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abril 17, 2007
Reeditando tiras
Matéria no NY Times sobre a coleção e reimpressão de tiras de jornal em coletâneas de luxo. O que nunca deixou de ser uma alternativa editorial (a extinta Kitchen Sink Press e a Fantagraphics sempre investiram nesse filão) parece estar se tornando uma onda atualmente, com as republicações em ordem cronológica e edição primorosa das tiras de Dick Tracy, Peanuts (a turma do Charlie Brown), Popeye, The Spirit e Gasoline Alley enquanto já foram alvo de cuidadosas coleções Ferdinando Buscapé, Príncipe Valente, Flash Gordon e Brucutu, entre outros. A novidade é que, além da ordenação cronológica, os álbuns ganharam prefácios e tratamento gráfico superior, com direito a capa dura e rica impressão, enquanto as tiras passaram por um trabalho de restauração após serem digitalizadas, o computador estando para elas como os pincéis e cotonetes para os quadros renascentistas restaurados.
O que mais impressiona, quando se tem um álbum desses nas mãos? O resgate da memória, o cuidado em reapresentar a arte tal como ela originalmente deve ter sido publicada? O interesse e a reverência pelo passado demonstrados pelos designers que bolam a identidade visual das coleções? Nada disso. O que mais devia impressionar é o fato dessas coleções terem sido reunidas por fãs ao longo de décadas, fãs que pelo próprio interesse se propuseram a reunir todo o material e por interesse comercial acreditaram que transformá-lo num produto poderia dar retorno dos consumidores. No Brasil, como isso é feito? Antes de mais nada, uma trabalheira infernal para recuperar os arquivos, já que poucas são as bibliotecas que têm coleções completas de jornal; depois, em geral uma grita dos diabos por parte de filhos & herdeiros em nome da "preservação da memória nacional" e do "interesse comum" para conseguir o incontornável patrocínio estatal, embolsando o devido lucro, afinal a memória é nacional mas o herdeiro sou eu. Resultado? Conte quantas coletâneas de tiras brasileiras existem: mesmo as que se enquadrariam perfeitamente num projeto assim, como As Mil e Uma Noites (de Paulo Caruso) nunca ganham lombada dura, e mesmo reedições de revistas com apelo de vendas, como o Pif-Paf, só saem à base do leite da Petrobras... Para quem diz gostar tanto assim do "passado", parece bem pouco esforço em preservá-lo (melhor trabalho fazem os fanzineiros que xerocam e editam tudo por conta própria).
Escrito por Rafael | abril 17, 2007 11:47 PM