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novembro 08, 2006

Outback australiano, um relato cubista (parte final. Ufa)

Portanto, quando se depara com a placa na entrada do parque propriamente dita, indicando o que não se pode e o que pode fazer, espera-se que o viajante já esteja careca de sabê-lo. Mas me adianto. Antes da entrada do parque fica o pavilhão do centro de visitantes de Karijini, magnífica construção no meio do nada hospedando uma bela e didática exposição que resume, ou ao menos tenta resumir, a importância do parque -- geológica, antropológica & ecológica. Não é pouca coisa: tradicional habitat de 4 clãs aborígenes, recanto da muito específica fauna e flora australianas, fonte de água natural e fresca, Karijini é um daqueles locais em que a natureza parece ter feito para ao mesmo tempo te abraçar dum modo acolhedor e ao mesmo tempo ameaçador, beleza e fúria, reconfortante e traiçoeira. Você só não se entrega mais completamente à amplidão dos cânions e ao frescor de suas águas por medo que venha uma chuva surpresa, uma daquelas que eleva rapidamente o nível da água dos riachos, podendo te deixar sem meios de saída daquele cenário paradisíaco.

Acampar -- não existe outra maneira de visitar Karijini, nem insista -- no parque é sinônimo de poeira: a mesma poeira avermelhada e insistente que se enfia em qualquer fresta do carro e da roupa desde, quando mesmo?, já tem uns 4 dias que eu só vejo poeira nessa viagem, desde pelo menos Karratha-Dampier. Disputa com a areia branca do deserto de Black Rock em Nevada o posto de irritação em pó mais enlouquecedora da minha vida. Também é sinônimo de mato, spinifex, calor, enfim, tudo o que precisa para compor aquele painel que evoca "aventura" no imaginário comum. Então, por que ir para lá? Alguns dos cenários mais espetaculares da Austrália, e consequentemente, do mundo justifiquem o esforço. A chance de conhecer um dos locais originais de aborígenes. Com sorte, quem sabe até topar com alguma espécie rara de cobra venenosa no caminho.

No pavilhão de visitantes, um dos textos explica que "as fronteiras do parque são dinâmicas". Se você ainda é inocente a essa altura do campeonato, uma olhadela no mapa explica: há uma mina de ferro perto da fronteira leste do parque, que aliás foi puxada um pouquinho para o lado a fim de permitir que fosse explorada. Não é preciso ser muito brilhante para imaginar que outro veio -- de ferro, de ouro -- descoberto no meio do parque bagunçaria ainda mais as fronteiras, para permitir a exploração. Não foi com outro motivo que os aborígenes foram expulsos do parque, ainda que uma meia dúzia deles trabalhe hoje como rangers (devidamente treinados pelos descendentes dos colonizadores europeus), ou atenda turistas na lojinha. A Austrália não tem o menor pudor em meter a mão nas suas riquezas naturais e explorá-las, por mais que mantenha e venda o jeitão de "selvagem" dado pela ausência de unidades turísticas comuns, hotéis, resorts, violentando a paisagem.

As duas principais áreas de recreação (sic) do parque se concentram ao redor dos maiores cânions, sobre as quais se distribuem trilhas em diversos graus de dificuldade segundo um critério bastante especializado que pode ser resumido da seguinte maneira: no nível fácil, você anda sempre num plano (mesmo que o terreno não prime pela regularidade); no médio, você tem que subir e descer escarpas de pedras, eventualmente usando as mãos para se apoiar; no difícil, além de disso você vai ficar todo molhado porque certos trechos só se atinge atravessando o leito de rios. Mas para isso, primeiramente, é preciso chegar em cada uma das áreas -- e ai de quem não tem um carro com tração nas 4 rodas nessas horas. Forçando uma barra, deu para enfiar um sportswagon na estrada assassina do parque, mas passar por cima do rio, só se alguma divindade levitasse o carro. Por outro lado, o que não falta são turistas dispostos a te dar uma carona até lá; franceses e alemães a mancheia, mas esbarrei num paulista também.

