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março 15, 2007
Viajar não é preciso, viver é preciso
Terminei de ler Once While Travelling, o relato em primeira pessoa da história da Lonely Planet, escrito pelo casal fundador da companhia, Tony e Maureen Wheeler. O livro saiu ano passado e na mesma época a revista Trip publicou uma entrevista com eles, ilustrada com fotos tiradas de lá.

Meu primeiro Lonely Planey comprei em 2000, de lá em diante fui agressivamente fiel à marca, mesmo quando viajava com outras pessoas que traziam outros guias. Já conhecia a série de televisão e as recomendações foram enfáticas. Eu estava me sentindo o próprio Marco Polo quando meti o livrinho debaixo do braço. Menos de 20 páginas da memória de Wheeler mostram o que é viajar, ou ao menos o que eles entendem por viajar.
A história é curiosa e reproduzida na última página, em todos os guias da editora: o casal (ele, inglês, ela, irlandesa) partiu de Londres em viagem para a Austrália, ao longo de um ano durante o qual coletou informações básicas sobre todo o trajeto. Ao se estabelecerem em Melbourne, notaram ser alvos constantes de perguntas sobre a viagem. Decidiram transformar aquele conhecimento num guia básico, Across Asia on Cheap, impresso com uma capa amarela e um logotipo que sobrevive há 30 anos. Hoje em dia, se você entra numa livraria na Austrália e vai até a seção de viagem, vai notar que todos os guias Lonely Planet tem a capa azul, exceto um, amarela: Southeast Asia on a Shoestring. Exatamente a versão atualizada e muito revisada do primeiro livro.

Curiosamente, Once While Travelling não é um livro centrado em viagens, apesar de ser encontrado junto com os outros, nas livrarias. É a história de um sucesso empresarial de uma empresa muito especial. Poderia estar junto com os livros que recontam como surgiram as companhia do Vale do Silício ou de mega-empresas que surgiram nos últimos 30 anos sem fazer vergonha. E ainda assim, há muito chão a se percorrer na leitura. Você fica cansado só de ler por onde Tony e Maureen passaram.
E vou dizer uma coisa, ô disposição para um perrengue. Quem vê a luminosa foto que ilustra a capa, um sorridente e esbelto casal numa praia de Exmouth, não imagina que eles tinham acabado de desembarcar de um iate onde passaram alguns meses trabalhando como tripulação com as conhecidas limitações de comida, bebida e banho que só quem ficou muito tempo no mar sabe (para não falar dos enjôos). E dá-lhe trem caindo aos pedaços no interior da Índia, hotel com pulgas na Malásia, linha aérea cai-cai em Burma, trilha nas montanhas de Kathmandu.
Aliás, e o livro é bom nisso, essa imagem politicamente correta & multicultural é a primeira coisa que cai por terra com a leitura; a empresa pode até vender essa idéia, mas Tony não se furta dar nomes aos bois, da burocracia das alfândegas na Índia (sobra também para a Austrália, onde ele era rigorosamente revistado nos aeroportos a cada volta até a década de 1980) à insegurança na América Latina, segundo ele, onde você deve ir se quiser a garantia de ser enganado, enrolado ou assaltado. Nunca é demais lembrar: Tony Wheeler é britânico e anglo-saxão.
Essa franqueza tem seus méritos; não se furta a responder nenhuma das perguntas que lhe poderiam ter sido feitas ao longo de 30 anos, desde qual é o lugar para onde ele mais gosta de viajar (Nepal e outback australiano, mas a melhor viagem é sempre a última), passando pela tortuosa relação da empresa com o estado de Burma, sua posição sobre as compras pela internet e o fim dos livros (adora marcar passagens e hotéis, mas ainda curte livrarias e nunca compraria roupas por um site; passará a fornecer conteúdo para computadores de mão e GPS se os guias acabarem) até quem são os turistas mais odiados mundo afora. Podem ficar tranquilos, não são os brasileiros. É a turma que, pelas insistentes reclamações em embaixadas, superou a arrogância dos ingleses, a xenofobia dos norte-americanos e a truculência dos ubíquos alemães: israelenses. Brasileiros foram citados em uma única linha nessa disputa. Tony comenta ter ouvido que os italianos seriam terríveis porque abandonam os guias, se perdem e chegam atrasados nos ônibus -- brasileiros seriam ainda pior. Só não é a única citação ao Brasil no livro porque capítulos antes o autor conta que, enlouquecido com a burocracia indiana, resolvera inventar todos os dados de um formulário de hotel e mencionara que seu visto tinha sido emitido no Rio de Janeiro. Aparentemente os Wheeler nunca passaram pelo Brasil; as primeiras edições sobre a América Latina datam de 20 anos atrás. Brasileiros não são exatamente notórios por viajar, não tem cultura de mochileiro, queixam-se de saudades e perdem nesse quesito até para pares na América Latina como chilenos ou argentinos. Uma voltinha pelas agências de turismo em Perth mostra inúmeras promoções para Buenos Aires, mas quase nenhuma para o Rio de Janeiro. Mas nada disso está no livro, é só digressão minha.
