até rola um gás lacrimogênio. Que nada. O carro estava ali exatamente para abrir passagem para a volta no quarteirão, assistida com os olhos incrédulos da imensa maioria dos espectadores. Parecia até aquela história do Norman Mailer em Degraus do Pentágono, mandando um aviso para a polícia que iam cometer atos de desobediência civil no dia seguinte... Ao chegar na Hay Street, a profusão de consumidores varejando as lojas quase engoliu a passeata, tão minguada que estava. É o que dá escolher um domingo de sol para essas coisas.
Entre as décadas de 1950 e 1970 a Austrália implementou um programa de imigração oferecendo estímulos a estrangeiros que viessem se estabelecer em seu território com o propósito de completar o crescimento demográfico com o que a taxa de natalidade não dava. Foi um sucesso e de lá para cá o estímulo à imigração continuou, porém em outras bases. É um dos pouquíssimos países no mundo onde se pode sentir, de fato, a diversidade cultural planetária num rápido caminhar por alguns bairros. E no entanto ainda precisa fazer muito para se tornar, efetivamente, multicultural.
Escrito por Rafael | março 19, 2006 07:25 AM