Uma placa no centro de visitantes alerta que muitas daquelas áreas eram sagradas para aborígenes e que o turista deve se comportar com reverência, apropriadamente, ao encontrá-las. Não é difícil imaginar por que. Regatos de água esverdeada, limpa e fresca, em meio à aridez insana devia ser como uma imagem do céu para os habitantes da região, 10 mil anos atrás. Dizem as letras pequenas que os aborígenes chegavam a inclusive cumprimentar formalmente a água antes de entrar; uma das piscinas naturais, hoje conhecida como Fern Pool, tem sua localização exata removida de álbuns de fotos em respeito à tradição que é alegremente ignorada pelo invasor branco, ao alegremente procurar os melhores pontos nas pedras para fazer um tchibum. De acordo com a mitologia aborígene, os cânions foram abertos não pela erosão de rochas por geleiras e subsequente compactação de detritos, mas por serpentes que caminhavam sobre a terra -- algumas das quais, ainda hoje habitariam o fundo daquelas piscinas naturais. Deve ser um pouco mais emocionante dar um tchibum imaginando que se pode ser devorado por uma serpente gigante mitológica vinda do fundo das águas. Preventivamente, resolvi usar a escadinha posta ali para entrar na água e até tomei cuidado para não espalhar muita água ao nadar.

As vistas são notáveis; nada que qualquer fotografia em table book consiga reproduzir, aquele sentimento de amplidão envolvente da natureza que, só na viagem, já havia sido experimentado tantas vezes nas praias de Exmouth, nos portos e sobretudo na estrada. Imensidão, espaço: eis a grande transformação que se processa dentro da cabeça. Ajuda a mudança mental uma adaptação do ritmo vital que o alinha praticamente ao ideal: sem luz artificial ou natural depois de 7 da noite, dormir acaba sendo a opção mais praticada antes mesmo das nove, e o corpo agradece, despertando refastelado antes das 6 no dia seguinte. Não há pressa para sair; mesmo que as trilhas mais distantes gastem uma hora de carro, o sol forte perdura até o meio da tarde e só se deixam as piscinas naturais às 3 por uma questão se segurança: evitar as chuvas relâmpago, voltar a tempo para o acampamento. Aventura, sim, mas tudo planejado com vistas a segurança, que correr risco é coisa de amador.

Descendo de Karijini em direção à sunset coast, também conhecida como civilização, pouco há de atrativo no caminho: trata-se de uma rodovia essencialmente de carga, utilizada pelos road trains, gigantescos caminhões de carga que puxam até 3 vagões. Alguns são tão largos que utilizam carros batedores à vante e à ré para que quem esteja no fluxo contrário fique a par com antecedência o suficiente para sair da frente. São a novidade nesse trecho, já que cadáveres de cangurus na beira do asfalto já não fazem mais surpresa. Mesmo nas cidades há pouco a se ver: tristes repositórios de aborígenes próximos de minas, talvez esperando o esgotamento do metal para esvaziarem (como Cossack). As mesmas arquiteturas, o mesmo inevitável pub no centro, o mesmo ar de velho oeste, a mesma vida besta de poema de Drummond. Newman, onde fica a maior mina de ferro do mundo, não é um lugar muito melhor para se viver ("não é uma cidade boa, mas a grana de lá é boa", como me disse um neozelandês), conquanto seja maior. No mais, você só quer algum lugar com posto de gasolina, de preferência a preço mais barato do que os ridículos preços do norte.

