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novembro 17, 2006

Me engana que eu gosto

Chamou minha atenção o sucesso recente de dois filmes, um em circuito mundial, outro restrito aqui á Austrália: Borat e Kenny. O que eles dois têm em comum, além de terem nomes próprios por título? São o que os preguiçosos tradutores brasileiros já batizaram de mockumentaries, ou seja, documentários-mentira, para ficar na expressão popularizada pela Casseta Popular. Documentários onde ou o tema ou os personagens que apresentam não existem; são de ficção.

Não vi nenhum dos dois filmes.

Borat é um repórter do Cazaquistão interpretado pelo humorista judeu inglês Sacha Barton. As piadas decorrem de uma mistura da ridicularização de costumes do interior da Europa -- na mesma linha daquele texto sobre a Molvânia que saiu no primeiro número da revista Piauí -- com a surpresa causada pela reação das pessoas ao que elas acreditam ser um repórter de verdade. Kenny é um operário que chefia uma empresa de aluguel de banheiros portáteis e o documentário gira em torno do tipo de agruras pelas quais um provedor e limpador de banheiros passa. Como Borat, Kenny também causou surpresa pela reação provocada nas pessoas ao verem seu filme: Kenny tornou-se uma espécie de símbolo dos valores australianos, um perfeito representante masculino das classes trabalhadoras contra o politicamente correto e o metrossexualismo (quem não viu, não imagina o estrago que Beckham fez na estética masculina bretã).

Tudo isso seria muito bacana se tivesse ficado por aí, mas as piadas parecem ter se espalhado demais. Muitas pessoas, cativadas pela figura afável, faziam questão de cumprimentar Kenny, ou melhor, o ator caracterizado como ele, em sessões especiais conduzidas na sua presença, acreditando que ele realmente existia fora das mentes de dois produtores malandros. Borat se vale do guarda-chuva do humor para fazer piadas sobre judeus, mas sabe-se que qualquer outro humorista que fizesse o mesmo sofreria perseguição política. Não se pode deixar de enxergar também um certo preconceito de Sacha Barton no tom das piadas, afinal ser pobre ou exótico ou conservador não te torna automaticamente motivo de escárnio.

O humor encoberta tudo? Humor justifica tudo? Até que ponto vale a pena engabelar o público para revelar uma verdade maior? A ironia já não está tão disseminada que passou a ser tomada como verdade por muita gente? O que é mais importante para você, não ser enganado ou se divertir?

Como diria Harvey Kurtzman, todo mundo está mentindo. Inclusive eu.

Escrito por Rafael | novembro 17, 2006 03:30 AM

Comentário

Veja a sincronicidade. Fiz um post com título idêntico ao seu, e também falando de cinema -- no caso, Thank You for Smoking e os truques das empresas de cigarro para enganar o público.

Pra falar a verdade, não entendi direito o espírito do seu post. Pra mim, o tom preconceituoso e/ou politicamente incorreto do Borat (que eu também não vi) se escuda mais ao fato de ser uma comédia do que no caráter de documentário-mentira.

Existem documentários-mentira em formato de drama, como Brothers of the Head, sobre dois irmãos siameses que montam uma banda de rock (!). Se esse tipo de "verdades escondidas" fosse abordado num filme assim, o rebuliço seria o mesmo que num filme sério, num ensaio ou num artigo de jornal.

PS: está com algum problema nos comentários, que eles não estão aparecendo.

Escrito por: Marcus | novembro 17, 2006 04:52 AM

Acho que tem formas diferentes de se analisar o Borat. Primeiro, há de se admirar a capacidade do Sacha Baron Cohen (Baron , não Barton ;-)) pra deixar as pessoas desconfortáveis. Cara-de-pau é coisa de amador perto do que ele pratica. Por outro lado (esse assunto é cheio de "por outro lados"), uma habilidade dessas não é exatamente uma virtude.
Também não gosto do humor escatológico, e ele adora.
Mas no que diz respeito às piadas racistas, acho que ele presta um grande serviço. É verdade que se ele não fosse judeu não teria essa imunidade toda, mas veja bem, ele também não é gay (que eu saiba), nem mulher, nem cigano, nem negro, nem deficiente mental (alguns podem contestar essa afirmação hehe). E ele faz piada com todos. A virtude aí é o dom absurdo que ele tem de deixar as pessoas à vontade para expressar seus piores preconceitos. Porque o Borat é estrangeiro, é simplório, é inocente e "isso só vai aparecer no Cazaquistão". E assim as pessoas soltam a língua. Teve caçador confessando que já matou animais hoje extintos e que se a lei permitisse caçava judeus também, "como se fazia na África com os nativos". Teve patriota dizendo que se pudesse expulsaria os homossexuais da América. Teve um bar inteiro cantando "jogue o judeu no poço" em Austin. Teve político dizendo que os judeus vão para o inferno porque não acreditam em Jesus.
Isso é fenomenal! A gente sabe que de modo geral o politicamente correto nos EUA é uma hipocrisia sem tamanho, mas é um wake up call tremendo ver a facilidade com que as pessoas expressam esse tipo de opinião na frente de uma câmera, desde que pensem que nenhum conhecido vai assistir.
Por outro lado, quem assiste e gosta tem que estar ciente de que é só uma questão de tempo até ele fazer uma piada que vai ofender você.
Pra mim, so far so good - kind of.

