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setembro 26, 2006

Roniquito

O que atrai numa figura tão grotesca quanto Roniquito? No documentário The Filthy and the Fury Johnny Lydon diz ter se inspirado nas figuras de Ricardo III e Quasímodo, ambos corcundas, gente que fez da deformidade física um meio de transcendência. Fisicamente, sobreviventes atestam que era feio. Mas o que mais impressionava nele era a personalidade, não a franzinez.

Campeão de citações em qualquer livro sobre o Rio de Janeiro das décadas de 1960/1970, Roniquito ganhou biografia própria, escrita pela sua irmã. Uma difícil tentativa de amarrar todo o folclore que ronda sua figura: sabe-se que ele fora atropelado por um fusca, mas seria verdade mesmo que após ter sido catapultado voltou-se para a cara de horror dos transeuntes e disse "que foi, nunca viram o super-homem?"

Talvez seja o desnudar das hipocrisias, o franco derrubar das convenções sociais, o espelho que mostra que o rei está nu -- e o verdadeiro tamanho de nós, ou antes, de cada um de seus amigos. Não me admira que tenha apanhado tanto; talvez fosse o único meio de fazê-lo calar. Nem assim. Após um espacamento, pé do algoz em sua garganta, gritava: "Cansou?"

O mais interessante era o aspecto final, suicida até, de seu caráter -- o que o separava definitivamente dos outros, sobreviventes ou não. Não fazia o que fazia por arte, provocação ou inconformismo; não se podia conter. Foi o que foi até o fim, sem se render, sem redenção, sem culpa. Lugar reservado no panteão.

Escrito por Rafael | setembro 26, 2006 06:26 AM

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