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maio 16, 2007
Melbourne, Sidney
Contrariando todas as expectativas, gostei mais de Melbourne.
Por que? Talvez apenas porque tenha visitado antes. Em uma palavra, porque tem mais personalidade -- não que Sidney não a tenha, mas a sua é péssima, a começar por difundir mundo a fora a idéia de balneário relaxed e laidback (essas são as duas palavras que você mais vai ouvir para definirem a Austrália) pruma cidade entupida de gente e crescendo, apressada, confusa e neurótica, mais São Paulo do que Florianópolis. Melbourne não tem
praias mundialmente famosas, não tem sol -- desconfie de qualquer cidade onde as pessoas saem de bermuda e camiseta à temperatura de 20 graus --, não tem nem uma ponte nem uma ópera particularmente bonitas. Mas tem uma infinidade de bares, cafés e restaurantes aconchegantes e charmosos, alguns minúsculos, onde a escala humana pode se refazer da agressão dos arranha-céus e curtir paladares que só a tradição consegue cultuar.
Em Perth, onde eu moro, tudo é mais barato, mais amplo, mais espaçoso -- e por isso mesmo mais impessoal. Você nunca pega fila para entrar num restaurante, mas não existe aquele bistrozinho meio em conta que serve um filé inesquecível, onde você conhece o garçom e não se aborrece em esperar meia hora na porta. Não tem arquitetura, não tem história, não tem tradição. Mas tem um monte de espaço vazio nos parques, praias, restaurantes. E as meninas são mais bonitas.
Enquanto Sidney evoluiu de depositório de condenados, Melbourne rapidamente foi elevada a província com a descoberta do ouro, que arrastou hordas de chineses para lá. Aliás é curiosa a simetria de sua história com San Francisco, onde o outro foi descoberto na mesma época, onde o crescimento populacional foi desenfreado e a cidade foi ocupada por tendas, onde a imigração chinesa desceu em peso. Até a reorganização que as cidades passaram no começo do século XIX é similar, mas por motivos diferentes: Melbourne, por causa da depressão que se seguiu à euforia do ouro, da Marvellous Melbourne; San Francisco, por causa do terremoto de 1906. Os bondes também são um ponto em comum entre as duas cidades, ainda que Melbourne tenha mais jeito de Bruxelas do que San Francisco por causa deles.
Também descobri a identidade secreta de Bruce Wayne: fundador de Melbourne. Que durante curto período, vejam essa, chegou a ser conhecida como Batmania.
Acho que Melbourne me atraiu, no fundo, por ter tudo que não existe em Perth: um centro da cidade que mereça esse nome, vida noturna e cultural idem, grandes mercados ao ar livre, burburinho, bondes, prédios interessantes, diversidade -- Perth tem gente dos quatro cantos, mas quando comparada a Melbourne, parece uniforme. Muita gente daqui já me disse que, se não fosse o clima, iria morar lá. Justiça seja feita, eu deveria continuar com a comparação dizendo que Melbourne também não tem as praias de Cottesloe, Scarborough ou Swanbourne nem sol 8 meses por ano, mas não se engane: as maiores marcas de surfwear australianas (Rip Curl, Billabong, Quicksilver...) foram todas originadas em Melbourne, apesar da fama de Bondi e Manly, que ficam em Sidney. Ah sim, Ned Kelly também é da região de Melbourne. Ned Kelly é o Lampião australiano, simplificando.
Provavelmente por causa das nuvens e do fim de tarde, Bondi não impressionou nem metade do que prometia. É um dos grandes mitos australianos -- o que não é mito é o passeio pelas rochas que existem do lado direito da praia, onde construíram uma passarela de concreto pelo meio das pedras esculpidas pelo mar, um caminho que leva até as praias de Tamarama e Bronte, bem menores e mais protegidas. Dali o oceano se descortina em toda sua grandeza, mais ou menos como se vê a partir do Forte de Copacabana; mas a caminhada em si é mais bonita do que o Arpoador, embora Ipanema e Copacabana sejam mais bonitas que Bondi, Peter Carey que vá lá conferir.
