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maio 24, 2006

Pequeno contato com a democracia, apud Rafael Azevedo

Uma vez o Julio organizou um especial viagens no Digestivo Cultural, e eu lembro que o que mais me chamou a atenção no texto do Rafael Azevedo, mais do que a fluência caudalosa de seu estilo, de que sempre fui fã, era o pomposo e provocativo título do relato sobre uma viagem até Amsterdam: Pequeno contato com a civilização. Que entidade abstrata era aquela a causar tal choque no viajante?

Depois de alguns meses morando fora do Brasil, começo a entender o que ele queria dizer. Não a causa específica do espanto do meu xará, pois ainda não sei bem o que entender por civilização, mas tenho para mim que a sensação sentida ao me deparar, na prática, com conceitos sobre os quais lia e ouvia muito falar quando no Brasil, foi do mesmo impacto que a dele.

Por exemplo, passei uma boa parte de meus últimos anos lendo coisa pra burro com enfoque feminista, mas só vim a entender o que era o tal do feminismo depois de desembarcar na Austrália. Mulheres cedendo a vez para que eu descesse do ônibus na frente delas, simplesmente porque... eu estava na frente delas. Ausência de divisão por gênero dos banheiros portáteis em shows de rock, e assim por diante. Fica mais fácil entender o que as feministas queriam dizer com igualdade de sexos em situações assim. Mas esse nem era o assunto principal, e mais sério, desse texto.

Nos últimos 20 anos ouviu-se falar demais em DEMOCRACIA no Brasil, em como a assim chamada sociedade civil organizada emergiu e começou a assumir seu papel no país, ao invés de continuar cobrando TUDO do Estado. Dava até para pensar que estávamos chegando a algum lugar, ficar animados com ONGs ou iniciativas públicas, depois de 20 anos de eleição direta para os principais cargos legislativos e executivos, esse exercício tão vulgar como importante do voto.

Em menos de 5 meses de imigração, comecei a receber pelo correio convites das câmaras locais para discussão dos assuntos de interesse da minha região, abertos a todo o público e a serem feitos em grandes fóruns locais. Representantes remetem dados pessoais para facilitar o contato, receberem reivindicações e apresentarem-nas em fórum. Mas não é só de representatividade política que se faz uma democracia.

Todo recibo emitido por qualquer caixa registradora mostra a proporção paga como imposto (GST) no preço final ao consumidor. Quem tiver a pachorra de colecionar e computar cada uma dessas, ao final do ano pode determinar exatamente quanto de sua renda foi para o governo, e estabelecer a proporção em relação ao seu salário. Assim, a grita contra os aumentos de impostos fica mais palpável, com menos cara de gritaria.

Quando o sociólogo Herbert de Souza organizou a campanha contra a fome, foi identificada como o maior movimento de mobilização solidária no Brasil dos últimos 20 anos. Outro dia li um jornalista afirmar que faltam grandes movimentos, com slogans para motivar e conduzir a população. Mas não é o que tenho visto aqui. Também recebo pelo correio pedidos periódicos de contribuição para as mais diversas campanhas de solidariedade: lares de caridade religiosa, campanha contra o câncer de mama, etc. Tudo já vem pronto com um formulário para ser enviado junto com o cheque pelo correio, ou simples autorização de débito mensal no
cartão de crédito (não cheguei a descobrir se isso é dedutível do imposto de renda). Um processo limpo, silencioso, eficiente, capilar. Aliás, nem tão silencioso assim: determinados dias são escolhidos para campanhas específicas onde voluntários se postam nas esquinas de maior movimento com latinhas para coleta de doações. Ou seja, a solidariedade já está entranhada no sistema e se vale da eficiência para arrecadar -- sem slogans, sem propaganda na televisão, sem atores dizendo como é bacana usar camiseta com alvo azul e preto no peito.

