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novembro 21, 2006

Melhor livro do ano

Dificilmente terei lido algo mais interessante esse ano do que Men of Tomorrow: Geeks, Gangsters and the birth of Comic Book, livro de Gerard Jones que narra o contexto histórico no qual foi criado o Super-Homem e toda a indústria de quadrinhos de super-heróis que se seguiu a ele, varrendo mais de 3 décadas de acontecimentos.


men of tomorrow

Certa vez me meti numa discussão sobre literatura de ficção ou não-ficção. O consenso foi alcançado com a idéia que ficção era superior porque poderia conter tudo que havia na não-ficção e mais alguma coisa. Concordo com a idéia, mas deixei de fazer uma ressalva na época: só ao ler um livro de não-ficção, uma reportagem, digamos, você tem a certeza de estar em contato com algo que realmente aconteceu com alguém -- informação que, pelo menos em mim, dispara curtos-circuitos inesperados. Talvez o grande mérito do livro de Gerard Jones seja exatamente esse mostrar que tudo o que você sabia, se é que sabia, sobre o período de formação das revistas em quadrinhos de super-heróis, era a pura verdade.

Todas as histórias contadas por Will Eisner em The Dreamer aconteceram mesmo. Todas as lendas acerca do empobrecimento após meros dez anos de lucro de Jerry Siegel e Joe Shuster eram verdade. Todas as brigas em que Jack Kirby teria se envolvido? Verdade -- e agora você acaba de conhecer os 3 principais personagens que inspiraram Michael Chabon a ter escrito As Aventuras de Kavalier e Klay. Todos os absurdos contados por Jules Feiffer em The Great Comic Book Heroes aconteceram de fato. O ambiente fertilíssimo da Nova Iorque na primeira metade do século XX, as novas formas de entretenimento praticamente reinventadas pelos jovens judeus, filhos de imigrantes; as ligações perigosas dos primeiros empresários do setor, Harry Donenfeld e Jack Lebowitz, margeando o crime; as perseguições do comitê Kefauver e as queimas de revistas empreendidas por Fredric Wertham; a maneira quase anedótica como a linha de terror da EC foi criada: está tudo, tudinho lá, e de maneira muito mais detalhada e interessante do que poderia parecer.

A tendência, ao ir avançando, é a de dividir os personagens em mocinhos e vilões, maniqueísticamente como pedem super-heróis, e exatamente como acontece ao ler A Guerra dos Gibis, de Gonçalo Junior: de um lado, adolescentes judeus pobres e criativos; do outro, empresários vorazes e inescrupulosos. O livro se torna tão mais interessante quanto mais se vai diluindo essa imagem, ao saber das picaretagens brilhantes de um Bob Kane (ocultou por mais de 50 anos seu parceiro na criação do Batman) ou do senso empresarial de um Will Eisner (montou um estúdio para entregar histórias prontas para as editoras mas pulou fora pouco antes do campo se esgotar), provas de que em todos os criadores eram tão ingênuos e nem todos os empresários tão carrascos. Mesmo Lebowitz, pintado na maior parte como a besta negra do setor, termina o livro sentado sobre o mérito de ter conduzido uma indústria que se tornaria multimilionária com as fusões & aquisições a partir da década de 1970, Time-Warner e Warner-AOL. Sucesso pessoal não é insulto no Tio Sam, mesmo quando inclui algumas sujeiras no passado.

Complemento perfeito é Shop Talk, coletânea de entrevistas de Will Eisner com boa parte dos personagens principais de Men of Tomorrow: Joe Simon, Milton Caniff, Harvey Kurtzman, C.C. Beck, Neal Adams, entre outros. Apesar da maior parte dos papos girar acerca de materiais e processo criativo, não negando o nome do livro, sempre sobra espaço para um comentário de época, uma historinha mais saborosa: por exemplo, Joe Simon conta que René Goscinny alugou um combinado seu em Nova Iorque na década de 1950, onde não teve sucesso, o que o levaria a voltar para seu país natal e criar o personagem mais famoso da França, Astérix. Também é divertido ver a maneira condescendente como todos os entrevistados tratam Stan Lee, que eles conheceram pela primeira vez quando ainda era pouco mais do que um office boy. Ao contrário de Men of Tomorrow, Shop Talk não é indicado para o público mais amplo, apenas para quem se interessa bem mais sobre os meandros do mundo dos quadrinhos.


shop talk

Men of Tomorrow tem edições em língua inglesa em pelo menos 3 países diferentes e foi publicado no Brasil pela editora Conrad como Homens do Amanhã. Shop Talk foi publicado pela Dark Horse em 2001 e é difícil de encontrar fora da internet.

Escrito por Rafael | novembro 21, 2006 01:42 AM

Comentário

Rafael, me esqueço que você curte quadrinhos... Li o Incal da primeira vez que saiu (acho que foi a primeira, não sei), a edição portuguesa e tal. Uma vez eu e o Nilson (quadrinista mineiro, enciclopédia ambulante de quadrinhos) tivemos uma conversa sobre os desenhistas que fizeram escola. Moebius é um dos cinco ou seis; a quantidade de gente influenciada por ele e mesmo imitadores, pura e simplesmente, é enorme. Agora, quase todo mundo (que desenha) pode ser rastreado até chegar num daqueles nomes. É difícil ser totalmente original. Abração,
Guga

Escrito por: Guga Schultze | novembro 21, 2006 04:04 PM

Oie, Rafael!
Você é amigo do Mario AV e do Nando? Eu sou! Dos dois! São uns fofos!
Beijim,
Giorgia

Escrito por: Giorgia | novembro 23, 2006 11:34 PM

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