« Vagalume redux | Principal | Laerte em longa metragem »
março 08, 2007
Dia bom
Dia bom para mim é quando eu descubro que dois blogues os quais eu costumava visitar diariamente voltaram a ser alimentados por seus autores. Não conto quais são de jeito nenhum, para preservá-los, que ambos têm asco aos rinocerontes que se multiplicam nesse mundo e são perigosos o suficiente para serem lidos no trabalho. Mas cito trechos. Primeiro:
A pior coisa que você pode fazer quando está começando alguma empreitada, quando está no processo de criar algo, é imbuí-la de algum propósito elevadíssimo… Isso significa que provavelmente você fará algo chato, ou não terá a liberdade para incorporar elementos novos e inesperados. Perde-se a espontantaniedade, para ganhar o quê? Propósito?Eu sinto hoje que na vida não há propósito além do auto-conhecimento. Então para que criar ilusões? É muito mais leve, e mais simples, fazer o que se gosta, sem necessidade de justificativas mirabolantes. Somos heróis do nosso próprio dia a dia, e para isso não é necessário nenhum propósito revolucionário. Basta um pouco de sinceridade consigo mesmo.
Segundo:
Vivo em um tempo em que as pessoas inteligentes acham que podem ou devem dizer às outras como viver.Dizer o que é melhor para o outro é um pressuposto, um preconceito deste tempo. De onde vem isso? Por que as pessoas aceitam isso?
A hipótese da porta 1 diz que as pessoas se acostumaram a jornais, revistas e talking heads da TV nos dizendo o que é certo e o que é errado.
Os maiores portais da rede brasileira sempre trazer alguma chamada como: entenda, conheça, aprenda, saiba, descubra.
Essa hipótese, no fundo, irá dizer que a sociedade ou o nosso tempo ou qualquer relação acima da individual e da familiar embaçou os limites de nossa visão.
As pessoas já não se enxergariam mais com clareza. Elas se confundiriam com as outras, tomariam as mãos e o tórax das outras pessoas como parte delas mesmas.
E por isso a opinião do outro causa angústia. Por isso uma menina da classe média de Salvador sofre toda vez que um palestino explode ou chora pela morte dos pandas, mas é incapaz de ver o que é feito com ela, contra ela. (A compaixão cedeu à confusão.)
Essa hipótese leva a outros postulados, um mais inacreditável que o outro. (E sempre terá um guru ou minigurus usando dela para suas agendas.)
O que me interessa é apenas isto: sabemos todos que as revistas e os jornais são criados por lemingues. (Esses animais de teta a cada ano escrevem pior, mas a decadência do ensino e decorrente decadência do aprendizado é outro tema.)
No entanto, vão até os blogs escrevendo como se fossem propagandistas do que é certo e errado.
Sabemos ou pelo menos a maioria desconfia que a ciência, as artes e a propaganda são formas de formas de estilizar, ou seja, de simplificar, o pensamento, as questões filosóficas. (Por filosófico quero dizer sempre vital.)
No entanto, ainda se dá atenção à opinião de um físico quântico sobre a vida e sobre a vida prática, ainda se leva a sério “um filme que fala de”, quando esse “fala de” não é um personagem ou uma história, mas um tema, uma questão social.
Escrito por Rafael | março 8, 2007 10:56 PM