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abril 19, 2007

Uivo, apud Alexandre Soares Silva

Eu vi as melhores mentes da minha geração destruidas por
Cheetos, famintas histéricas nuas,
se arrastando pelas ruas de Moema de madrugada
procurando um lanchinho zangado,
blogueiros com cabeças de anjo ardendo pela velha e celestial
conexão estrelada a cabo na maquinaria da noite,
que todos desleixados e de olhos vazios sentavam
fumando na escuridão sobrenatural de
apartamentos sem água quente flutuando sobre cidades
contemplando My Humps do Black Eyed Peas no YouTube com um misto de desdém
e apreciação irônica pós-moderna e tal,
que desnudavam seus cérebros para o Céu e
viam anjos liberais da escola austríaca cambaleando em
telhados iluminados,
que passavam por universidades com olhos radiantes e uma jingadinha
alucinando Mato Grosso e tragédia no bandejão
entre os estudiosos da guerra de comida,
que foram expulsos de academias por postarem fotos de Bush com bigodinho de Hitler
e escreverem "cadmia" nas janelas do
crânio (e "né genteum"),
que se esconderam em quartos mal-barbeados de cueca, quei-
mando dinheiro em cestas de lixo e ouvindo
o Terror do Orkut através da parede,
que foram presos pela polícia em suas barbas públicas voltando de
Aparecida com um cinto de marijuana e talvez, quiçá, paçoca,
que beberam fogo em hotéis de tinta ou talvez só mojitos mesmo,
cada vez que Jack Bauer dizia "Dammit!" lá ia um mojito,
morte, ou transformaram seus torsos num
Purgatório noite após noite
com sonhos, com drogas, com posts falando mal do Che Guevara
(Che Gueivara), álcool e pingulim e bolas intermináveis que iam
bater lá no chão, vixe,
nem me fale;
ruas de nuvens tremelicantes,
porres de vinho em telhados,
que se acorrentaram ao metrô para a interminável
ida da Sé à Barra Funda sob o efeito de vic vaporub
até que o barulho das rodas e das crianças os derrubassem
tremendo e deixando comentários sarcásticos no post de um
velhinho ateu, o cérebro todo esvaziado de inteligência
e errando na concordância sob a luz horrenda do zoológico,
que afundavam a noite inteira na luz submarina do O'Malley's
ou sentavam na frente da cerveja morna do Lone Star desolado,
que falavam continuamente setenta horas do parque ao bar
à Livraria Cultura ao Cineclube Unibanco à padaria gay,
batalhão perdido de conversadores platônicos saltando
pelas janelas da PUC até a lua,
falando gritando vomitando sussurrando fatos
e memórias e anedotas sobre Milton Friedman,
G.K.Chesterton, superduper,
intelectos inteiros stumblando imagens aleatórias de garotas indies
um pouco magras demais e tatuadas
e tiras de Calvin por sete dias e noites com olhos brilhando,
fazendo piada com o Henry Sobel caído na calçada na saída da Bella Paulista,
que andavam de lá pra cá na rodoviária pensando se deviam comprar
a Playboy com uma mulher troncha na capa por volta da meia-noite,
e entravam no ônibus para o Rio, não tendo partido coração algum,
que acendiam cigarros na parada de Itatiaia Itatiaia Itatiaia sacolejando
no asfalto em direção à noite cheia de idéias para posts,
idéias de idéias para posts, nunca usadas,
que estudavam Plotino Eric Voegelin Radamanto e telep
atia e Cardeal Newman porque o cosmos in-
stintivamente vibrava sob seus pés em Ribeirão Preto,
que só se achavam malucos quando o Guaíba
brilhava em êxtase sobrenatural e, vá lá,
um pouco gay,
que vagabundeavam famintos e tristes por Itanhaém
à procura de Paulo Salles ou sexo ou sopa de cebola,
que desapareceram nos vulcões de Araraquara sem deixar
nada pra trás a não ser a sombra de seus IPs,
e a lava e a cinza de todos os seus posts
reunidos num livro mostarda, num único livro mostarda,
queimado para sempre no incêndio
de Chicago.

Provavelmente eu gostei tanto por conhecer 76.53% das referências usadas, e se você não as entendeu, não é porque está por fora. É porque simplesmente não importam. Mas tem outro motivo para eu ter copiado esse pastiche aqui. Há alguns anos uma amiga me contou ter lido um poema de um dos autores da nova geração que ela tinha gostado muito, disse o nome do poema e só. Fui procurar e fiquei embasbacado, porque era uma pobre cópia imatura do Allen Ginsberg, sem a mesma pungência e desespero. Hoje esse mesmo cara já ficou famoso e até teve o nome envolvido num desses ambiciosos projetos culturais cujo grande resultado em geral é o apartamento novo do produtor. Até deve ter ganho mais dinheiro do que o Alexandre. Mas ainda não é capaz de fazer um pastiche assim, com as referências corretas nos lugares certos. Ainda bem que existe São Paulo no Brasil.

Escrito por Rafael | abril 19, 2007 11:19 PM

Comentário

Boa. Nao sei se vc soube, mas eu tinha pensado em fazer um Amores Expressos do B - varios blogueiros brasileiros escrevendo contos de varias partes do globo - sem gastar dinheiro publico! Falei com o Inagaki, mas a historia acabou nao rolando.

De resto, eu desprezo essa geracao que esta 50 anos atrasada em suas angustias e crises.

Escrito por: Baxt | abril 20, 2007 03:44 PM

Rafa,

Quando leio seu blog, depois de algum tempo sem ler, como aconteceu agora, revivo os motivos que me levaram a me apaixonar por você. :o)
Eu simplesmente a-do-ro a maneira como você escreve!

beijos, Ana. From Bogotá.

Escrito por: Ana | abril 20, 2007 03:48 PM

O pior é que parece que metade da literatura brasileira é pastiche malfeito. Pastiche de uma outra literatura ainda não identificada.

Escrito por: Ronald | abril 20, 2007 03:56 PM

Este Paulo Salles é o graal da internet, hein?

Escrito por: jorge nobre | abril 20, 2007 06:57 PM

É interessante notar como a poesia do Ginsberg resiste à pastiches, ainda que bem feitos como esse (é mais difícil. O caso do Eça de Queiroz é clássico, a tradução dele das Minas do Rei Salomão saiu melhor que o original). O Alexandre captou bem a voz do Ginsberg, ainda que com seus trejeitos alexandrinos característicos: "...brilhava em êxtase sobrenatural e, vá lá, um pouco gay..." Mas talvez, pra nós brasileños, assim seja melhor. E cinquenta anos não é nada. O Brasil não dá um passo nesse intervalo.

Escrito por: Guga Schultze | abril 30, 2007 03:18 PM

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