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outubro 20, 2006
Outback australiano: um relato cubista
A variedade de experiências contrasta com o vazio do cenário quando se viaja de carro pelo noroeste australiano; percorrer as longas distâncias é experiência indispensável para compreender o país e o povo que habita esse pedaço desbitado e selvagem de terra, o próprio velho oeste. Europeus com quem conversei no caminho se mostravam deslumbrados com a ausência de fronteiras visíveis ou perceptíveis, com a possibilidade de dirigir centenas de quilômetros de estrada sem uma fazenda, um cata-vento, uma reserva natural, um pasto que fosse nas beiradas -- não obstante o risco de atropelar um canguru, uma cabra, um lagarto, uma das muitas emas suicidas que parecem esperar o veículo para atravessar as pistas. Animais na pista são vistos como símbolos de liberdade, nunca de perigo para o motorista, ou para os próprios animais. Ou como possível fonte de alimentação ou sustento, provável interpretação brasileira. Mas me adianto.
A partida foi numa sexta-feira de manhã de Perth, capital do estado de Western Australia, o maior da Austrália e dentro do qual uns 3 ou 4 países da Europa caberiam, estado ao qual ficaram circunscritos os mais de 5000 quilômetros de jornada ao litoral e interior australianos, cumpridos a bordo do que chamaríamos no Brasil de um rabecão, um daqueles carros com traseira estendida e bagageiro amplo que parecem ter sido criados para esse tipo de viagem: apesar da proporção de veículos com tração 4x4 para convencionais ser de 10 para 1, a boa conservação das estradas permite que a viagem seja toda feita com um daqueles. Dali para o norte, cruzando o Trópico de Capricórnio, para onde a temperatura é mais quente e as famílias emigram durante o inverno, fugindo do frio qual as baleias ao lado de quem é possível mergulhar em Exmouth.
Não é preciso sair um raio maior do que 100km de distância de Perth para descobrir que aquelas placas as mais variadas avisando sobre animais na pista não são apenas lembranças Made in China de uma loja de souvenirs: são instrumentos de sinalização para valer. Arrisque-se a permanecer dirigindo depois do pôr-do-sol e, numa área ainda relativamente selvagem como Point Quobba, terá cuidado redobrado com famílias de coelhos, lagartos, emas e cangurus saindo, ou fugindo, da caça. As centenas de carcaças de cangurus que se vêem durante o dia ao largo das estradas, devidamente arrastadas para ali provavelmente por algum ranger madrugador, e toda a sorte de predadores de carniça que se segue (quadrúpedes como feral foxes, ou aves de rapina como ospreys), atestam uma das principais causas de acidentes automobilísticos do país, devidamente convertida a atração turística.
No zoológico de Perth tenta-se mimetizar a experiência de uma caminhada no outback na área batizada de Australian bushwalk, onde se esbarra em cangurus cinza e mallefowls, mas nada explica a sensação que se apossa do corpo ao sentir a temperatura subir, a umidade cair e a vegetação minguar, abandonando o verde e as árvores em nome do amarelo-palha e dos arbustos. Em alguns trechos o vento é tão constante e forte que verga pequenos troncos, trazendo a copa ao rés do chão. A monotonia da paisagem é quebrada apenas muito raramente de sorte que qualquer variação visual é uma novidade bem-vinda: uma cadeia de montanhas ao fundo, uma ponte sobre um riacho seco, gigantescos ninhos de cupins, uma família de vacas pastando. E, honestamente, quando aparece uma placa avisando que aquele trecho da estrada é sujeito a inundações-relâmpago ou que você está prestes a passar por cima de uma grade sobre o canal de escoamento da estrada, você torce é para que a monotonia volte o quanto antes. Lembrei-me do modo como Ariano Suassuna incorpora e converte em personagem a fauna e a flora do cerrado em seus trabalhos, transformando porcas em símbolos de riqueza e onças em estandartes de heráldica; no fundo, não é muito diferente da propaganda que os escritórios de turismo australiano tentam fazer, elevando aquele inóspito ecossistema a atração turística -- no lugar de onças, mandacarus, raposas, cabras, gaviões e veados, tem-se cangurus, ospreys, feral foxes e ratos do deserto transitando entre as ubíquas spinifex, minúsculos arbustos de folhas pontiagudas que povoam o terreno. Lá como cá, a convivência é agressiva, espécies se estinguem e nem a cerca eletrificada que isola o François Péron National Park garante a sobrevivência de roedores miúdos ao isolá-los de seus predadores.