Manly não, Manly é tudo que promete, é uma das praias metropolitanas mais bonitas do mundo -- claro, se você considerar que Manly é parte da metrópole e não, como chamam por lá, um subúrbio. Quando começaram a ocupar Manly, cujo nome deriva de um comentário segundo o qual os nativos locais seriam muito másculos, os ingleses compararam-na a uma Brighton do sul. Brighton, que era a melhor idéia que os ingleses tinham de um balenário. O que prova que não é só por ir de calça jeans pra areia, inglês não entende nada de praia, mesmo.
Já que eu me meti, mais uma comparação: a baía de Sidney é mais recortada e imprevisível que a da Guanabara, com sua estranha simetria entre os lados do Rio e Niterói. Além disso, é indescritivelmente limpa -- para quem acomoda umas 15 barcas cruzando seu leito dia e noite, fora cruzeiros, catamarãs e aerobarcos -- e teve extrema felicidade na intervenção humana; mesmo os arranha-céus se restringem ao Cais Circular, cedendo espaço para o inacabável verde dos gramados do Jardim Botânico. A baía de Guanabara é mais ampla em seu recorte e a ponte Rio-Niterói não valoriza paisagem nenhuma, mas com um conjunto de morros como aquele a lhe rodear, nem precisava. A baía de Sidney é mais bonita inclusive pela maneira como foi ocupada, a baía de Guanabara tem o conjunto mais bonito.
Metade do interesse em visitar Sidney está na baía, e não é pouco. Descontando a chegada de barco, a melhor maneira vê-la pela primeira vez é aproveitando o declive da Macquarie Street, que desemboca do lado direito do Cais Circular, e vai descortinando aos poucos a vista geral: seu campo de visão vai sendo invadido simultaneamente pela ponte, do lado esquerdo, e pela ópera, do lado direito. Parece uma coreografia.
Aliás a ópera não é uma ópera, ou melhor, não é só uma ópera: é um conjunto de salas de entretenimento, englobando uma sinfônica, uns quantos teatros e um palco que se revesa entre óperas e shows de música (Marisa Monte deve tocar lá nesse mês), além de um restaurante. Não espere encontrar no interior, entretanto, nada que relacione essas salas ao arrojado desenho externo: como todo bom arquiteto, Utzon se limitou a libertar sua criatividade e traçar umas quantas formas abstratas no papel -- e depois os engenheiros civis que se danassem, arrumando um jeito de pôr aquilo tudo de pé. Utzon também não previu como ocupar os interiores, ajudando a multiplicar mais um pouco o custo inicial previsto na licitação, já que tiveram que contratar outros arquitetos para projetar os teatros, ópera, sinfônica. Ao cabo de uns 10 anos de muito neurônio e dólar queimado, Sidney tinha sua espetacular ópera, a disputar com a ponte o posto de construção mais bonita da baía (e vencer), estrategicamente colocada: Benelong Point está para a ópera assim como a praia de Icaraí está para o MAC, em Niterói. Em tempo, a construção foi toda bancada por dinheiro arrecadado na loteria, completamente sem tocar nos impostos, que hoje em dia subvencionam a orquestra australiana. Esteticamente, é indescritível: mistura formas orgânicas e geométricas, influências ocidentais e orientais, ogivas, conchas, minaretes, igrejas góticas, o escambau a quatro.
Em Melbourne, nos restaurantes descolados, as garçonetes parecem baterista da banda da Cássia Eller.
