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outubro 26, 2006
Intervalo
Intervalo rápido na narrativa da viagem apenas para ajustar os ponteiros. É que andei esbarrando numas coisas por aí nesse meio tempo, como a história sobre o único diálogo entre Joel Silveira e Nelson Rodrigues:
Eu nunca disse que não gostava de Nélson Rodrigues. Apenas convivi pouco com ele. Fomos colegas de redação. Gosto da peça “Vestido de noiva”, mas a verdade é não nos entrosávamos. Uma vez,eu estava escrevendo alguma coisa - escrevo depressa na máquina, porque no fundo sou mesmo é um bom datilógrafo. De repente, Nélson Rodrigues caminha em minha direção, fica parado diante de mim com um cigarro pendendo na boca e exclama: “Patético !”. Em seguida, foi embora, em silêncio. Quando acabei de escrever, fui até a mesa de Nélson – que batia à máquina com dois dedos – e fiz a mesma coisa. Fiquei em silêncio vendo-o escrever. Depois, disse, simplesmente: “Dramático ! ”. Fui embora. Nosso único diálogo resumiu-se a estas duas exclamações – “patético” e “dramático”.
Ou como Jimmy Corrigan, the Smartest Kid on Earth, que eu me prometia ler há muito tempo e nunca tinha encontrado. A quantidade e o tom dos elogios que se encontra relacionada a Chris Ware chega a ser indecente, sobretudo para quem nunca ouviu falar nele. Chegava inclusive para mim. Até que esbarrei numa de suas primeiras histórias, I guess, feita para a Raw, e comecei a entender o porquê. Nada é o que parece; o clichê "ter expandido os limites da linguagem" soa eufemístico.
Mas nada superou a melhor lição política que eu já tive, cortesia do bibliófilo José Mindlin em palestra em Curitiba, registrada pelo Tiago:
Só tive uma participação partidária interessante no ano de 1936, na Faculdade de Direito. Um dia, cheguei no pátio da faculdade e vi uma moça cercada de rapazes cabalando para entrar em um dos partidos acadêmicos. "Entre para o Partido Libertador." "Entre para o Partido Liberal." Foram desfiando nomes de partidos acadêmicos. E eu olhei para aquela moça, que eu estava vendo pela primeira vez, e disse: "Tudo isso é bobagem. Se você quer um bom partido, está aqui". Ela me tomou a sério. E tivemos uma vida muito feliz, quase 70 anos de convívio que infelizmente terminaram esse ano, com o falecimento dela.
Escrito por Rafael | outubro 26, 2006 12:31 AM
Comentário
Eii passando pra conhecer seu blog, e me encantei, estou fuçando tudo por aqui.(rs)
Seu blog ta lindo demais viu?Ofereço a vc o award Blog perola da net do Lua em poemas, e convido a participar dos meus destaques. bjs e um otimo final de semana.
Escrito por: nancy moises | outubro 27, 2006 11:51 AM
sou um dos que - até hoje - nunca tinham ouvido falar de CW, mas isso de nunca ter ouvido falar das coisas boas deixou de me angustiar (um pouco) depois que ouvi, digo, li Mindlin dizer que:
"Há um grande fator contra a leitura suficiente: o tempo. O tempo tem limites e o que existe para ler não tem limites. A gente sempre tem a ilusão de que vai conseguir ler. Compra muito mais livros do que vai conseguir ler. É preciso se conformar com isso. A gente lê o que consegue. Eu fiz um cálculo há alguns anos, quando a biblioteca ainda era menor. Eu precisaria de 300 anos para ler todos os livros. E, nesses 300 anos, seriam publicados tantos outros livros que eu teria vontade de ler, que eu precisaria de mais 300. Então desisti da idéia de ler tudo, que era naturalmente um sonho. Me contento lendo o possível."
abraço
Escrito por: tiago a. | outubro 29, 2006 08:41 AM