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maio 11, 2007
Spike Milligan
A peça que assisti na ópera de Sidney chamava-se Ying Tong - a walk with The Goons. The Goons foi provavelmente o programa humorístico mais popular da Inglaterra na era do rádio, redigido por Spike Milligan e interpretado por ele, Harry Secombe e Peter Sellers, ainda no limiar de sua carreira cinematográfica. A peça é centrada no período em que Spike teve um colapso nervoso por conta do trabalho e foi internado num sanatório. Delírios, memórias perdidas, crises de identidade e um bloqueio criativo assaltam sua sanidade. Um dos grandes baratos da peça é o paralelo entre a confusão mental pela qual Spike passava e a anarquia característica dos programas dos Goons. Por exemplo, em uma das cenas, Milligan é visitado em seu leito por dois duendes, uma referência à sua origem de mãe irlandesa e pai inglês. As cenas mais improváveis, entretanto, aconteceram de fato: Peter Sellers aparecendo nu numa madrugada, à procura de um bom alfaiate; Milligan fora de si, ameaçando Sellers de morte com um descascador de legumes. A tensão que havia nos bastidores gerava situações tão imprevisíveis quanto os diálogos surreais. Apesar da chuveirada de gargalhadas que cai sobre o palco -- ouvindo-se gravações antigas é possível ver que, por conta das interpretações, o público ria antes mesmo do fim da piada. E ria de qualquer piada. Adicione-se a isso a simpatia da cidade por Milligan, cujos pais foram morar em Sidney depois de se aposentarem, virando um segundo lar -- o drama de Spike Milligan tem cores fortes: o medo do bloqueio criativo nunca ser superado, o rancor de Sellers que, alistado, nunca pegar numa arma, e de Secombe, que apesar de ter vivido o horror das trincheiras ao seu lado, manteve o equilíbrio psicológico. O programa acabou na década de 1960, exatamente antes do papel triplo de Peter Sellers em Dr. Strangelove, que o tornaria o ator humorístico mais famoso do mundo. Uma rapidíssima amostra do que era The Goons pode ser vista no filme Vida e Morte de Peter Sellers, baseado na biografia de mesmo nome. A fonte de Milligan, entretanto, não secou ali: continuou redigindo e atuando pelas décadas que se seguiram. Se levarmos em conta que o texto de Spike Milligan em The Goons influenciou a dupla Peter Cook e Dudley Moore (tida como a melhor dupla humorística britânica, antes de Moore ir para Hollywood), os filmes dos Beatles e os textos de John Lennon e todo o grupo Monthy Python, não é difícil afirmar que spike Milligan simplesmente criou o melhor humor britânico contemporâneo. Incompreensível somente que tenha aceitado se submeter, bem no finalzinho da vida, ao pior insulto que um humorista de carteirinha poderia receber: a condecoração de Sir pela rainha, sua fã.
Escrito por Rafael | maio 11, 2007 06:34 AM
Comentário
Ah, cole? Ser sir eh muito legal.
Acho hilario aqui que eles se referem as pessoas como o "Sir", Fulano de Tal, "Lord" Beltrano, "Dame" Cicrana. Coisa de ingles.
Escrito por: Baxt | maio 15, 2007 02:05 PM
Sir Spike Milligan é como Millôr Fernandes, membro da Academia Brasileira de Letras. Mas você tem razão, eles podem tirar uma de anárquicos, punks, anti-autoritários mas os ingleses adoooooooram um título monárquico. Consciência de classe.
Escrito por: Rafael Lima | maio 15, 2007 11:54 PM