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abril 10, 2006

Multiculturalismo, parte II

É uma questão muito mais complexa do que parece.

Poderíamos começar estabelecendo a diferença entre o melting pot e o salad bowl. No cadinho de fusão, jogam-se vários metais diferentes fundindo-os de maneira irreversível numa nova e diferente liga. Já numa cumbuca de salada, por menores que sejam os croutons, pedacinhos de verdura, queijo ou frutas e por mais que estejam embebidos num mesmo molho, você pode identificar visualmente cada item da receita sem maiores dramas.

O Rio de Janeiro, e em maior escala o Brasil, é um melting pot: a junção de imigrantes europeus, africanos e índios numa mesma área postos sob pressão ao longo de séculos desenvolveu uma identidade nova e original que parece converter qualquer novo elemente adicionado à mistura. Mineiros no Rio viram cariocas, baianos viram cariocas, alemães de passagem pela cidade viram cariocas e até paulistas e ingleses não resistem a um dia de praia, umas caipirinhas, uma noite de samba -- e viram cariocas: passam a se vestir, falar e viver como cariocas.

San Francisco na California é um salad bowl. Apesar de ter abrigado chineses, judeus, italianos e negros vindo de diversas partes do Brasil e do mundo nos últimos 150 anos, ainda é muito fácil localizar o que é a comunidade chinesa (Chinatown), a japonesa, onde ficam os italianos -- e continuam falando e comendo e vivendo como italianos -- e assim por diante. Todos falam inglês entre si e usam o dólar para fazer comércio, mas por mais que se encontre descendentes de europeus jogando capoeira ou fazendo meditação zen, as comunidades estão isoladas. O melhor exemplo de melting pot dentro dos EUA é Nova Iorque, onde não importa de onde você venha, se mora lá vai ser mais um apressado, estressado e cosmopolita novaiorquino.

É curioso, porque apesar do Rio ter fama de ser uma cidade cosmopolita, não se encontra espaço ou interesse na cidade para manifestações culturais de qualquer parte do globo. Tem apenas um restaurante tailandês e nem meia dúzia de indianos na cidade. Show de algum conjunto musical africano, se tiver um por ano é muito. O carioca se basta a si mesmo, e agrega ao seu estilo de vida o que lhe interessa dos hábitos estrangeiros, depois de devidamente tropicalizá-los. Querendo diversidade, vá para São Paulo.

Uma das coisas de que a Austrália se orgulha é de seu multiculturalismo, da grande diversidade de culturas e etnias que abriga em seu território. A Austrália também é um salad bowl; há pontos de convergência, mas só se encontram asiáticos nos supermercados asiáticos. É ainda mais curioso, porque apesar da imensa oferta de restaurantes e produtos dos mais diferentes países, os australianos parecem se contentar ou se ater ainda aos hábitos dos ingleses: curtir futebol ou cricket, fazer piquenique e usar a grama (grama não é para ser vista ou respeitada), ir a pub nas sextas-feiras, tomar chá com leite de tarde. A impressão que dá é que 200 anos de império onde o sol nunca se pôs só ensinou os ingleses comer com palitinho, o resto não interferiu em nada nas tradições. Não tem mistura, não tem tanta troca, não dá para perceber uma nova cultura em ponto de fusão como se vê ao vivo no Rio de Janeiro -- e no entanto é muito mais fácil encontrar diversidade aqui do que lá.

Mais complicado ainda é tentar encontrar os motivos. Asiáticos são muito receptivos e amistosos, mas quase sempre andam apenas entre asiáticos e mesmo os ocidentalizados (de Singapura, Malásia, Hong Kong, ex-colônias britânicas, enfim) têm dificuldades em se abrir para elementos da cultura européia: não querem saber do cinema francês, não aparecem numa feira medieval. Já os australianos são mais distantes apesar da descontração, demonstram problemas em perder os hábitos ingleses. Mas se interessam pelo budismo, aprendem a jogar capoeira e dança do ventre árabe, mal e porcamente, vá lá, e sabem que no Brasil se fala português.

Outra diferença importante é que fogos de artifício no meio da noite em Perth são parte da comemoração do aniversário do Buda e no Rio de Janeiro é bagulho novo chegando no morro.

Escrito por Rafael | abril 10, 2006 05:36 AM

Comentário

"Achei" seu blog na Bravo ! e gostei muito desse post que li. Devo retornar. Muito interessante a sacada do melting pot e do salad bowl. Liniane

Escrito por: Liniane | abril 11, 2006 08:43 AM

Gostou do Melting Pot vs Salad bowl ne :)!

Escrito por: Ram | abril 15, 2006 04:54 PM

Nunca havia sacado essa de melting pot X salad bowl. Muito boa a análise.

Escrito por: Luiz Fernando | abril 15, 2006 05:51 PM

A analogia salad bowl/melting pot é copyright do Ram (http://www.cataplum.estertores.com)

Escrito por: Rafael Lima | abril 16, 2006 09:24 AM

Olá Rafael,

um dos povos que guardam tradições é o judeu e, no entanto, é sabido que os judeus americanos são bastante influenciados pelo protestantismo que marca a civilização dos EUA (conheço judeus brasileiros que são praticamente "pré-católicos", de tanto que assimilaram o modo de ser e de estar do mundo luso-tropical). Desconfio que a diferença saldad bowl e melting pot é uma questão de tempo. Ou seja, a primeira tende a se transformar na segunda. O Brasil vem-se formando há mais tempo do que os EUA (ou a Austrália). Tudo bem, a capacidade de assimilação lusa é maior do que a inglesa/britânica. Mas ao fim ao cabo, este é o argumento que lhe submeto, tudo tende para o melting pot.
Saudações.

Escrito por: Juremar | abril 18, 2006 09:18 PM

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