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março 26, 2007

Acerca de ecologia

Agora é aquecimento global. Você sabe que o assunto está na moda quando ele vira mote de piadas de mesa de bar. Al Gore abre seu PowerPoint e todo mundo começa a repensar seu estilo de vida. Todo mundo indo de bicileta pro trabalho, todo mundo comendo menos carne vermelha, todo mundo morando em casas inteligentes, que lidam com calor, frio e luminosidade de sorte a reduzirem o consumo de energia. Só assim rola de reduzir a emissão de carbono e a elevação da temperatura da terra.

Mas será que é só isso mesmo? Fácil, ou melhor, complicado assim? Não é de se estranhar quando pinta uma solução decisiva para a humanidade? A questão aqui não é assumir uma posição individualista, na qual primeiro agarra-se irracionalmente aos direitos pessoais para, em seguida, buscar justificativas a cada um deles. É se perguntar se não tem algo além da superfície da discussão.

Por exemplo: Al Gore viaja o mundo fazendo palestras para combater o excesso de emissões de carbono. Sabe-se que os aviões são uma das principais fontes de emissão. Não seria mais ecológico ele ficar em casa, distribuindo o conteúdo dessas aulas, digamos, pela internet? Alguém já fez as contas, na ponta do lápis, para ver se o gasto com viagens de Al Gore já foi compensado pela economia de carbono das pessoas que ele educou?

Sim, a dificuldade em estabelecer esses números é o primeiro impecilho na busca das soluções e, em última análise, da verdade. Daqui a pouco alguém descobre que, a exemplo da campanha do Bono, gastou-se mais com propaganda do que o que se arrecadou em doações...

O que me incomoda, pessoalmente, é que certos tipo de mudança de atitude já estão assumindo papel de panacéia, de correção no caminho de um mundo mais limpo. Cita-se a prática de esportes como exemplo de integração saudável com a natureza, sobretudo em ambiente urbano. Mas o que eu vejo na minha cidade, vá lá que seja quase totalmente orientada para carros, é o seguinte: o pessoal taca vela e prancha no quatro por quatro, dirige meia hora até o cais na beira do rio quando, aí sim, vai velejar suas ondinhas. Depois de umas horas no mar, recolhe a tralha toda, e mais gasolina queimada para voltar pra casa. Compute-se o gasto de combustível do processo, leve-se em conta se a vela e a prancha foram fabricados em processos poluentes, e a impressão que fica é a de que o nerd que foi ao cinema da esquina tava curtindo uma atividade mais ecológica.

Ser ecologicamente correto é caro. Os processos limpos ou recicláveis aindam apanham para competir de igual para igual com os despreocupados com resíduos. Isso sem contar outros fatores, como mão-de-obra, que interferem no custo final. Você compraria hortifrutis orgânicos se soubesse que são plantados por semi-escravos? O que é mais importante, preservar a terra ou os seres humanos que nela trabalham?

Parte do motivo dessa discussão nunca aflorar completamente deve-se á invenção do chamado estilo de vida, aquilo que se supõe que você não a partir do modo como você vive, mas a partir do que você consome. Mais um exemplo: acampar ainda recebe o estigma de atividade de amante da natureza, mas quando se entra numa loja de suprimentos moderna, com sua enorme variedade de barracas, sacos de dormir sintéticos, toldos, isolantes, cadeiras dobráveis, fogareiros, lanternas, é de se perguntar se algum conforto foi perdido no meio do processo. Não vou entrar no mérito aqui de que mais de metade daquela tralha veio da China, onde nem os métodos de fabricação nem as relações de trabalho são das mais exemplares. Entretanto, continua imaculada a imagem de uma vida mais natural, selvagem, integrada com a natureza. Quem acampa continua com a imagem de ser mais integrado com a natureza.

Não seria melhor parar de comprar esses bagulhos da China, contribuindo assim para a redução das más práticas industriais? A questão toda é que o sistema produtivo não pode parar, e pior do que isso, aparentemente não pode reduzir o ritmo, então a idéia de democratizar o acesso passa a ser difundida como solução universal. Normalmente, quando alguém defende a tese de que a qualidade de vida evoluiu, é na base de termos que mostram como o acesso a vacinas, bens de consumo domésticos e informação aumentou, mas raramente alguém lembra de apontar as consequências dessa democratização, a pior delas a inviabilização da vida humana em cidades grandes.

