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julho 24, 2006

Rev Film Festival

Encarar uma maratona na mostra internacional de cinema era algo que eu não conseguia há mais de 10 anos, com tudo o que tinha direito: arriscar filme só pelo nome e assistir duas sessões seguidas num mesmo dia. Tudo isso sem precisar pegar filas ou brigar por lugares; mesmo nas mais disputadas era possível arrumar um assento bom. E só não vi mais realmente por falta de curiosidade, e também porque o festival não é a única coisa acontecendo na cidade. A preferência que dei aos documentários deve-se a um gosto pessoal literário pela não-ficção que parece extrapolar perniciosamente para o cinema, a conferir, e também pela grande oferta mundial nesse gênero, que parece estar se expandindo: metade da programação era deles. As resenhas, pela ordem de exibição:

Lipstick and Dynamite
Documentário sobre ex-campeãs de luta-livre femininas, não a modalidade olímpica, mas aquele espetáculo mezzo armado mezzo pra valer que fez sucesso no Basil no final da década de 1960 e início de 1970 com o nome de telecatch. Eu não sabia de uma versão feminina nos EUA, motivo que me levou a conferir o filme, que funciona basicamente em função das personagens sendo entrevistadas. Os melhores momentos vêm de uma velhinha de uns 300 anos cuja vida passou há tempo demais para ela se envergonhar de qualquer coisa, então é quem menos guarda papas na língua. Tem alguma coisa de bizarro em se dar conta de que uma daquelas senhoras que subiam ao ringue de maiô e sapatilhas de boxe poderia ser a senhora sua avó, e mais ainda em saber que há algo de documental na personagem de Love and Rockets Rena Titañon, mas nem por isso o documentário consegue te tirar da cadeira, fundamentando-se em esclarecer o que aconteceu com cada uma das ex-lutadoras a partir do momento em que abandonaram o ringue: levaram vidas essencialmente comuns, uma até foi medalhista olímpica em sua faixa etária -- exceto a Fabulosa Mulah, que continuou se exibindo até os, cáspite!, 80 anos de idade (atitude unanimemente criticada por suas ex-rivais de ringue).

American Stag
Foi a pior relação expectativa-resultado, dado o tema absolutamente instigante: os chamados stag movies, filmes amadores em super 8 e 16 mílimetros feitos sobretudo entre as décadas de 1920 e 1960, normalmente de teor pornográfico. Talvez porque os entrevistados tenham posto seriedade demais em seus depoimentos, talvez porque o tom tenha deixado demais o lado pessoal de lado, conseguiram transformar a maior coleção de filmes pornôs de autoria anônima do mundo numa coisa quase chata. A sinopse destacava os nomes de Marylin Monroe e Barbra Streisand entre os famosos que atuaram em stag movies, e satisfaz a curiosidade vê-las assim, mas a imagem que mais chamou a atenção foi a de uma animação no mesmo estilo -- também existiam stag animations, assim como quadrinhos (as Tijuana Bibles) -- com Krazy Kat & Ignatz, o magnífico quadrinho de Herriman.

F**k
O nome original desse filme vai grafado de modo eufemístico por uma questão de pudor, que pode não ser muito por aqui, mas respeita-se o que tem. E também por metalinguística, afinal parte de um ovo de Colombo: estudar a maneira como a opinião pública se relaciona com aquela 4-letter-word a partir das tentativas de suprimi-lo dos meios de comunicação e das mais insistentes ainda tentativas de repeti-lo. O material é rico: Lenny Bruce no palco, Howard Stern entrevistando e sendo entrevistado, Eddie Murphy e Billy Connely, Os Nus e os Mortos sendo censurado, costurados com depoimentos de Hunter Thompson (a quem o filme é dedicado, reafirmando que Nixon seria um liberal em comparação com W Bush), Jeanne Garofallo, Alanis Morissete -- essa eu não entendi bem por que estava ali --, Drew Carey, uma atriz pornô e 3 políticos conservadores cujo nome nem adianta citar, que ninguém vai conhecer. A edição é esperta, divida em blocos temáticos curtos e certeiros, cujo encadeamento vai expandindo um painel e contando uma história, exatamente o que os documentários anteriores não conseguem, auxiliada por vinhetas preciosas de Bill Plimpton e, melhor de tudo, apesar do tom ser francamente liberal, é possível concordar com vários argumentos conservadores e encontrar falhas na defesa da liberdade de expressão, sobretudo quanto ao abuso sem sentido de palavrões em séries de televisão. Sessão bastante disputada.