O sucesso empresarial se deu em função dos 90% de trabalho duro, mas contou com excelentes jogadas de precisão beneficiadas pela sorte: o primeiro guia sobre o sudeste asiático saiu imediatamente antes do interesse pelas praias tailandesas e indonésias ser despertado, no comecinho da década de 1970; o primeiro sobre a Austrália saiu em meados da década de 1980, quando Mel Gibson e o Crocodilo Dundee popularizaram o país via Hollywood; o primeiro sobre Europa Oriental saiu no final da mesma década, prontinho para pegar o fim da cortina de ferro. Mas não é só isso: Lonely Planet faz partes de empresas como a Nike ou Apple, que conseguiram ligar suas marcas à idéia de um estilo de vida que as discernisse; que emplacaram globalmente por terem sabido como se valer de especificidades globais (mesmo quando essas especificidades são na verdade a exploração de mão-de-obra barata no terceiro mundo. Acusação que Tony refuta, aliás); sobretudo, empresas que souberam explorar os anseios duma geração que não se satisfazia -- cujo hino cantava isso mesmo -- a geração dos baby boomers.
Nessa esteira muita poeira subiu e foi varrida para debaixo do tapete: Tony revela ir dormir com a consciência tranquila por saber que as edições asiáticas não eram feitas explorando seres humanos, ao afirmar que o responsável pela produção dos livros tinha vistoriado as gráficas, mas eu mesmo já cansei de ver documentários na tv australiana mostrando como as visitas desse tipo de fiscal são controladas pelos capatazes -- como eram as visitas turísticas nos antigos países comunistas... Do meio para o final, o assunto deixa de ser as viagens do casal para se transformar no crescimento da companhia, e ao invés de ler sobre paisagens e situações curiosas, lê-se sobre bastidores do mercado editorial; ao invés do perrengue de comidas exóticas, passa a ser o perrengue de estabelecer um negócio -- muito embora até 20 anos atrás os dois se combinassem em diversas situações, já que Tony se hospedava em casas de família ao invés de hotéis quando ia para a feira de Frankfurt. Mas nota-se uma mudança de foco ao ler em um simples parágrafo que ele, na volta, parou por 3 semanas em Singapura, Malásia e Burma para atualizar um guia. Além disso, acompanha-se a evolução da família Lonely Planet, aqui no sentido exato e figurado da palavra: nascimento e criação dos filhos, expansão dos escritórios e negócios.
E para quem sonha em se tornar travel writer, escritor de guias, e como eles gostam de dizer, abandonar a corrida de ratos, tem um capítulo inteiro apropriadamente intitulado Tudo sobre guias que explica direitinho o que é preciso. Então, segundo um dos maiores especialistas em viagem do mundo, lá vai o caminho das pedras. Qualquer nível de estudo serve, mas pessoas com habilidades linguísticas são particularmente apreciadas, além da óbvia necessidade de saber se expressar por escrito. A preferência é por pessoas que já tenham viajado bastante por conta própria e saibam se virar sozinhas. Mas a rotina não é tranquila: um mesmo escritor pode estar no mercado central nas primeiras luzes do dia para conferir o burburinho; molhando os pés numa das praias imediatamente antes de partir para a seguinte a ser conferida, ao meio-dia; sobre um mirante particular no fim da tarde, vendo se o pôr-do-sol dali era espetacular mesmo como tinham dito -- e nas últimas horas da noite, numa boate, que está recebendo sua avaliação. Tirando o fato de que um bom travel writer tem que ser capaz de sacar qual é o melhor restaurante da cidade e a boate mais badalada num átimo. E nada de voltar para o hotel de cara cheia, pois antes de dormir é hora de organizar todas as impressões, folhetos e mapas colecionados ao longo do dia que, no final das contas, irão constar do guia. Repita isso por um punhado de semanas e, se no final você não tiver um caso de estafa, envie seu escritor para outro país, tranque-o num quarto de hotel por alguns dias e voilá, ali estará seu guia. Enfim, ao saber dessa rotina no ônibus do engarrafamento, no final do dia, você até fica com pena dos escritores de guias.
Provavelmente muito por causa da tenacidade de Tony Wheeler, gostei muito do livro, que expôs de maneira tremendamente franca mumunhas históricas. Não esperava um conto de fadas e toda vez que o livro se pretende a explicar algo mais complicado, se enrola e acaba expondo as fraquezas, o que acaba sendo um mérito. Continuarei cliente da editora, mais por conta dos bons serviços prestados do que pelo seu histórico, sem o qual poderia continuar. E nem posso reivindicar assim ser parte do chamado estilo de vida Lonely Planet. Mas é uma empresa que continua rendendo bons frutos, da Blue List a Thorn Three.
Escrito por Rafael | março 15, 2007 02:29 AM
Comentário
O melhor livro sobre viagens que li recentemente foi "Honeymoon with My Brother". Muito bacana. Nele ele menciona especificamente o Lonely Planet guide... Se um dia serviu aos viajantes que desejavam passeios diferentes do que aqueles destinados aos turista-padrão, hoje serve basicamente a nova casta dos "turistas alternativos", e em todos lugares as rotas do Lonely Planet já se tornaram uma rotina turística, e point de encontro de mochileiro. Os "segredos locais" já são "segredos de mochileiro internacional", e não tem nada mais de local...
Ainda acho que se você quer conhecer um lugar, indo além de um guia - para mergulhar na cultura local - só tem um jeito: conversando com as pessoas na rua, no ônibus, no taxi... Alias, idéia que os autores de "Honeymoon..." defendem.
Escrito por: Ram | março 19, 2007 03:12 AM
Também adoro esses guias. Minha prineira experiância foi em Cuba, em 2000 também, mas já usei em mais de 10 paises, inclusive no Brasil. Funciona.
Escrito por: Eduardo Carvalho | março 29, 2007 11:28 PM