Até mesmo uma coisa tida quase universalmente como boa, a reciclagem de vidro, entra na roda. Outro dia comentei que, apesar de separarem papel, não havia separação de vidro no lixo do meu prédio. Um amigo escreveu explicando que nem todas as cidades tem sua unidade de processamento de vidro, e se a distância for grande, gasta-se mais com o transporte do que o mero descarte. Contou ainda que universidades na Califórnia estavam fazendo um projeto para calcular o custo energético e ambiental das políticas ambientais como reciclagem, colocar catalizador em veíulos, etc. haja vista que existia a suspeita de que muitas destas políticas onerariam mais o meio ambiente do que se absolutamente nada fosse feito. Por que esse cálculo nunca tinha sido feito antes? Porque as decisões ambientais foram todas tomadas por impulso ativistas...

A idéia aqui não é travar qualquer chance de ação ecológica, mas lembrar que se deve calcular muito bem os custos de cada decisão. Fundamental apenas é manter em mente que o primeiro passo do triângulo da reciclagem é REDUZIR, ou seja, racionalizar o uso e consumo de recursos naturais -- e isso se faz eficientemente com pequenas mudanças no dia a dia. Escolhi morar à distância do escritório percorrível à pé não para gastar menos gasolina, mas para escapar de qualquer chance de engarrafamentos. Outro dia chegou a conta de energia dos meses do verão e notei que não foi mais cara do que a média, apesar do uso do ar condicionado quando preciso, porque aprendi a deixar a casa mais fresca jogando com janelas e cortinas... Reusar sacos plásticos em supermercado, optar por porções maiores (cujas embalagens geram menos lixo) quando o produto não é perecível, deixar acumular roupas (ou utensílios de cozinha) para lavagem na máquina a plena carga, tudo isso economiza energia e recursos naturais sem incorrer numa mudança significativa do famigerado estilo de vida, sem perda de conforto. Não é preciso acreditar em tudo que o ativismo propaga, mas é preciso fazer a sua parte.

Escrito por Rafael | março 26, 2007 06:17 AM

Comentário

Muito bom o post, engraçado que eu já tinha pensado sobre isso, quando eu via um caminhão na minha cidade levando papel pra reciclar ele tinha que percorrer quilômetros porque a industria é longe, nesse trajeto eu ficava pensando se não estava gastando-se mais com combustível de um caminhão velho e poluente do que deixando um papel de jornal se degradar naturalmente em no maximo um ano, pelo menos eu acho que é esse o tempo nescessário, assim como vc falou ninguém mediu isso ainda...

Escrito por: Leonardo | março 26, 2007 10:52 PM

Algumas coisas são difíceis de calcular: tendo os dados à mão seria facílimo calcular quando CO2 o Al Gore gastou para percorrer o mundo. Bem mais difícil do que isso seria calcular quanto CO2 ele ajudou a poupar através de pessoas que assistiram ao seu filme ou a uma de suas palestras e passaram a economizar em moldes parecidos com os propostos.

Mas no geral discordo da noção pessimista que vc. em geral veicula aqui no blog. A edição brasileira da Scientific American publicou um estudo científico que mostra que alterando a matriz energética pode-se reduzir pela metade a emissão de co2, no prazo de 50 anos, mantendo-se o crescimento econômico atual. Não é necessário para tanto abrir mão das viagens de avião quando vc. postou aqui outro dia... o que não invalida a proposta de uso racional

Escrito por: Daniel | março 28, 2007 03:46 PM

Convergindo nossa conversa dos Estertores? Que bom rapaz! Bom texto.

Escrito por: Ram | março 29, 2007 06:43 PM

Das coisas mais sensatas que li sobre o assunto. Belo post, Rafa!

Escrito por: Eduardo Carvalho | março 29, 2007 11:19 PM

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