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abril 23, 2006

Australianas III

Ainda tem muita coisa para se conhecer nessa cidade.

Foram duas ou três as vezes em que empurrei para depois a chance de ir no Perth Concert Hall. Acredito que foi escrito nas estrelas, porque quando eu enfim pus os pés naquele orgulho e glória da arquitetura australiana, estava em boa companhia e num ótimo dia de outono, nem quente nem frio. Não que eu seja fã de flauta japonesa ou música oriental, mas qualquer um com uma mínima experiência em concertos ou salas de concerto sabe qual o percentual de espectadores está lá menos por causa da música e mais para tirar o sono atrasado.

Eu poderia lista acima, além do sono, motivos como um certo glamour ou elegância que parecem, ainda, transpirar de lugares como aquele, mas como se tratava da Western Australia, decidi evitar. Se bem que é um dos únicos lugares em Perth onde ir arrumado não te coloca imediatamente fora da média local, êta povinho jeca, êta povinho para gostar de uma esculhambação indumentária. E olha que eu não sou dos mais mauricinhos.

O maestro falou bastante à guisa de apresentação das peças de Debussy que foram executadas, não sei se por empolgação, creio que mais didaticamente à título de esclarecimento da platéia. Dura essa tarefa de sofisticar culturalmente um povo, e olha que grana não é muito o problema por aqui.

Depois esticamos no cassino do complexo de Burswood (hotel, cassino, parque, estádio coberto, quadras de tênis...), que eu também não tinha visitado. Um pedacinho de Las Vegas por aqui, afirmação que faço sem nunca ter visitado Las Vegas, haha. Dei pela falta de mais folhetos ou monitores de televisão explicando como se joga; talvez no hotel haja um circuito interno funcionando. Na noite de sexta-feira, a maior parte do público era composta de locais e trabalhadores, não se viam jogadores profissionais ou ao menos gente que entendesse do métier por ali. Também não se via o que costuma caminhar de mãos dadas com jogo: drogas e prostituição. Não chegava à estranheza de ser um cassino família, até por ser vedado a menores de 18 anos, mas pela expectativa que cada apostador colocava em suas apostas, via-se que não eram do primeiro time. A eletricidade no ar é indescritível, só experimentando na pele. No mais, deixo para Hunter Thompson descrever o que acha. Quem sabe a Cecília tiraria uma crônica boa dali; eu não vi muito enredo.

Hoje fui no Perth Motor Show, um salão do automóvel local, no quase ocioso Perth Convention and Exhibition Centre. Sei de inúmeros amigos que adorariam um evento desses, fui mais pela curiosidade. Aqui Chevrolet é Holden, Corsa é Barina e Fiesta é Festiva, se é que estou entendendo direito. Não existe carro econômico nessa terra. Não vi sequer um modelo 1.0, é tudo de 1.6 para cima. Até o Mini Cooper: 1.5. Quem mais me surpreendeu foi o novo Fusca, um inacreditável 2.0, o que explica seu preço mais alto. Os últimos 10 anos de prosperidade e gasolina barata fazem os australianos acharem que baniram a crise de suas vidas, e ainda raciocinam basicamente como os americanos na década de 1960 em termos de carro. O fato da cidade ser planejada para viver em função de carros e das estradas serem bem conservadas vem a calhar. De novo foi Hunter Thompson, em Hell's Angels, quem melhor esquadrinhou o contexto da Califórnia na segunda metade do século XX como berço para as gangues de motociclistas: cidades distantes, paisagens convidativas à viagem. De novo seria ele quem poderia extrair uma crônica do evento, eu não gosto (nem odeio) tanto assim de carro para tal. Curti, por exemplo, ver os modelos novos de Porshe e os antigos de Aston Martins expostos, e fiquei muito satisfeito em saber que o modelo atual do carro que dirijo tem os controle exatamente nos mesmos lugares do meu, mais uma linha arrendodada aqui e outra ali, fiz questão de entrar para conferir.

Também gostei de ver a mini exposição do Fremantle Motor Museum, com um Herbie original (fusca 1968), um Aston Martin do James Bond e duas Harley Davidson das décadas de 50 e 60 -- em cima delas tinha uma tela plana passando Easy Rider. Nenhum desses estava à venda. Mas tinha uma barraca só de miniaturas. Ainda compro um kit para montar meu sedan em casa...

Escrito por Rafael | abril 23, 2006 09:25 AM

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