A partir de Geraldton, dirige-se cem, cento e cinquenta quilômetros para chegar num mísero posto de gasolina com restaurante incorporado, mas até mesmo aqui o espírito de responsabilidade pessoal e auto-suficiência anglo-saxão se impõe: apesar de motoristas cansados serem presenteados com um copo de café grátis, cobra-se mais caro por refeições consumidas no próprio local do que pelas embaladas para viagem; a impressão é de que as mesas e cadeiras na sala ao lado são meramente decorativas -- até porque não se encontra ninguém sentado nelas, mesmo. São roadhouses que prometem o verdadeiro sabor da Austrália mas têm todas o mesmo cardápio de hamburgeres, além das mesmas meat pies e muffins industrializados, o que talvez diga o suficiente para um bom entendedor sobre a culinária australiana. Só trouxa ainda acredita que a rede de restaurantes Outback vende a pratos típicos. Nem as camisetas, bonés ou stubby-holders que fazem as vezes de souvenirs fazem questão de esconder a falta de originalidade denunciada também pela procedência oriental: do interior australiano, mas made in China. Perto disso, o artesanato de madeira das lojinhas das estâncias hidrominerais no sul de Minas são esculturas de Antonio Canova. E a cada 100 quilômetros o preço da gasolina sobe uns 10 centavos.
Ignorando-se a catedral de Geraldton é possível dormir em Denham no mesmo dia da partida, uma cidade de praia com um quê de Arraial do Cabo, mas a estranhíssima assepsidade inerente aos anglo-saxões, que inventaram a praia para quem não gosta de se sujar de areia. É provável que não exista no mundo igual cidade de praia ensolarada e organizada como aquela, onde a faixa de areia seja limitada por um vasto gramado, mais uma das manias anglo-saxões. Nunca é demais notar que viajei em companhia de um francês, o que facultou muito minha habilidade em identificar essas características. Denham sobrevive essencialmente como pouso para quem visita Monkey Mia, o resort e centro de pesquisas que se desenvolveu completamente em cima do fenômeno dos golfinhos que regularmente visitam a praia três vezes por dia, na parte da manhã -- e o primeiro dos logradouros com nome esquisito numa vastíssima coleção cujos primeiros prêmios em originalidade vão para Endless Loop e os nomes aborígenes. Monkey é um termo que remonta aos tempos anteriores à correção política da extração de pérolas usando asiáticos como mão de obra barata & especializada: os monkeys; mia é corruptela de termo aborígene significando toca.
Monkey Mia disputa com os estromatólitos de Hamelin Pool para ver quem melhor explora uma criatura marinha na região; Monkey Mia parte na frente por conta da extrema amistosidade dos golfinhos, que chegam a roçar seus narizes nas pernas de alguns turistas, mas só Hamelin Pool tem biólogos atestanto que aqueles pedregulhos em forma de côco são as mais primitivas formas de vida encontradas na terra, anteriores até mesmo aos dinossauros. Os estromatólitos de Hamelin Pool contam apenas 3000 anos de vida e podem dar belas imagens de fundo para telas de computador, mas no final seres imóveis de milhares de anos ainda são mais sem graça do que golfinhos semi-amestrados, ou seja, trocando em miúdos, até a primeira grande atração da Costa dos Corais, são uns oitocentos quilômetros saindo da capital para ver meia dúzia de golfinhos amistosos e uma praia cheia de pedras que parecem cocôs. Alguém vai pagar caro por isso.
