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junho 07, 2006
Gente em celas
Algumas das antigas celas de ursos do zoológico da cidade foram mantidas para que os visitantes tomassem ciência de um tempo "quando o importante era colecionar e exibir os animais para o público". Sem dúvida; hoje em dia, é possível caminhar no meio de cangurus ou emas, mas na maioria dos casos o que se vê é um mamífero bem miúdo a uns 30m de distância, em geral fazendo a siesta -- carnívoros tipo leão, na parte da tarde, é tiro e queda. Por isso é que os souvernirs dos macacos são campeões (?) de venda na lojinha: orangotango, gorila e macaco-prego sempre estão dando expediente e batendo ponto entre uma balançada e outra. Não era só o macaco Tião.
Já a prisão de Fremantle é o maior estabelecimento de correção penal que lembro de ter visitado, aqueles pátios acimentados e alas mal iluminadas típicas de filme de Hollywood. Passeio menos lúgubre do que o esperado e particularmente instrutivo para quem já leu e gostou de qualquer livro de Edward Bunker. Reabilitação não devia ser um dos objetivos principais se considerarmos as condições de vida básicas mantidas ali: celas sem banheiros, providas de um prosaico balde com tampa para coleta e despejo de excrementos; camas só introduzidas a partir de começo do século XX (antes o sono dos injustos era em redes de lona) e a certeza, confirmada pela guia, de que os melhores empregos eram na cozinha: conta-se que um esfaqueador teria ido trabalhar lá provavelmente por experiência anterior... Há uma reprodução do pelourinho usado para castigos corporais (chicotadas) até a década de 1940, e a forca original usada nas execuções; algumas celas e solitárias foram decoradas mostrando a evolução do interior em períodos históricos distintos -- a partir dos anos 70 a lata de cocô passa a ser de plástico, por exemplo, e no começo as celas eram tão pequenas que tiveram que derrubar paredes para que os detentos ao menos pudessem circular dentro delas. As pinturas na parde feitas pelo prisioneiro A24 foram mantidas, e hoje adornam até cartões postais, assim como as paisagens num dos muros de um pátio interno: concessões feitas às vésperas da aposentadoria do imóvel, em 1991.
Se você ainda tem dívida de que mais do que ciosos, australianos são orgulhosos de seu passado criminoso, basta entrar em qualquer livraria e conferir o tamanho das seções Crime-Ficção e Crime-Não Ficção, onde podem-se encontrar os relatos de Frank Abagnale, as crônicas do submundo de Herbert Asbury, a reportagem best-seller Helter Skelter e muito, muito mais.
Escrito por Rafael | junho 7, 2006 02:28 AM