Li em algum lugar que o escritor Cortazar e sua esposa foram uma vez de Paris a Marselha, 800 quilômetros, parando em todos os postos de gasolina do trajeto -- gastaram um mês nessa pachorra. O motorista que resolva fazer o mesmo entre Karijini e Perth, quase o dobro da distância percorrida por Cortazar, não vai gastar mais do que uns 3 dias. Não é que tenham poucos postos de gasolina no caminho. Não tem é nada mesmo. E para piorar ainda passa de vez em quando um road train carregando um trator, o que te obriga a ir para o acostamento a fim de não ser abalroado: ao menos existem batedores para avisar, ao contrário dos cangurus e emas suicidas. Um australiano que tinha percorrido o país 6 vezes resumiu a parada na Circular Pool: não há nada para se ver. Um pub no centro da cidade com 3 aborígenes bebendo. Em uma das cidades, noto que meu camarada francês demonstra uma certa atração por um bairro mais detonado, destoante da assepsia & ordem características das cidades anglo-saxãs australianas (creio que o único lugar do mundo onde vi cidades de praia LIMPAS, sem gente andando farofada de areia pelas ruas, como Denham, o que me deixou amplamente desconcertado); um bairro de aborígenes. É sua experiência mais próxima com terceiro mundo, com a pobreza. Torço o nariz, dizendo que ele seria um daqueles que faz turismo nas favelas se visitasse o Rio. Ele tenta me encurralar perguntando se eu não teria vontade de conhecer a periferia de Paris, os banlieus onde os jovens de origem africana e árabe reviram e tocam fogo em carros, mas quebra a cara quando eu digo que não teria a menor vontade, hahaha. É curioso: não há acolhimento, não há ar familiar, não há hospitalidade na maioria das paradas. Muitos postos de gasolina oferecem uma caneca de café (ruim, pelo que disseram) grátis aos motoristas; os atendentes não questionam, mas também não puxam papo. Num fim de mundo chamado Cue, uma das poucas cidades que aparecem nos guias em função de seus prédios históricos bem conservados, ficamos uma meia hora no bar do centro sem que a atendente se coçasse em perguntar ao menos o protocolar de onde são, para onde vão, saudação de resto universal entre viajantes de qualquer século. Mas não. Perguntou se o francês queria açúcar em seu café, e depois de servir o café e uma cerveja para um sujeito lendo (e comentando em voz alta) o jornal do dia que tinha dois dedos da mão direita e um da esquerda meio decepados, perguntou se eu não tinha nenhum vício. A loira com um tatuagem no cóccix e piercing no lábio que conversava com ela, acocorada no balcão, nem isso.

Por essas e por outras é que, se você tiver pique o suficiente para acordar bem cedo, e se a estação ajudar com horas de sol suficiente por dia, dá para percorrer mais de 1000 quilômetros num só dia, o que te permite dormir numa cidade qualquer num raio de 300 quilômetros de seu destino, o que torna o trecho final bastante relaxante. A essa altura do jogo, quando se começa a relaxar sobre o feito de ter percorrido mais de 5000 quilômetros de carro sem, bate na madeira, ter que trocar sequer um pneu (e com uma mera reposição de óleo de motor, já planejada, não incorrendo em atraso, portanto), é que se tem a chance de esbarrar num raro exemplo de hospitalidade em Payne's Retreat, que nem bem um pouso é, somente um posto de gasolina com restaurante acoplado, por parte da velhinha que te atende e, ao te saber brasileiro, menciona que naquela noite vai haver um amistoso dos socceroos (futebolistas) contra a Argentina e, ao se despedir, pede que o Brasil não vença mais a Austrália como na copa do mundo. Respondo ironicamente que não é para se preocupar, vai ser apenas uma vez a cada quatro anos. Claro que, antes disso, ela já havia recomendado que passássemos a noite no buraco conhecido como Dawallinu onde teríamos a melhor estrutura para acampar, o que me fez me sentir muito bem, já que era exatamente onde eu tinha escolhido apenas pelo mapa. É quando se está mais inebriado por essa mistura de orgulho e auto-confiança de viajante que vem a maior lição de humildade: um jipe parado no mesmo posto de gasolina ostenta um mapa mostrando o trajeto percorrido até agora. Um mapa-mundi, com uma seta pontilhada que sai da Europa, atravessar o mar e chega na Austrália, contabilizando algumas dezenas de milhares de quilômetros que fazem os meus 5 mil parecerem merreca. Viajar é para gente grande.

Dallwalinu: até os locais se perguntam o que a gente estava fazendo ali. A menos de 3 horas de Perth, quando as defesas abaixam e parece que nem a estrada nem o país vão inventar moda nenhuma para te surpreender, quando a temperatura abaixa, obrigando a abandonar a bermuda pelo jeans e suéter, e um banho quente e um barbear cuidadoso como você não tem decentemente há dias te fazem sentir mais humano, ainda mais pela perspectiva de tomar uma cerveja ao final do dia, é hora de lembrar que se está no Velho Oeste, na colonização, num lugar ainda sendo ocupado por desbravadores e estrangeiros e descobrir que as atendentes do pub local não só são duas alemãs, como de Berlim! Acontece taõ pouca coisa na cidade que a maior diversão dos moradores jovens é visitar quinzenalmente o bar para ver quais são as atendentes novas, quase cada vez de um país diferente. A segunda maior diversão é tentar rebocar uma delas, o que quase nunca acontece, apesar delas educadamente participarem de todas as festas para as quais são convidadas, em geral as únicas presenças femininas num bando de rednecks, à parte uma prima ou irmã incauta. Uma delas confessa muita felicidade em poder bater papo conosco, dada a monotonia das conversas de mecânicos e soldadores à qual está acostumada...

