« Hayley Campbell | Principal | Reeditando tiras »
abril 16, 2007
Curtin e a II Guerra
A matéria principal no suplemento de final de semana do West Australian foi escrita pelo seu principal colunista de opinião, Paul Murry, ocupando a capa daquele caderno: John Curtin, primeiro ministro australiano durante a II Guerra mundial, virou personagem de um especial na rede de televisão ABC a ser exibido na próxima semana, perto do feriado dedicado à força expedicionária Austro-neozelandesa. A matéria faz ao mesmo tempo uma crítica á dramatização e analisa a postura de Curtin durante a guerra.
O que há de curioso nela? Curtin foi, resumindo, o homem que jogou a Austrália no colo militar dos EUA. Quando o bicho começou a pegar na Europa e a Inglaterra declarou guerra à Alemanha, 1939, muito a contragosto e de má vontade o então primeiro ministro australiano (não era Curtin), declarou estar a Austrália também em guerra contra a Alemanha: isso implicaria no envio de tropas para o campo de batalha. Em 1942, com a Inglaterra debaixo de fogo cerrado há anos, os EUA recém-mobilizados após Pearl Harbour e Singapura na mão dos japoneses, qualquer australiano que se prezasse se colocaria na posição de próximo alvo do império de sol nascente. Nesse contexto, Curtin não teve dúvidas: foi pedir ajuda aos EUA, que solicitamente, atenderam.
Isso criou um precedente histórico de aliança militar EUA-Austrália porque, dali pra frente, em praticamente todas as intervenções externas em que os EUA se meteram (vou pegar só os mais famosos para fins de exemplo: Coréia, Vietnã e recentemente Afeganistão e Iraque), pode procurar que lá estava um pelotão australiano. Eu acho graça quando esbarro em brasileiros por aqui que dizem gostar da Austrália mas não dos EUA, quando os mesmos motivos de ódio ao segundo se aplicariam perfeitamente ao primeiro: intervenções militares externas, desrespeito ao meio ambiente, patriotismo ridículo... Seja como for, Curtin ficou pra história como salvador da pátria, por ter impedido que o conflito chegasse em seu território.
Paul Murry afirma que a independência de Curtin deveria servir de exemplo para o atual primeiro ministro, John Howard, criticado pelos australianos por entrar demais no jogo dos EUA. O que Murry entende como "independência" é o fato de Curtin não se furtar em tomar decisões conflitantes com as de Churchill, melhores para a Austrália. Provavelmente Murry não se tocou da ironia em que incorre: há 65 anos, independência para os australianos era correr pro colo dos norte-americanos; hoje, é falar grosso com eles... Sejam brasileiros em intercâmbio cultural (g.a.r.g.a.l.h.a.d.a.s), seja o colunista do principal jornal do estado, as opiniões políticas nunca parecem estar livres dos clichês, o mais fácil deles, o anti-americanismo.
Escrito por Rafael | abril 16, 2007 11:34 PM
Comentário
Curioso, você escrever Austro-neozelandesa, porque o uso mais tradicional de austro é para a Áustria - Império Austro-húngaro - não sei como seria no caso da Austrália. Algum professor de português se habilita?
Escrito por: LuiZ FernandoS | abril 21, 2007 08:23 PM