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abril 02, 2007

Tristeza e Raízes

Sábado foi dia de conferir um dos mais festejados eventos do pedaço, o West Coast Blues and Roots Festival. Pelo que eu saquei, concentraram as atrações internacionais em um dia (cujos ingressos esgotaram mais rápido) e as locais no outro. O que iria tocar? Além de blues, como o nome indicava, tudo aquilo que se pode enquadrar sob o rótulo de roots, ou seja, praticamente qualquer coisa cujo ritmo tenha inspiração africana ou rural, country.

Claro que sobraram algumas estrelas internacionais para preencher mais de 6 horas de música ininterrupta em dois palcos distintos, mas você só sabe o que é mesmo morar num lugar fora de mão ao tomar consciência de que está se encaminhando para o show do Sierra Leone Refugees All Stars, ou seja, para a banda de refugiados de Serra Leoa. Enquanto todo mundo corre para comprar os ingressos do Buena Vista Social Club ou do Cuban All Stars, o máximo que chega em Fremantle são os refugiados de Serra Leoa, um grupo de músicos tão desgraçado que nem se formou em Serra Leoa, mas em Guinea, num campo de refugiados, e foi descoberto por um cineasta canadense, como é típico. Pela aparência de alguns músicos, ainda parecem estar se refugiando, enquanto correm o mundo para mostrar sua miséria cultura.O som é uma mistura de ritmos africanos com ênfase no reggae, sobretudo ragga, em letras falando de liberdade e paz, com sói acontecer com essas bandas africanas (já ouvi discursos semelhantes vindos de Zâmbia, Congo e África do Sul). Nada que uma banda de axé mediana não faça com pé nas costas, mas como não existe samba nem axé por aqui, lambo meus beiços com os refugiados.

Eu achei que iria enterrar apenas um morto-vivo quando vi aquele senhor grisalho e barrigudo sentado num banquinho e fazendo das tripas garganta na interpretação de um blues quando adentrei o recinto, sem restar dúvidas: Eric Burdon e sua enésima encarnação dos Animals, apenas um dos quais parecia ser de sua mesma geração. O resto da banda tinha idade não para ser os senhores seus filhos, mas seus netos. Aliás é curioso ver como o rock ficou conservador; há 40 anos eram jovens ingleses branquinhos procurando conhecer e imitar o som de velhos negros blueseiros. Hoje qualquer banda é aimagem do politicamente correto, tem uma moça ruiva ou um negro -- ou ambos, como era o caso. Cheguei perto do fim, mas a tempo de ver a notória versão de House of Rising Sun, cantada em coro por metade da platéia, cuja idade média estava acima dos 50. Ao encerramento, funcionários apareceram com rodos para remover o excesso de lágrimas que cobriam o chão. Mais apoteótico, só se o Agnaldo Timóteo entrasse em seguida para cantar a versão em português. A bem da verdade, achava que Eric Burdon seria o único morto-vivo que eu presenciaria naquela noite, mas ainda consegui ver, horas depois, entrar naquele mesmo palco Lee "scratch" Perry, para quem não sabe o mais importante produtor de reggae jamaicano, o músico que sobreviveu a Peter Tosh e Bob Marley e ainda se apresenta do alto de seus mais de 70 anos. Mas como aquele sotaque jamaicano tava dose e o reggae não embalava, me mandei para ver o maior herói da Western Australia.

Pois assim descrevia o folheto: John Butler nasceu na California mas é o maior herói da WA (competindo em admiração talvez apenas com Megan Gale e, em menor escala, Heath Ledger). Um virtuose da guitarra que foi criado no meio do nada desértico chamado Pinjarra e começou carreira tocando nas ruas de Perth, o que deve ter dado motivo para muita história que se ouve hoje em dia de gente que diz que viu-o no mercado de Fremantle. Butler é ativista ecológico e hippie o suficiente para ter batizado uma filha de Banjo, mas o fato é que nada disso compromete seu grande talento musical ou diminui o impacto de suas apresentações ao vivo, além dele fazer a sua parte com uma fundação homônima e usando embalagens biodegradáveis em seus CDs. Você até pensa nisso enquanto sacode o esqueleto ao som de Zebra.

Espiei ainda os shows de Wolfmother, um mala chamado Xavier Rudd, um bando de malas chamados Gomez e outros que minha memória fez o favor de apagar. Mas a grande surpresa da noite foi mesmo a maravilhosa apresentação de Bela Fleck and the Flecktones, o maior tocador de banjo do mundo, apresentando músicas instrumentais num ritmo que por absoluta incapacidade de definir vou chamar de jazz, num conjunto sui generis composto por guitarra, banjo, saxofone e baixo (o baixista também fazendo as vezes de baterista). O Grammy, que não é dos melhores em classificações, já indicou Bela Fleck and Flecktones para prêmios nas categorias jazz, bluegrass, pop, spoken word, contemporary Christian, gospel, classical e country. O conjunto conta hoje com guitarra, banjo, saxofone e percussão -- feita à base de um sintetizador e reduzida bateria. O som é sublime, algo como eu não ouvia desde o último Jambalayo Jazz Festival. Se Eric Burdon foi quem arrancou mais lágrimas, com um mínimo de intervenções faladas como é de praxe entre os músicos de jazz, foi Bela Fleck quem deixou mais gente babando e saiu debaixo da mais aplausos. Inesquecível.

Escrito por Rafael | abril 2, 2007 04:08 AM

Comentário

Eu fui num show do Bela Fleck em Honolulu em 2002, e fiquei impressionada tbm, principalmente com a presença de palco da banda. Som nota 10, levou todo mundo ao delírio. Não sei se essa é a mesma impressão q vc teve, pq eu já conhecia os cds do Bela e achava-os "okzinhos". Fui pro show bastante incrédula. Quando cheguei, tive uma surpresa pra lá de agradável. Eles realmente soam diferente no palco. Passei a valorizar mais a banda depois do show.

Escrito por: Lucia Malla | abril 2, 2007 10:04 AM

Cara, o Gomez e sacal. Eu fui num show em Nova iorque, e só me serviu para não confiar mais em bandas que se vendem como representando certa etinia...

Escrito por: Ram | abril 10, 2007 12:04 AM

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