Shutka Book of Records
Esse é sensacional: o diretor desencavou uma pequena comunidade de ciganos Roma na Macedônia, pequena o suficiente para que todo mundo se conheça na rua e grande o suficiente para fugir de uma caricatura de Dias Gomes, cujo esporte principal é ser o campeão da cidade em alguma coisa; como dizem perto do final, o importante aqui não é competir, é ganhar. Assim, o que se segue na tela é uma sucessão de tipos que mais parecem saídos de um livro do Daniel Pellizzari: um derviche que se auto-proclama o maior exorcista de vampiros da cidade; o dono dos melhores cavalos; o escritor do mais completo e nunca acabado dicionário; os maiores colecionadores de fitas cassetes antigas e raras com melodias ciganas; os amantes mais pródigos da cidade, um casal ímpar formado por um senhor na casa dos seus 70 anos (com uma receita infalível de afrodisíaco à base de óleo de cozinha) e sua jovem esposa, resgatada da prostituição; outro senhor na casa dos 80 anos cuja principal diversão é ir em boates ouvir música eletrônica e dançar ("todos os meus amigos são jovens", gargalha ele, "tenho um coração de leão", diz estapeando uma estátua do felino); o campeão de boxe da cidade, derrotado somente pelo vício em drogas. Todos eles têm suas vidas costuradas e entremeadas como num quadrinho de Daniel Clowes. É o tipo de filme engenhoso, profundamente humano, divertido e de orçamento barato que nenhum cineasta brasileiro se propõe a fazer porque, no Brasil, é mais barato e fácil dar vazão na tela aos seus delírios pessoais às custas do dinheiro público do que retratar com poesia a vida de uma cidade do interior.

Animações
Apesar da variedade de estilos e temas, pouca coisa me chamou a atenção. Destaque mesmo só para Carnivore Reflux, feita na técnica que Jorge Furtado andou encaixando em seus filmes, um libelo contra o consumo alimentar de carne muito bem feito, e Tower Bawher, meio Bauhaus, na linha estruturalista. Eu esperava mais do que gracinhas como Richard ou técnicas elaboradas mas sem grandes idéias como Ransis and Alee, visto que uma animação australiana concorreu ao Oscar de melhor curta animado em 2006. Também foi uma sessão bem concorrida.

Midinight Movies
Esse foi matador: entrevistas com os diretores que iniciaram a mania de assistir filmes obscuros em sessões de meia-noite no cinema novaiorquino Elgin, destrichando a história dos filmes em si e as reações do público. Tudo começa com o faroeste zen El Topo, de Alejandro Jodorwsky e continua com Pink Flamingos, de John Waters ("transformei o mau gosto numa coisa respeitável"), The Harder they Come (o "primeiro" filme vindo da Jamaica, revelando Jimmy Cliff como, ora vejam, ator), A Noite dos Mortos Vivos, de George Romero; Eraserhead, de David Lynch e concluindo com o insuperável em termos de fenomenologia pop Rocky Horror Picture Show. Depois de ver esse filme dá vontade de recontar a história da ressurreição de Hollywood a partir de dois prismas: como o cinema comercial foi salvo pela geração de Paul Schrader, Francis Ford Coppola, Martin Scorcese e Steven Spielberg e, enquanto isso, como cineastas underground expandiram os limites da percepção do público por meio de pequenos orçamentos, temáticas polêmicas, imaginário inventivo e gosto questionável.

Todos os filmes foram precedidos da exibição de um curta-emtragem obrigatório, o que me lembro da década de 1980 no Brasil, inclusive pela (falta de) qualidade dos filminhos, na maioria produtos de estudantes das escolas de cinema de Victoria e New South Wales, nenhum dos quais deixando boa impressão.

Escrito por Rafael | julho 24, 2006 03:14 AM

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