« Intervalo | Principal | Interrupção 2, revisada »

outubro 31, 2006

Outback australiano: um relato cubista, continuação

Esse é precisamente um dos dilemas que assombra Exmouth, no coração do Ningaloo Reef e da indústria pesqueira -- é o quartel general da pesca de camarões gigantes das milionárias empresas Kailis, que dominam o comércio na região (tanto quanto a extração de pérolas em Broome). Também foi em Exmouth que conhecemos duas francesas que estavam percorrendo a Austrália inteira ao longo de um ano numa van; encontrar francês e alemão foi mato nessa viagem, teve aquele casal que nos deu carona em Karijini na trilha onde o nosso carro não passava e um outro mochileiro que contou sobre o mergulho com arraias de 5m de envergadura.

As duas francesas tinham vindo do norte, de Broome (que não estava no nosso roteiro), Port Hedland, Karratha e Karijini, num esquema de dureza incrível, do tipo dormir em áreas de repouso em beira de estrada para economizar diária de camping e trabalhar na colheita de frutas durante a estação, como Kerouac em On the Road. Tinham comprado o fogareiro poucas semanas antes e o carro tinha sido um presente, doação, entenda-se como quiser, de outros viajantes que conheceram na primeira parada da viagem. Tomavam banho uma vez por semana; segundo o francês que viajava comigo, na França tinha muito daquele tipo de pessoa que gosta de ficar sujo, talvez como os quatro de Marselha em quem esbarramos no Spider Walk do Karijini National Park: os 3 homens estavam jogando cartas enquanto esperavam a única moça.

Meu camarada francês ficava indignado -- primeiro, francesas que sequer tinham comprado um carro para viajar, depois, franceses que ociosamente jogavam cartas na ausência feminina. Era isso que a França tinha a oferecer ao mundo?, perguntava-se ele. Europeus, e sua irredutível mania de querer civilizar o mundo. Enquanto isso, os africanos aportaram no Brasil contra sua vontade, como escravos, e deixaram uma influência na cultura da colônia tão importante quanto a européia...

De acordo com qualquer folheto turístico, a Coral Coast abrange toda o litoral de Coral Bay ao norte de Exmouth, englobando todo a área de preservação do recife de Ningaloo, dividida em áreas de preservação (onde até o banho de mar é proibido), conservação, pesca e turismo, ao longo de vários quilômetros. Na prática, é uma meia dúzia de praias boas para mergulho -- embora nem sempre para se bronzear -- seja de cilindro, seja em apnéia, muito embora todas as setas acabem apontado mesmo para Lakeside e Turquoise Bay, as mais, digamos assim, cênicas. Em Turquoise Bay fica o mergulho mais divertido, orientado de forma unânime em todos os guias: estacione o carro, entre na praia, caminhe 300m no sentido sul, entre na água, nade 40m mar adentro e deixe a correnteza te levar. Se você conseguir controlar o pânico em se ver incessantemente rebocado pela água por mais que bata as nadadeiras, e for esperto o suficiente para escapulir da correnteza no banco de areia que separa a praia da baía, vai ter a chance de apreciar formações de corais das mais diversas e interessantes sem nem ter o trabalho de nadar até elas -- a contrapartida é a impossibilidade em seguir um peixe mais colorido que te atraia. Gostou? É só caminhar de volta pela areia até o ponto de partida e fazer tudo de novo: o carrossel fica por conta da natureza.

Para as crianças e os apavorados com a correnteza, existe a opção de mergulhar na baía propriamente dita, igualmente povoada por corais soberbos a menos de 20m de natação. Em Lakeside, procurando um pouco, pode-se topar com tubarões ou arraias, mesmo em apnéia, mas dependendo da época do ano, pode-se fazer um mergulho de cilindro nadando ao lado de tubarões baleia, cachalotes ou leões marinhos. Um alemão me contou que, ajoelhado no fundo do mar a 15m de profundidade, viu arraias manteiga (Manta rays) de 3m de envergadura voarem por cima dele, o mesmo tipo de arraia que aniquilara meses antes Steve Irwin, o caçador de crocodilos.

Quando menciono que deve-se estacionar o carro na entrada da praia, é porque o único modo de se chegar em todos esses lugares é através de veículo próprio, tanto melhor se um 4x4. São praticamente todas praias ainda selvagens, sem água potável por perto. De fato, muito do que se vende como aventura na costa noroeste australiana justifica esse nome: sem planejamento, preparo e uma dose de disposição inversamente proporcional à necessidade de conforto não se aproveita nada. Mais do que turismo, o nome aqui ainda é exploração: o dispersão acentua a impressão de conquista, de colonização. E de quebra, determina muito do caráter do habitante local: insular, desbravador, rural. Há mais em comum entre o espírito do surfista e do fazendeiro da Austrália Ocidental do que trai a primeira vista. Na primeira vez em que se cruza com um nativo trajando bermudas e camisetas coloridas de surfwear, calçando botinas Mack e usando um chapéu de couro de canguru numa das trilhas de Karijini, parece a mais ridícula indumentária do mundo. Depois de meia hora no mato, a vestimenta começa a fazer sentido. Embora continue ridícula em termos estéticos. Mas a disposição em explorar áreas desocupadas, a simplicidade indumentária e a praticidade estética, o amor pela natureza, são exatamente os mesmos.

