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janeiro 22, 2007

Sou contra, Carlos Heitor Cony

[Para quem acha que o mundo foi inventado por Diogo Mainardi, um Cony de corar Paulo Francis, safra 61]

Sou contra as reformas de base e contra a erradicação da malária. Contra o fomento da agricultura e contra a conjuntura nacional. Contra a livre determinação dos povos e contra as injunções de ordem político-social. Contra as reivindicações do proletariado e contra os sagrados postulados da nossa civilização cristã. Contra os imperativos de justiça social e contra as inalienáveis prerrogativas da pessoa humana.

Sou contra os simpósios de agricultura e contra a recuperação da nossa lavoura. Contra as objurgatórias indeclináveis e contra as mais legítimas tradições do povo brasileiro. Contra as ofensivas contra o câncer e contra as campanhas de orientação vocacional. Contra os lídimos representantes das classes produtoras e contra os autênticos interesses de nossa soberania.

Sou contra o impostergável dever de consciência e contra a exaa compreensão dos meus deveres de cidadão. Contra os sadios princípios que norteiam as nossas Forças Armadas e contra as pressões de cúpula com que se procura oprimir o proletariado. Contra a voz do dever, contra o fato político, contra o gosto da glória, contra o cheiro da santidade e contra os pagamentos à vista.

Sou contra a ampla pesquisa ao eleitorado e contra o desenvolvimento de nosso parque industrial. Contra o ruidoso sucesso e contra o festejado autor. Contra o lúcido ensaísta e contra o rigoroso crítico teatral. Contra o promissor poeta e contra o fino humorista. Contra o competente historiador e contra o agudo filósofo. Contra o hábil cronista e contra o paciente pesquisador. Sobretudo, contra o vibrante jornalista.

Sou contra a arregimentação das consciências e contra o arbítrio das decisões apressadas. Contra os pontos de estrangulamento da nossa economia e contra as infra-estruturas superadas. Contra a evasão de nossas divisas e contra a inversão de capitais opressores. Contra a livre-tramitação das emendas e contra o esgotamento dos prazos legais. Contra o aumento de nossa dívida externa e contra os males intestinos de nossa política interna. Contra a descentralização administrativa e contra os males da burocracia. Contra a recuperação dos delinquentes e contra as fontes produtoras de riquezas.

Sou contra a integração do vale amazônico e e contra a mecanização da lavoura. Contra a sangria em nossas finanças e contra o imediato socorro às regiões desamparadas. Contra a vacinação em massa e contra os óbices que entravam o nosso progresso. Contra as decisões de cúpula e contra os alicerces de nossa nacionalidade.

Sou contra o mais fino ornamento da sociedade e contra o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Contra o decreto das urnas e contra o quadro de nossas importações. Contra os estudos afro-asiáticos e contra os distúrbios do vago simpático. Contra a subversão das massas e contra o esvaziamento das nossas tradições. Contra a hierarquia de valores e contra a perquirição sociológica. Contra as ideologias insólitas e contra o transplante de idéias alienígenas. Contra a flora intestinal, contra a eclosão de entusiasmo, contra a equipe magiar, contra a preservação de nossas reservas florestais, contra o colóquio de física nuclear, contra o abastardamento de nossas instituições, contra a política cafeeira, contra a etapa de desenvolvimento e, sobretudo, contra as mulheres que fazem os poetas sofrerem, os governantes roubarem, os comerciantes falirem, os filósofos meditarem e os pecadores pecarem.

[publicado originalmente no jornal Correio da Manhã, 1961]

Escrito por Rafael | janeiro 22, 2007 08:41 AM

Comentário

Não conhecia essa faceta do Cony. Eu espero mesmo que não tenha sido só uma faceta. Bem lembrado.

Escrito por: Guga Schultze | janeiro 22, 2007 01:06 PM

Meu caro, faria corar o Francis de vergonha, não? As negativas se atropelam e se contradizem. Deus, não acredito que estou aqui a falar de Cony. Foi mal, meu caro. Aliás, onde você se enfiou na temporada carioca? Abração.

Escrito por: Bruno Garschagen | janeiro 24, 2007 10:58 PM

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