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março 24, 2006
Chegadas e caminhos
A banalização das viagens e do turismo ampliou o número de viajantes, mas teve várias contrapartidas desagradáveis, como a conversão de igrejas e museus em parques de diversão, a dessacralização da experiência no exterior e, sobretudo, a deterioração das chegadas. O tom menor já começa no desembarque.
Não é possível comparar, apenas para ficar em dois exemplos, o que é a chegada, hoje, em Veneza, através da Ferrovia -- e olha que o trem atravessa por cima da água, numa imagem bem impressionante -- ou no Rio de Janeiro, de ônibus, pela Avenida Brasil -- e olha que quem vem pela Ponte Rio-Niterói tem uma visão privilegiada -- com os espetáculos indescritíveis que eram descer do barco, respectivamente, na Praça de São Marcos, há 200 anos ou na Praça Mauá, há 50 anos. Ver os arcos do Palácio dos Doges se aproximando ao longe e desembarcar naquele amplo espaço coberto por pombos deveria ser uma imagem de emocionar até as toras do navio. Descer a ainda afrancesada e muito arborizada Avenida Rio Branco, desaguando na Avenida Beira Mar, e receber o golpe fatal de ver a praia de Copacabana se abrindo depois do Túnel Velho deve ter feito muito imigrante nordestino achar que tinha chegado no paraíso.
Como em tudo, a praticidade aniquilou muito desse tipo de romantismo em nome duma maior eficiência em acomodar largas parcelas de população, e é cada vez mais difícil reproduzir essa sensação de espetáculo que só uma chegada à maneira antiga é capaz de provocar no viajante, depois de semanas, talvez meses no mar. Provavelmente por isso eu tenha ficado tão tocado ao chegar em Fremantle de barco pela primeira vez, apesar de já conhecer bem a cidade.
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Se aniquilou, a praticidade também se encarregou de criar emoções novas, impossíveis antes da era dos automóveis. Em Roma ainda é possível pisar nas pedras de um pequeno trecho de rua no Fórum Romano por onde Nero, Calígula, César e todos os imperadores desfilavam em suas bigas; percorrer a Unter der Linden, em Berlim, é acompanhar um sucessivo desfile de prédios públicos notáveis, talvez ainda mais bonitos quando iluminados de noite. Mas são trechos antigos, feitos para se fruir à pé ou, na melhor das hipóteses, no lombo de um cavalo, ao contrário de São Paulo, que ninguém que não tenha descido a Avenida Paulista de carro tem o direito de dizer que conheceu. Eu já tinha caminhado por inúmeros trechos do centro dessa cidade. Mas nada se comparou a percorrer de carro a artéria financeira de cabo a rado, de East Perth aos cloisters, vendo Adelaide Terrace se transformar em Saint George's Terrace à medida que os arranha-céus, bancos, a sala de concertos e os poucos prédios históricos que sobreviveram passam. Inesquecível.
Escrito por Rafael | março 24, 2006 02:07 AM
Comentário
Pois é, xará. Meno male que ainda dá pra chegar de barco em Veneza, chegando do aeroporto - é uma experiência espetacular, mesmo hoje em dia (apesar dos turistas). Recomendo!
Abração, espero que esteja tudo ótimo aí down under (pelos teus posts parece que tá). :)
Escrito por: Rafael Azevedo | março 27, 2006 06:22 PM