Carnavon é a última cidade grande, obviamente, em termos locais, antes de Exmouth. É um dos celeiros do país, produzindo bananas, mangas, limões, maçãs para consumo local. Falando assim, até parece um paraíso tropical encravado na costa ocidental e não a cidade de onde o quilograma de bananas é exportado a 13 dólares australianos, um acinte para qualquer sul-americano vindo de uma república das bananas. E nem ao menos são amarelas e bem nutridas; em geral, verde-acinzentadas e mirradas. Como única opção local, Carnavon atrai trabalhadores sazonais na colheita dessas frutas, gente como as francesas do banho semanal que encontramos em Exmouth; de resto, poucas atrações turísticas pedem uma parada (Geraldton ao menos tem sua catedral), a principal delas sendo o píer construído no século XIX para o escoamente via trem da produção, hoje inutilizado e abandonado. Por fim, Carnavon guarda a vergonha de ter sido palco de algumas das mais sinistras chacinas de aborígenes locais.

Apesar da boa estrutura e das facilidades, Carnavon, Geraldton e sobretudo Exmouth parecem arraiais se comparados com as cidades portuárias de Karratha, Dampier e Port Hedland. Não que haja grandes diferenças em termos de arquitetura ou mesmo de população, mas a pujante atividade econômica em cidades que escoam a produção de ferro aliada à atividade dos portos, que funcionam como trampolim para os projetos de exploração de gás e petróleo submarinos na costa noroeste da Austrália conferem um ar completamente diferente àquelas cidades. Nada do jeito relaxado, quase de férias eternas, que se vê em Exmouth, ou da brisa convidativa para a vida ao ar livre que sopra em Carnavon: as temperaturas batem facilmente os 40 graus já no começo da primavera, faz calor o dia inteiro, os arbustos da paisagem dão lugar a montanhas cobertas de minério de ferro, em cenários de um vermelho empoeirado que entristecem um bocado a vista. Cidades funcionais, de trabalhadores, blue collar; cidades que produzem incessantemente mas que dormem cedo, porque o turno começa ainda mais cedo; cidades de oportunidades onde motoristas de caminhão podem fazer seu pé de meia. Cidades regidas pela ética da classe trabalhadora, onde por mais que se procure, não se encontra sinal de proletariado -- tal como Tom Wolfe sacou em Hooking Up: nos finais de semana, os mineiros e portuários saem para mergulhar ou pescar no arquipélago de Dampier.

Ninguém vai a Karratha ou Dampier fazer turismo convenvional, por mais que os folhetos turísticos tentem vender uma trilha com inscrições aborígenes nas rochas ou uma bela praia; as vistas não são bonitas, ainda que haja algo de atraente nas imensas pilhas de sal ou nos guindastes gigantescos operando no porto noite adentro. Um monumento ao empreendendorismo, talvez. Nem por isso, deixam de ter suas história; tal como aquele cachorro que aparece no livro de Ruy Castro sobre Ipanema, aqui também existiu um cão que pegava trens e ônibus sem ajuda, que se transformou em personagem e chegou a ganhar uma estátua de bronze na entrada de Dampier, convertendo-se em símbolo local, na falta de melhor, diriam as más línguas. Passear por essas cidades é entender o que faz o estado da Western Australia tão rico, é vislumbrar o que a capital, tida como sofisticada -- realmente, quem cresce em Porth Hedland quando chega a Perth acredita que desembarcou em Los Angeles --, era há não mais que 20 anos, é enxergar que esse país foi e continua sendo construído por trabalhadores, gente simples e sem distinção de classe e se orgulha disso; e ainda uma ou duas lições caras aos ouvidos brasileiros.