Em Melbourne tem um museu que conta a história da colonização da cidade do ponto de vista dos imigrantes chineses, em geral pobres camponeses em busca de ouro -- na língua chinesa, eles chamavam Melbourne de grande montanha de ouro. É interessante porque é a história contada de outro ponto de vista, por exemplo, começa com o interior de um barco que transportava mão de obra para a Austrália. Mesmo que fossem maioria entre os não-ingleses, sofreram muita discriminação, não tinham prioridade na escolha dos veios e viviam numa sociedade à parte, apesar de muitos terem sido condenados às barras pela mesma lei. Habilidosos, acabaram se estabelecendo por conta de sua força de trabalho, sua culinária, sua medicina milagrosa; um mandarim chegou até a ocupar alto posto num dos principais bancos, levando-o a imprimir dólares com ideogramas. Em determinado período, as autoridades forçaram os marcineiros a identificar sua origem nos gabinetes produziam. Num tempo anterior ao computador e à máquina de escrever, o gabinete era o móvel mais importante num escritório e os chineses, seus artesãos mais habilidosos e o tiro saiu pela cultara: o selo chinês servia de propaganda para os bons produtos... A grande atração desse museu é o dragão que todo ano novo ganha as ruas de Chinatown. Deve ter uns 60m de comprimento.
Credo, e como gostam de grama. Os Jardins botânicos, na verdade parques abertos ao público, são imensos, cheios de caminhos serpenteando por entre as alamedas, gente fazendo piquenique, lendo, tomando sol, jogando bola -- australianos fazem nos parques o que brasileiros fazem na praia; na praia, australianos fazem o que brasileiros fazem na sauna: ficam um pouquinho até ficarem vermelhos e vão embora correndo. Mas a grama: é para ser usada, pisada e aproveitada; é curioso como aquele cuidado todo tem por fim o usufruto, e não somente a contemplação, como nos jardins geométricos franceses. E dá-lhe cricket, golfe, futebol, rugby, frisbee. Só não se vê uma pipa no ar.
Aproveitei que as duas cidades eram bons centros gastronômicos para experimentar, mas prometi a mim mesmo nunca mais visitar algum bairro que o Lonely Planet recomende por ser cravejado de designer boutiques, cheio de personalidade e similares -- mostre-me a parte turística, a histórica, a pitoresca, a podre-de-rica, a de compras e fim de papo. Fitzroy fica somente a duas paradas de bonde do centro de Melbourne, mas nem por isso comprei aquele papo de gente cosmopolita, descolada ou seja lá o que for. É simplesmente um povo ali pro deslumbrado que optou (opção tipicamente primeiro mundista) por uma certa independência do sistema econômico, em geral menor do que aparenta. Mas não me arrependo da pizza do restaurante vegetariano, apesar do destaque da refeição ter sido o suco, uma misturada de frutas tropicais quase como fazem nas lanchonetes brasileiras; só me irrita o hábito de guia de indicar restaurantes vegetarianos e experimentais tanto quanto lugares pretensamente descolados. Melhor seguir os tradicionais, como o excelente moussaka do Stalactites, o melhor de uma quadra de restaurantes gregos que fica aberto 24h e tem na decoração impensáveis estalactites falsas.
No quesito Homer Simpson, o troféu máximo foi para o schnitzel do Lowenbrau, que além de ser uma cerveja alemã é o nome de uma cervejaria-restaurante-bar em The Rocks, área do primeiro assentamento europeu em Sidney e hoje, local francamente turístico. O filé de porco empanado tinha simplesmente a superfície do prato inteiro, um prato grande, tipo o de restaurante a quilo, e vinha cobrindo os acompanhamentos. Desceu bem enxaguado por uma garrafa de Schneiderweiss original, cerveja de trigo, no que desde então elenquei como uma das refeições mais lautas da minha vida. A escalada da ponte de Sidney que a precedeu foi perfeita para deixar o apetite no ponto certo. O segundo lugar ficou com uma perna de carneiro assada no molho de cerveja de tirar lágrimas que eu tracei no Lounge, em Melbourne.
Aliás foi lá de onde eu vi sair um cliente puxando uma malinha de rodas e carregando um saco de dormir. Por mais que o Lounge fosse suficiente informal (casual, como dizem nessas bandas), por mais perto da estação de trens, a cena me causou comoção. Ninguém barra australianos na capacidade de viajar.