Escrito por: Anna | novembro 17, 2006 10:12 AM

Assisti Borat. É engraçado pacas. Chato são as teorias sociológicas em cima da coisa. É humor escatológico puro e simples. Pra se rir num daqueles dias chuvosos, depois que se terminou de ler, sei lá, Primo Levi. Capisce?

abs

Escrito por: Paulo | novembro 17, 2006 12:32 PM

Humor é como criança abusada, tudo permite, tudo consente. Hmmmm. Gente se divertindo desesperadamente ou se esforçando nisso desperta o Joseph Goebbels em mim.

Escrito por: DGR, desarmado | novembro 17, 2006 05:37 PM

Marcus, o espírito do post é mais ou menos o seguinte: você para de achar graça quando descobre que também estava sendo enganado, ou se vê como vítima da piada?

Anna, louvo a cara de pau do Borat ao conseguir expôr os piores preconceitos dos entrevistados, mas me pergunto apenas se isso tem o sentido catártico de purgar os sentimentos exaltados do público (como se espera de uma obra de arte) ou se somente faz exaltá-los.

Paulo, fico contente em ver que ao menos alguém ficou só na gargalhada.

DGR, humor todo consente -- quando é engraçado. Quando é só moralismo, incorreção política gratuita ou exagero sem catarse, vade retro.

A todos: ridendo castigat mores.

Escrito por: Rafael Lima | novembro 19, 2006 10:18 PM

Borat e genial. Melhor do que o filme, e o seriado, onde o foco e seu encontro com pessoas que imaginam que este cidadao existe mesmo. (No filme misturam com "cenas preparadas").

A grande qualidade do Borat e simples: um monte de piadas bobocas, vez por outro escatologicas (no seriado e bem menos), mas que quase sempre atacam a seriedade com que os assuntos considerados sao tratados...

Sinceramente, no Brasil, seria legal pelo menos um Borat e um Ali G para conversar com nossos intelecotecos, artistoides, etc. Se bem que temos o Lulla.

Escrito por: Ram | novembro 28, 2006 02:14 AM

Pô...Tava com outra espectativa sobre o Borat. Hoje assisti NACHO LIBRE, do Jack Black, e Borat. Acho que o Borat é algo querendo tentar ser o que o Nacho Libre é. Um filme americano, porém com originalidade que até o momento só tem vindo de filmes não-norte-americanos. Nacho Libre chega lá com louvor, ri um bocado.
Agora não sei...Acho que fui com um pouco de preconceito com o Borat, por não gostar muito do Ali G. Vi um filme antigo dele bem sessão da tarde, que ele é um tipo de "Rapper" branquelo, que só fazia piadas escatologicas o filme inteiro. E quando vi o BORAT, achei que ele forçou demais esse lado na falta de quadros mais engraçados. Sei lá. Não entrei no clima. Pior que quando vi os traillers achei engraçado e achei quer seria bem legal. Até que soube que o Borat era o Ali-G e lembrei das escatologias e o "q" de sérgio malandro que ele tem.
Gostei das partes que ele cutuca o racismo e da que ele pega carona com uns moleques americanos num trailer passou muito realismo, do resto eu não consegui rir.
Achei meio "dercy-gonçalves" as piadas do filme, sem ser assumido e estiloso, como o Jack Black (que também tem um pouco disso, bem pouco),mas de alguma forma ficou muito bem colocado nos personagens.
Mas acho que com um diretor melhor e sem as escatologias ou colocadas de forma mais legal (como todos os filmes da série American Pie), ficaria melhor, ao meu ver.

Todas as vezes que ele cutucou a parte politica e social eu achei legal, não engraçado, mas legal. Como no rodeio. :)

Escrito por: Marcelo Souza | janeiro 23, 2007 12:35 AM

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