O estirão do dia anterior recompensa e permite uma parada de duas horas e meia, tempo o suficiente para passear por New Norcia, uma jóia rara do sudoeste australiano em meio a incontáveis cidadelas padronizadas pela arquitetura do ciclo do ouro, pela austeridade protestante, pelas cadeias de junk food e supermercados: uma cidade fundada por missionários beneditinos espanhóis para servir de recanto aos monges, assim como a caverna de Subiaco, hoje ironicamente nome de bairro chique em Perth, serviu de esconderijo para São Benedito, que nasceu em Norcia -- por isso o nome. Pela primeira vez em 10 dias e muitos meses é a chance de ver algo com sotaque familiar, que lembre colonização católica, arquitetura colonial, cidades organizadas ao redor da igreja, população indígena convertida religiosamente feita mão de obra e outros lugares comuns a qualquer, arrisco, latino americano. Mais uma vez a leveza de um país sem história transparece: o que seria o maior tesouro histórico do estado, afinal são uns 20 prédios entre igrejas, claustros, museus, escolas, e todo o necessário para o auto-sustento dos monges (uma padaria, uma confecção, um estábulo etc), se percorre em coisa de hora e meia... Melhor poupar as pernas para a lojinha do monastério, para um dos vinhos (inclusive do Porto) ou pães e bolos feitos ali, aromatizados com azeitonas, tomate seco, passas ou frutas. Banhados num azeite local, nada melhor para servir de aperitivo para o churrasco do almoço.

A menos de 250km de Perth volta-se a ver o verde dos pastos e raros rebanhos de ovelhas, mas não há cidades erguidas ao redor de fazendas ou do chamado agronegócio. Só houve assentamento onde havia ouro. A uma distância surpreendentemente próxima do centro da cidade, se está na região dos vinhedos, neste momento extraordináriamente cheia por conta de uma das atrações turísticas programadas para promover a produção local e emprestar a possível sofisticação aos metropolitanos habitantes de Perth. Mas depois de ver golfinhos que vêm até a praia te cumprimentar toda manhã, depois de nadar com arraias de 6m de envergadura ou tubarões-baleia; depois de ler placas alertando que ondas gigantes matam e desviar de coelhos e emas atravessando e cangurus agonizando na beira da pista; depois de mergulhar em águas sagradas para aborígenes, não há teor alcoólico de vinho que te faça acreditar que se está numa cidade cosmopolita e sofisticada e não no coração do Velho Oeste, num lugar único em momento ainda mais especial, quando a briga com a natureza ainda é ferrenha, a História ainda não foi escrita e a paisagem tem tanto potencial para te inspirar quanto enlouquecer. Não é à toa que a imensa maioria dos jovens australianos prefira economizar seus tostões e passar um mês vivendo nababescamente na Tailândia ou em Bali do que viajar pelo seu próprio país.

(agora só falta colocar os links e as fotos...)

Escrito por Rafael | novembro 8, 2006 04:51 AM

Comentário

Oi, Rafael
e a gente vai pelo lado esquerdo da estrada, como na Inglaterra? É isso mesmo? E tem que levar galões extras de gasolina, ou não? Rapaz, que viagem e que relato de viagem... Falar nisso, cê já leu América, do Jean Baudrillard? Nuu! Menos pessoal e menos turístico que o seu relato, mas bom demais, igualmente. Não sei se algum dia irei à Austrália, tenho âncoras difíceis de soltar, mas o que me chapou, o sentimento mais australiano que achei, foram as hq da Tank Girl. Cê tem certeza que não viu ela por aí? Cangurus agonizantes! Alguma coisa bárbara ainda reverbera nessa imagem. Falar nisso, põe (please) uma foto do deserto australiano pra eu ver. Abraços,
Guga Schultze.

Escrito por: Guga Schultze | novembro 8, 2006 10:43 AM

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