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maio 29, 2006
Medo e delírio em papel de carta
Ainda estou a meio caminho na leitura de Fear and Loathing in America, mas já dá para ter uma idéia bem definida do painel formado pela coleção de cartas de Hunter Thompson.
Talvez o que mais me chame a atenção seja o contraste entre a agressividade e violência presentes no subtítulo do livro (a jornada selvagem de um jornalista fora da lei) e nas palavras normalmente utilizadas para descrever o autor, particularmente no período abarcado (1968-1976), e a inocência, quase candura, que se encontra no miolo ao vê-lo oferecendo seus serviços de redação de discursos para políticos que admirava, como McGovern ou Ted Kennedy, na ilusão de que aquele jornalista obscuro seria de grande valor para espantar o fantasma de Nixon. Mais ou menos como se estivesse querendo dar uma força: aí, valeu camarada. Eu poderia ainda usar a infinidade de cartas enviadas para a mãe como mais uma prova do coração mole de Thompson, mas não é isso. Determinado senador até mesmo agradece, respondendo-o em papel timbrado: outros tempos; o mundo era mais fácil há 35 anos.
Por exemplo, não havia email, o que não impedia em nada de um compulsivo como Hunter escrever laudas e mais laudas para amigos, parentes, agentes, editores, clientes e devedores. Talvez o que se comprime hoje em algumas horas fosse esticado por dias ou semanas, mas a essência da comunicação urgente, da necessidade de dizer alguma coisa naquele exato momento está toda ali. Inclusive a gramática truncada por conta da pressa e os escritos dos quais o autor depois se arrepende por ter escrito num acesso de raiva. Para quem tem menos de 25 anos deve ser interessante saber que isso tudo já existia antes do email.
Alguns mitos caem, outro se fortalecem, como o do jornalista autônomo duro e eternamente em busca de serviço: a partir de 1968 Thompson costuraria um acordo com Jim Silberman para publicar pela Random House seu próximo livro, centrado genericamente no conceito a que ele se refere como "a Morte do Sonho Americano". A correspondência relativa ao processo criativo e editorial nunca concluído, que seria substituído por Fear and Loathing in Las Vegas, com pelo menos uns 2 anos de atraso, é talvez o fio condutor mais interessante a ser seguido. Pressionado por dívidas principalmente da compra do rancho em Aspen, que se converteria em seu quartel-general, assina um contrato que a lhe garantir confortável quantia assim que soltasse o primeiro terço do livro. Só que o conceito inicial parece nunca capaz de materializar-se numa narrativa coesa qualquer que ao menos ameaçasse ficar parecida com um livro, e em vários momentos o desespero faz-lhe apelar para a estrutura que Norman Mailer utilizara em Advertisements for Myself: um empilhamento cronológico de artigos levemente encadeados por um texto atual.
Chega a ser hilário vê-lo repassando o que seriam os custos de produção para seu editor, entre eles a assinatura de umas 20 revistas mensais cujo noticiário era monitorado com lupa em busca de sinais evidentes da morte do Sonho Americano. O conceito inicial sem direção evolui para uma espécie de nome aos bois sequencial, onde Thompson perfilaria algumas dúzias de culpados, rebola no meio do caminho com a inclusão de idéias que vão lhe ocorrendo (mandar uma carta padronizada a dezenas de personalidades, notificando-lhes que o sonho americano havia morrido, estava em busca de pistas e requisitando seu depoimento), se perde entre a ficção e reportagem por conta da necessidade de utilizar artigos que foram sendo produzidos ao longo do caminho, entre eles o relato da eleição na qual concorreu a sheriff A Batalha de Aspen, e finalmente desembarca, mais por falta do que por opção, numa mistura muito particular entre jornalismo e ficção cuja melhor dosagem seria o par de artigos convertido em livro Fear and Loathing in Las Vegas, mas que já vinha sendo testado em reportagens como O Derby de Kentucky é deprimente e depravado.
É particularmente gratificante vê-lo usando a expressão fear and loathing pelo que deve ter sido a primeira vez, assim como descobrindo os caminhos que o levariam à particular dosagem de jornalismo com ficção. Não é a única grata surpresa que o livro revela; também se pode descobrir o que ele achou dos primeiros exemplares da revista Zap!, de Robert Crumb, enviada por um de seus editores. Mas nada supera-o quando é pego tendo que explicar os atrasos na entrega do manuscrito a seu editor numa carta de 7 páginas no começo de 1970... Outros tempos, outros editores.
