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março 31, 2006

Dealer's Choice: Patrick Marber antes de Closer

Dealer's choice é o nome de uma variação do pôquer em que, a cada rodada, quem dá as cartas decide qual variante de pôquer será jogada naquela rodada. Dealer's Choice também é o título da primeira peça de Patrick Marber, que revelou seu talento para o teatro e a qual assisti essa semana na montagem da PTC. Para quem não associou nome à pessoa, vou fazer aqui o papel que durante muito tempo foi bem feito por Paulo Francis nas suas páginas semanais e apresentar: Patrick Marber ficou bem mais conhecido através de sua segunda peça de teatro, adaptada por ele mesmo para o cinema e dirigida por Mike Nichols: Closer. Agora deu para localizar, né?

Como eu tinha achado o texto de Closer excelente, nenhum exagero alinhá-lo às grandes peças onde a tensão sexual é latente (como Um Bonde Chamado Desejo), decidi conferir e valeu muito à pena. Se o tema de Closer é a política sexual nos relacionamentos entre jovens profissionais e o tom é de um pessimismo inescapável (um crítico escreveu que Marber é um dramaturgo de fazer Racine, o cronista clássico da paixão fatal, parecer um otimista), Dealer's Choice é sobre, mais do que a compulsão, o vício em jogar cartas que une os 5 personagens e tom, apesar das discussões, significativamente mais leve, atenuado sobretudo pelos rotinas cômicas do personagem Mugsy, que beira o pastelão em certos momentos e só não cai nor ridículo porque fica evidente que ele está ali no papel de patético. Que inspira compaixão.

A peça começa exatamente com Mugsy tentando convencer o cozinheiro Sweeney a não fazer forfait na roda de pôquer semanal da turma; Sweeney tinha prometido passear com o filho e acaba cedendo jogar por uma hora, depois de muita insistência, com a recomendação a Frankie que guarde seu dinheiro maior para que ele não se sinta tentado a apostá-lo na mesa. Frankie é garçom no mesmo restaurante em que Sweeney trabalha e tem pretensões a se tornar jogador profissional; Mugsy, perdedor crônico, tem um mirabolante plano de ganhar dinheiro suficiente para abrir seu próprio negócio e parar de trabalhar horas extras pagando o que perdia na mesa para seu patrão, Stephen, cujo filho, Carl, é viciado em jogo e deve dinheiro para meio elenco, e deve muito dinheiro para Ash, um misterioso jogador profissional que, naquele domingo, juntaria-se excepcionalmente à mesa.

O que a peça tem de brilhante é a análise do comportamento dos viciados em jogo -- todos personagens, em algum momento da peça, se acusam mutuamente de serem dependentes, com agressividade ou fraternalmente -- sem cair no esquematismo, sem criar estereótipos e sem fazer teatro de idéias: tudo ocorre em meio à ação. A cena mais impressionante em termos de linguagem está no primeiro ato, quando dois pares de atores começam a discutir separadamente por motivos diferentes, convergindo para diálogos paralelos muito semelhantes até que não seja mais possível discernir um bate-boca que se superpõe ao outro, efeito largamente explorado em Closer. O que impressiona aqui é que, apesar do texto ter sido escrito exatamente daquela forma, a diretora optou por não usar o recurso do corte (que, no teatro, se faz desligando a luz de uma parte do palco e deixando iluminada somente a área onde a ação acontece), deixando a luz aberta o tempo todo e apenas alternando as falas, até que os gritos das discussões se superpõem.

Marber escrevia de cadeira, desde que veio, ele mesmo, a ser viciado em jogo no período anterior ao que escreveu a peça, chegando a perder, em uma noite, dez mil libras. Hoje em dia está casado e tem uma filha pequena, continua morando na Londres de suas peças e, segundo amigos, seu humor pessoal melhorou muito -- o que talvez prejudique sua produção teatral. Em entrevista recente, confessou que, quando começou a escrever para o teatro, imaginava produzir umas 20 peças antes de se aposentar, e agora, aos 40 anos, se diz contente se conseguir chegar a dez.

Escrito por Rafael | março 31, 2006 01:53 AM

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