Quase todos os projetos públicos naquela área são patrocinados por alguma multinacional, em geral as empresas gigantes BHP ou Woodside. Não existe uma Petrobras, muito menos uma Vale do Rio Doce australiana para operar os portos, movimentar o imenso trem que alimenta o terminal de Port Hedland incessantemente com minério de ferro (no espaço de tempo em que se aguarda a passagem dos vagões, daria para ter feito a barba com meu barbeador elétrico), perfurar as minas. Não há australianos clamando que o ferro é deles ou que a Austrália não deveria entregar suas riquezas ao capital estrangeiro; eles querem é que o buraco das minas seja mais fundo. É apenas de se imaginar o estrago feito no imaginário milenar dos aborígenes ao verem desaparecer cadeias de montanhas existentes aos mesmos 30 mil anos em que eles habitaram a região ao serem escavadas. Não há ONGs berrando pelos direitos dos aborígenes na região; reservam-se áreas para que eles vivam, mas de preferência, bem longe das minas de ferro e ouro. Encontram-se aborígenes a mancheia nessas cidades, meio integrados à sociedade, vivendo em casas baixas com quintal nos fundos, tal como é o sonho de qualquer australiano. Suas crianças lembram um pouco os menores abandonados das cidades grandes brasileiras, pelo descuido do penteado e por andarem sempre descalços, mas estão todas bem alimentadas e vestidas, normalmente com camisas de jogadores da NBA ou na moda de rua dos cantores de hip hop. Recebem estipêndio do Estado; é a única interferência na economia (imagino que o prefeito de Port Hedland discuta com o gerente do pólo industrial da Woodside antes de tomar qualquer decisão: uma canetada e o último põe um terço da população na rua. Aliás o gerente deve ser o próprio prefeito). Ninguém vai a Port Hedland fazer turismo, e se vai, não sai de lá impunemente, sem alguns fatos esfregados na cara.

Ao sul de Port Hedland há uma curiosidade: Cossack, antigo e importante porto no século XIX, posteriormente abandonado, hoje uma diminuta cidade fantasma cujos principais prédios públicos, onde a cal branca das paredes está invariavelmente suja pela ubíqua poeira vermelha das montanhas de ferro -- não, nem os arredores de Minas Gerais são assim, minha memória pode trair, mas nada era tão opressivo como no noroeste da Austrália -- ainda podem ser visitados. Há a antiga sede dos correios, há o prédio da prefeitura, convertido em museu; há sinais de boa conservação. Mas a desolação da paisagem, a aridez extrema do clima, a poeira inevitável e alguns aborígenes perambulando perdidos contribuem para pintar um dos quadros mais inóspitos e agressivos que me recordo. Se você ainda tinha uma dúvida até esse momento, ela se desfez: você está no velho oeste. No velho oeste, sem tirar nem pôr. As boutiques internacionais na King Street, a grama frondosa do Kings Park, o ar condicionado das lojas de departamento na Hay Street, as cocotas desfilando com seus óculos escuros cobrindo um terço do rosto em Perth -- tudo é exceção, tudo é minoria nesse continente de cidades empoeiradas, austeras ao ponto da tristeza, estóicas. Western Austrália é o velho oeste, é San Francisco em 1895, é Vila Rica no Século XVIII, sem os Colt 45. O resto é igual. Não há indústrias, não há grandes plantações, não há silos, não há moinhos e consequentemente não há cidades erguidas ao redor; apenas minas e assentamentos próximos descrevem a geografia do interior, do Outback, do inferno avermelhado que não cansa de cuspir ouro e ferro para a riqueza do país.

Não é de espantar que a descida rumo ao sul seja bem vinda no que toca à mudança de temperatura, e às promessas que o Parque Natural de Karijini promete. Mas que não se idealize aqui em conforto; como em todo o resto do estado, e suspeito, do país, prevalece a auto-determinação dos turistas sobre o conforto dos hotéis; em que pese que os caravan parks ajudam a dar vazão ao excesso populacional em cidades onde a construção civil não cresce em ritmo tão acelerado, o estilo de vida montado em motorhomes e barracas de camping se espalha dos surfistas de Point Quobba aos bichos-grilos de Karijini. É a apoteose do te vira, malandro, de quem viaja por conta própria, dos europeus que abrem mão do conforto, do turismo de resultados, praticamente sem estrutura nenhuma, promovido apenas à base do que a própria natureza oferece e pouco mais. Viajar na Austrália é sinônimo de natureza; não venha para cá atrás de museus ou arquitetura ou ruínas -- até porque qualquer coisa com mais de 40 anos de idade já é considerada histórica. E natureza é sinônimo de liberdade, de entrar com o jipe pelo meio do bushwalk, de dirigir para chegar em praias selvagens, de ser responsável pela própria comida (e também pela água e lixo, em Karijini), de não ter guias ou roteiros pré-definidos, enfim: o exato oposto do turismo convencional hotel-água quante-cama limpa-café da manhã-passeio guiado. Não me espanta que tenhamos encontrado tão poucos australianos jovens viajando pelo interior do país: quem iria, podendo gastar o mesmo e ficar uma semana com todas as regalias que a moeda forte permite em Bali, a meras 4 horas de avião?

(Não, não terminou ainda... falta o Parque Nacional de Karijini e a longa viagem de volta até Perth... tem mais)

Escrito por Rafael | outubro 31, 2006 05:00 AM

Comentário

Deixe seu comentário




Lembre-se de mim ?

(permitidas tags de estilo)