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abril 13, 2006
A França e o multiculturalismo
Os jogadores de origem árabe e africana da seleção francesa, maioria, aproveitaram a vitória na copa do mundo de 1998 para vender a idéia da França multicultural: se havia funcionado dentro daquele time, levando-os ao caneco, porque o país não poderia seguir o exemplo? Nada mais afastado da verdade: se um time de futebol servisse de metonímia para um país, o Brasil seria de primeiro mundo.
Foi mais ou menos com esse espírito que fui assistir Camping at the Farm, uma comédia rasgada, aos 40 do segundo tempo do Festival de Cinema Francês. O roteiro parte de uma premissa tão simples quanto explosiva: 5 jovens delinquentes de origem árabe ou africana são levados a passar um mês prestando serviço comunitário em comutação de pena numa cidadezinha no campo, no coração da França profunda. É o atrito do urbano contra o rural, do marginal contra o oficial, do imigrante contra o nativo. Ao ouvir uma piadinha no bar da cidade, o assistente social retruca com razão: "qual foi a última vez em que vocês viram sarracenos por aqui? Em 1200, por certo?"
Muito da graça do filme se concentra nas patetices dos 5 rapazes em seus afazeres, como a resistência de um muçulmano a trabalhar na reforma da igreja local. Se ficasse apenas nisso, seria somente um filme divertido, mas ao poucos vai-se endereçando, sem perder o tom, o tema principal, qual seja o problema da integração dos imigrantes na tradicional sociedade francesa. Dubiedades de comportamente adicionam complexidade ao painel; aos poucos se descobre que o trabalho comunitário na fazendo não tinha sido um projeto social dos donos da fazenda, mas a contrapartida cobrada pela prefeita para liberar o alvará de uma pousada; que a prefeita tinha interesse em usar o projeto como catapulta para sua imagem política, usando, para tal, dois rapazes na capinagem e marcação de um campo de futebol que nunca seria usado -- a cidade não tinha times -- mas ficaria muito bem na televisão, e assim por diante. Talvez uma mea culpa tardia, motivada por correção política, mas a maior parte das piadas concentra-se no estereótipo do imigrante preguiçoso, namorador, folgado, e que se recusa a sair do gueto cultural/religioso/racial em que se encontra. A mera imagem dos delinquentes, vestidos como cantores de hip hop, andando por uma das ruelas medievais diz mais do que cem teses sociológicas.
A maneira escolhida para terminar o filme, com os adolescentes acolhendo o irmão retardado da personagem feminina principal, deixa uma pulga atrás da orelha. Seriam os imigrantes, assim como os mineiros, solidários apenas no câncer? Ou o diretor quis mostrar paternalisticamente que os excluídos contam apenas com a solidariedade que há entre si? Um certo gosto de correção política fica no ar na saída da sala; apesar das risadas largas ao longo da película, o comentário final arrisca um tom mais sério. Recomendo.
Escrito por Rafael | abril 13, 2006 02:42 AM
Comentário
Este filme estreou quando estava na França. Fiquei curioso, mas como a imprensa local detonou, e Euros são artigos raros, acabei não assistindo. Quem sabe, se estrear por aqui.
A França é liberdade, igualdade e fraternidade. A minha antes da sua, lógico.
Escrito por: Tavela | abril 14, 2006 01:18 PM