Em dois tempos resolvi a transferência do carro do antigo dono para mim, e paguei a licença anual. O documento a ser carregado no veículo é tão engenhoso quando simples, apesar de suscetível de falsificação: um simples adesivo padronizado indicando o ano e o mês até quando é válida. O número TFN, uma espécie de CPF local, importante sobretudo para fins de imposto, foi requerido preenchendo um questionário simples porém extenso via internet e entregue cerca de uma semana depois. A sensação de que a burocracia existe para viabilizar e não para atrapalhar a vida do cidadão é maior aqui, mesmo que os impostos sejam iguais e os formulários a serem preenchidos continuem crípticos, mas há pelo menos uma vantagem incomparável: ao final deles, existe uma declaração quase padronizada dizendo "Reconheço que todas as informações prestadas acima são verdadeiras e assumo o ônus da lei em caso de falsidade" sob a qual assina-se e fim de papo. Sem reconhecimento de firma. Sem cartório. Sem testemunhas. Falou tá falado; mentiu: cana.

Lojas que prometem trocar equipamentos com a nota fiscal, danificados ou não, inclusive devolvendo o dinheiro, honram seus compromisso, deixando o consumidor muito mais livre e tranquilo para escolher. Um amigo meu morando no interior da Noruega contou que na Ikea local, ao invés de testar as dimensões no papel ou num modelo de computador, você leva a mesa para casa, monta, vê como ficou e se não tiver gostado, até 6 meses depois te reembolsam o valor. É a maneira mais eficaz de "fidelizar" e "agregar valor" para o cliente. Mesmo com uma infinidade de produtos baratos & perecíveis importados da China, a sensação final é que seu dinheiro VALE.

Calma que tem mais. Outro dia vi na televisão uma audiência do Primeiro Ministo inglês na câmara dos comuns, tipo de programa periódico sobre o qual o Ram já tinha falado, onde o que ocorre basicamente é uma debte na base de perguntas e respostas, aparentemente sem limite de réplicas -- pela arte da oratória um vai encurralando o outro com suas perguntas até que seja a hora do bote, expondo uma conclusão aos olhos da opinião pública. Um lá e cá magnífico entre as posições adotadas pelo Primeiro Ministro e as críticas da oposição, de maneira clara, sucinta, combativa e sobretudo divertida, dado que o debate é assistido pelos outros membros, que se manifestam com ooohs e aaaahs e risos e gargalhadas, esquentando o clima. Em todo o tempo, não se perde o foco, qual seja o de dar explicações, satisfatórias ou não em função dos pontos de vista, sobre os atos do governo. Democracia participativa a toda prova, tiroteio constante, sobre todas as áreas de ação, e haja preparo: o que a gente conhece de debate eleitoral é piada.

Fico pensando quando eu teria condições de ver um paralelo daqueles no Brasil. Impossível. E não falo de Severino Cavalcanti, exceção evidente, mas pegue qualquer um dos antigos presidentes da Câmara ou do Senado: Inocêncio, Sarney, ACM e pense neles discutindo num nível objetivo com o respectivo presidente presidente: FHC, Itamar, Lula. O eleitor ia sair mais confuso do que entrou... Desconfio mesmo da capacidade em se ater aos temas e fatos daqueles políticos historicamente respeitados pela imprensa por sua capacidade e seriedade, aliás aqueles mesmos que foram os personagens principais escândalo do mensalão. Sobrou algum?

Escrito por Rafael | maio 24, 2006 12:27 AM

Comentário

Lima, valeu pela citacao. So' para avisar que seu texto ja' esta' la' (olha o link para a URL, acima ou abaixo, aqui, nao sei...). Estou apenas esperando autorizacao para usar imagens da Mariana. Abraco forte, valeu pela participacao! Julio

Escrito por: Julio | maio 25, 2006 02:54 PM

Grande texto! Pela que lê-lo é compreender o quant estamos distantes da civilização...

Escrito por: Paulo Polzonoff Jr | maio 25, 2006 05:38 PM

Bom para os "indignados" daqui se darem conta de que a sociedade pode e deve se manifestar para fazer a verdadeira democracia.

Agora fica uma coisa de culpar o Estado por tudo, falar que o problema é a má distribuição de renda e depois entrar no carro e ir pra casa assistir TV de Plasma. Tenha a TV de Plasma, mas dê um cobertor, um lar para um menor abandonado, que pode ser o futuro líder do PCC.

Escrito por: André Julião | maio 26, 2006 11:01 PM

Valeu pela citação, xará! I'm flattered... faço minhas as palavras do Polzonoff, grande texto!
Abração.

Escrito por: Rafael Azevedo | junho 1, 2006 11:04 AM

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