Em termos de raridade, nada supera a troca de cartas com Oscar Acosta, que seria transformado ficcionalmente no advogado samoano. Acosta andara ganhando várias causas em favor do imigrantes e descendentes de mexicanos em Los Angeles, era uma figura interessante e complexa, com forte senso religioso, consciência social e pesado consumidor de alucinógenos. Como se fosse pouco, andava escrevendo roteiros para cinema e peças de teatro, devidamente arrasadas por Hunter em suas respostas. Mais do que com qualquer outro, quando se põe lado a lado as correspondências de ambos, é uma seríssima conversa de loucos.
É uma de suas características fundamentais: torna-se tão mais engraçado quanto mais sério. Irresistível vê-lo zoar com os fãs dos Hell's Angels que lhe escreviam; avisa a uma dona de casa novaiorquina que se declarara fã dos marginais que um par deles estariam passando pela cidade no final de semana e lhes informara o endereço dela para uma visitinha. Até insultando os fabricantes de uma jaqueta mais vagabunda do que o catálogo mostrava tem sua graça. Thompson é irritadiço, ansioso, aparenta sempre pressa para alguma coisa que estivesse acontecendo - como de fato aconteceu em 1968.
É natural que nem tudo tenha sido acompanhado por ele, sobretudo entocado em seu refúgio e com prazos a cumprir: Woodstock nem é lembrado e Altamont merece breves menções, a marcha ao Pentágono (de Armies of the Night) nem aparece, mas na convenção do partido democrata em Chicago está no coração dos acontecimentos e apanha da polícia, acontecimento tão desconcertante que leva-o a criar o pseudônimo Raoul Duke, depois reutilizado por Garry Trudeu em Doonesbury. De tudo isso, o fato jornalístico mais marcante acaba sendo o que ele mesmo cria em 1970 mais para alimentar sua pesquisa em busca dos motivos da morte do sonho americano do que propriamente por alimentar grandes pretensões políticas. Vá lá, ele deve ter achado divertido bagunçar o coreto eleitoral de Aspen ao fundar o partido Freak Power, defendendo em debates que continuaria mascando mescalina se fosse sheriff, mas nunca no horário de trabalho... O resultado da eleição deixa-o muito animado e confirma uma intuição brilhante que alimentaria os textos dele nos anos seguintes, passando para loucura obsessiva -- ainda bem que o tempo não passava tão rápido e deu para esperar dois anos antes de botar tudo no papel: outros tempos, outro ritmo. O registro recorde de eleitores para votar no Freak Power indicara uma tendência que foi devidamente minada nas urnas com uma providencial aliança entre republicanos e democratas para manter o poder onde sempre esteve, mas nesse meio tempo Thompson sacou a jogada e tentou como pôde expandi-la na eleição de 1972, quando foi correspondente em Washington da revista Rolling Stone.
Ainda nessa linha satorial, é comovente ver sua felicidade ao descobrir um veio jornalístico com a reportagem do Kentucky Derby e a parceria afinada que estabelece com Ralph Steadman (escolhido mais por exceção; as primeiras opções de ilustrador eram Pat Oliphant e Ronald Searle). Melhor do que isso só quando recebe carta branca do orçamento da Scanlan's para percorrer um roteiro com ícones norte-americanos, tais como o Superbowl, e violentá-los um a um, acompanhado de Steadman: seu primeiro impulso é perguntar se o parceiro se imaginava viajando pelos EUA detonando as principais referências do país, enquanto gastava o orçamento em drogas e strippers e ainda sendo pago para isso. DEFINITIVAMENTE outros tempos, outro jornalismo...
Cumpre dar relevo à excelente relação que Thompson matinha com seus pares. Até Joe Estherzas, futuro roteirista em Hollywood aparece como correspondente. Um dos interlocutores mais constantes é Tom Wolfe, relacionado diversas vezes como o único jornalista contemporâneo com quem ele poderia aprender alguma coisa. Wolfe igualmente não poupa elogios a Thompson: entre 1965 e 1970 os dois publicariam O Teste do Refresco do Ácido Elétrico, Hell's Angels, Pump House Gang, Kentucky Derby é decadente e depravado, "Hashbury" é a capital dos hippies e Radical Chic: uma enciclopédia de como se fazer jornalismo literário à base de picareta. Na contra capa, Wolfe afirma que só há dois adjetivos desejados por um escritor: ultrajante e brilhante, e que Thompson faz jus a ambos.
Até quando escrevia cartas, resta observar.
Escrito por Rafael | maio 29, 2006 03:45 AM