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março 22, 2007
Diogo Mainardi versus Hanna Barbera
(um texto quase atípico do colunista: Cachorros de Gravata)
Cada um escolhe seu próprio inimigo. O meu morreu no mês passado, aos 95 anos. Era Joseph Barbera, um dos fundadores dos estúdios Hanna-Barbera. No começo de janeiro, morreu também um de seus principais colaboradores, Iwao Takamoto, criador do Scooby-Doo. Estou com sorte. Livrei-me de dois inimigos em menos de um mês.
Atribuo grande parte do meu fracasso pessoal aos desenhos animados de Hanna-Barbera. O fato de ter assistido a todos os episódios dos Herculóides, da Tartaruga Touché e dos Flintstones comprometeu meu futuro. O dano causado por horas e horas de Space Ghost, de Wally Gator e de Jonny Quest foi definitivo. Muitas de minhas falhas intelectuais e de personalidade podem ser imputadas a eles. De nada adiantou ler Montaigne mais tarde. No deserto mental provocado por Frankenstein Júnior, pelos Irmãos Rocha e pela Formiga Atômica, Montaigne simplesmente não frutifica.
Até a década de 1960, um episódio de Tom e Jerry ou de Pernalonga era feito com algo entre 25.000 e 40.000 desenhos. Joseph Barbera e seu sócio bolaram um jeito de produzir suas séries com menos de 2.000, abatendo seus custos. A técnica recebeu o nome de "animação limitada". Os personagens permaneciam estáticos. A única parte de seu corpo que se movia era a cabeça, que pulava compulsivamente da direita para a esquerda, ora com a boca fechada, ora com a boca aberta. Para facilitar o corte, todas as figuras tinham o pescoço encoberto por um colarinho ou por uma gravata. Nos desenhos da Hanna-Barbera, sempre há um cachorro de gravata, um super-herói de gravata, um dinossauro de gravata.
As paisagens sofreram o mesmo tratamento reducionista. Os personagens dos desenhos de Hanna-Barbera habitam um mundo claustrofobicamente circular. De dois em dois segundos eles passam pela mesma pedra, pelo mesmo veículo espacial, pelo mesmo homenzinho careca e bigodudo de terno azul. A angústia de pertencer a um universo que se repete continuamente só é superada pelo fato de que ninguém se dá conta disso. Maguila, Simbad Júnior e os Brasinhas do Espaço parecem desprovidos de memória. As tramas também se repetem de uma série para a outra. Muda apenas o mote de cada personagem, a sua frase característica, como "Saída pela esquerda", "Shazam!" ou "Oh, querida Clementina", recitada por um mau dublador.
Joseph Barbera e Iwao Takamoto empobreceram minha vida. Assim como empobreceram a vida de todos os meus contemporâneos. Há fases em que a humanidade melhora e há fases em que ela piora. Nada representa com tanta clareza o barateamento intelectual do nosso tempo quanto os desenhos animados de Hanna-Barbera. Cada quadro economizado por eles significou para nós uma idéia a menos, um pensamento a menos, uma sinapse a menos. Os pioneiros de Hanna-Barbera acabam de morrer, mas nossa época está irremediavelmente perdida. O único consolo é que esquecemos a miséria em que vivemos de dois em dois segundos.
Escrito por Rafael | março 22, 2007 10:27 PM
Comentário
Mas (sempre tem um mas) como esquecer: Bibo Pai está na poltrona, lendo um jornal. Bobi Filho entra na sala: "Ó, meu querido paaai... um marcianinho está lá fooora.."
"Oh, oh, oh. Isso dão existe, Bobi meu filho, meu filho..."
"Mas, querido paaai.."
"Chega, Bobi. Estou lendo meu jornal. Vá brincar lá fora..."
Bobi filho sai. Bibo pai olha pra câmera:
"Essas crianças de hoje... têm uma imaginaçããão..."
Continua lendo o jornal e atrás dele passa um mini disco voador com um marcianinho. Ouve-se um barulho de geladeira abrindo e fechando. O mini disco volta, carregando um pernil. Passa de novo e volta com um sanduiche. E assim algumas vezes.
Bibo Pai olha pra câmera:
"Se há uma coisa que eu não suporto é um marcianinho ladrão de geladeeeira..."
Como é que a gente esquece de uma coisa dessas?
Escrito por: Guga Schultze | março 28, 2007 06:00 PM
Eu adorava esses desenhos, mas acho o artigo do Diogo Mainardi digno de atenção.
Aí espreitei o resto do blog e li o seu lúcido comentário sobre comportamentos ambientalistas.
Prometo voltar mais vezes :-)
Escrito por: Gi | abril 9, 2007 01:37 PM