Sidney vende a idéia de cidade de praia com todos os atributos típicos: informalidade, gente queimada, mulher bonita, ritmo relaxado. Nem tudo é verdade. Aliás, quem passar no centro da cidade, ali por onde corre o monotrilho, vai achar que a cidade é tudo, menos relaxada: o empurra-empurra de gente apressada & engravatada neurótica atrás de bonde, ônibus ou metrô não tem nada a ver com os folhetos turísticos -- foi nas quadras fechadas para pedestres do centro que aquele vídeo dos "abraços grátis" foi gravado. Mais: a área dos restaurantes, bares e cafés, Darlinghurst, tem um quê bem maior de Vila Madalena ou Cidade Baixa (para agradar os gaúchos) do que de Ipanema -- para ter um cheiro disso, é preciso ir a Bondi, mas nem assim. É meio complicado explicar o que é a tão falada cultura de praia australiana, vou me limitar a dizer que existem enormes áreas com grama perto da areia (escolhidas por muita gente para o banho de sol) e que raramente se vê alguém sujo de areia andando na rua. A preocupação com limpeza, segurança e não aporrinhar o vizinho é tão grande que acaba determinando o lazer. Temos muito a ensinar a eles em termos de cultura de praia. Em troca, eles poderiam nos contar como é que se consegue manter uma baía inteira limpa mesmo com portos funcionando e barcas e mais barcas cruzando pra lá e pra cá o tempo todo. O último trecho recortei do diário do Ricardo Freire, que fez a mais honesta descrição de Sidney que eu já li.
Nem por isso, entretanto, Sidney é uma cidade sisuda. Com todos os cafés, todas as garçonetes com pinta de baterista da Cássia Eller, todas as bandas tocando no Esplanade Hotel, Melbourne não tem um speaker's corner, essa magnífica invenção inglesa que acontece todo domingo de tarde, em frente à galeria de arte. Aliás Melbourne pode não ter um speaker's corner, mas tem a única galeria de arte que vale a pena ser visitada na Austrália, com seus Rembrandt, Tiepolo, aquele povo que você precisa ir pra Europa ver. A de Sidney só apresenta arte australiana, aborígene inclusive. Em compensação, você tem a chance de esbarrar num cara trepado em cima de um caixote onde se lê "o iconoclasta" discursando sobre o aquecimento global, confesso que não entendi bem se a favor ou contra. A menos de 5 metros dele, outro sujeitinho lia, em voz alta, algo impresso, ao qual não dei muita atenção porque me concentrei no terceiro, que se deu o trabalho de pôr terno e gravata e levar uma escadinha desmontável a servir de palanque. Desses três, dois estavam discursando quando eu entrei na galeria e assim permaneceram quando saí, DUAS HORAS DEPOIS, sem demonstrar grandes sinais de rouquidão. A platéia não era muito maior e o mais genial era que de vez em quando um deles se pronunciava gritando alguma coisa contra. No final da tarde, talvez para atrair novos ouvintes, o da escadinha defendia a tese polêmica de que os australianos não são melhores que os outros, comparando os diminutos artigos de um jornal local com as extensos garatujas de um panfleto em árabe. Você não é tão inteligente quanto acha, disse, apontando para um passante. Diante da cara de espanto: sim, você acabou de vir da galeria de arte, você deve ser inteligente! Diversão de primeira.
Fiz questão de não incluir no roteiro nenhuma das atrações próximas, tipo Phillip Island (onde o grande barato é assistir a procissão dos pinguins para o mar; já chega os golfinhos com os quais esbarrei em Monkey Mia) ou Blue Mountains. Primeiro, porque natureza eu tenho bastante à disposição ao redor de Perth, deixa eu visitar as cidades; segundo, porque já sou vacinado contra o exagero dos folhetos turísticos australianos, que transforma qualquer coisa, inclusive o maior monolito do mundo, Uluru, numa atração imperdível.
Escrito por Rafael | maio 16, 2007 03:14 AM
Comentário
iaew velho,ótima avaliaçao...bem minuciosa!!!!
pretendo me graduar em direito na melbourne,estou me preparand este ano?
gostaria de saber como é a vida noturna de la
para alguem de 20 anos;.;.
as meninas em geral,a etnia predominante e o valor pago por hora de trabalho..tipo de algum serviço como garçom ou atendendente de loja.
valeus!!
Escrito por: hobbit | março 1, 2009 10:14 AM