Continuando a subida pelo litoral, a próxima atração são os blownholes de Point Quobba: formações rochosas (vulcânicas?) na beira da praia severamente castigadas pelo, atenção ao termo, swell. Em alguns locais, abriram furos por onde a água do quebra-mar é espirrada cada vez que uma onda estoura, os populares blownholes. A região não é famosa apenas por isso; há praias de surf e bons locais de pesca, numa das áreas ainda relativamente selvagens, dado que a estrada não é asfaltada e pouco acessível a carros comuns; o mais provável é que você encontre surfistas, pescadores ou rancheiros ao invés de turistas por lá. Aliás a placa que adorna a junção da estrada em frente aos blownholes é um excelente exemplo da rudeza anglo-saxã versão surfista: King Waves Kill, logo à frente de um marco identificando onde o último pescador morreu depois de se meter a malandro e chegar perto demais do mar. Sutil como uma tsunami.
Quem chega a Coral Bay depois de mais de mil quilômetros de estrada num dia de sol acha que descobriu o paraíso, com aquela espetacular água azul turquesa banhando areias brancas, temperatura perfeita e corais visíveis nadando-se menos de 50m do raso, mas se der-se ao trabalho de levantar a cabeça da toalha -- esse povo vai à praia de toalha, horror, horror -- e olhar ao redor vai notar que é apenas, somente, unicamente UMA praia no que consiste a cidade cuja população oficial é de 120. O resto não é muito diferente: um caravan park, um restaurante de frutos do mar, uma pousada: já vi esse filme, onde mesmo, em Denham? Para quem se fia nesses nomes inventados por operadores turísticos, Coral Bay é a primeira grande parada da chamada Costa dos Corais (Coral Coast), litoral noroeste australiano que concentra tanto desses seres que vivem em colônia, dizem, quanto a Grande Barreira de Corais, que fica no outro lado do continente, porém infinitamente menos explorado -- tão menos explorado que chegam a vender o período de cópula como atração turística, cópula dos corais, bem entendido: entre março e junho liberam suas sementes no mar, conferindo-lhe uma coloração toda particular. É o espetacular recife de Ningaloo, Ningaloo Reef, alvo de um imenso resort que não sai do papel há anos. Eu me pergunto se seria o ideal construir resorts próximos de praias coalhadas de corais; se forem corais macios, serão irremediavelmente destruídos por pisadas, pondo fim a espécies centenárias; se forem duros, tornarão a praia inviável para banhistas comuns, sendo aproveitada plenamente apenas por mergulhadores.
Esse é precisamente um dos dilemas que assombra Exmouth, no coração do Ningaloo Reef e da indústria pesqueira -- é o quartel general da pesca de camarões gigantes das milionárias empresas Kailis, que dominam o comércio na região (tanto quanto a extração de pérolas em Broome).
(continua... a viagem durou 10 dias e relato mal passou do primeiro final de semana...)
Escrito por Rafael | outubro 20, 2006 04:14 AM
Comentário
Rafa, perdão se - por andar sem tempo de sobrevoar a blogosfera - eu já estiver chovendo no molhado, mas quando pinta a versão impressa da australian trek?
Aguardamos.
Grande abraço.
Escrito por: Nelson Moraes | outubro 20, 2006 10:22 AM
Rafael,
li o início da história e tenho dois comentários...
1. Quando é que você vai fazer algo parecido pelo sertão nordestino e transformar o relato num livro que será posteriormente transformado em filme de Walter Salles com o Antônio Fagundes como protagonista???
2. Cadê os relatos da NOSSA viagem???
abraços,
Prunzel.
PS Não li tudo ainda... mas vi algo parecido quando saí de Natal para Canoa Quebrada, no Ceará. Retão, cactus, e, vez ou outra, um cavalo de pau da Petrobras.
Escrito por: Paulo | outubro 27, 2006 11:48 PM