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maio 21, 2007
Blogues expressos
Gostei bastante, apesar das atualizações irregulares, dos blogues que o Daniel Galera, a Cecilia Giannetti e o João Paulo Cuenca mantiveram para o projeto Amores Expressos. O grande mérito dos três é exatamente o calcanhar de Aquiles de 99% dos brasileiros que vão para o exterior, a turismo ou não: fizeram o dever de casa, leram & estudaram sobre o país que estariam visitando. O que deve ter ajudado muito em dirimir preconceitos e impressões rápidas. Lamentei apenas o inevitável peso das referências que cada um carregou: Galera sempre contrapondo Porto Alegre a Buenos Aires, Cecília lembrando da Ilha do Governador em Berlim e JP achando que Japão e a Belford Roxo são a mesma coisa. E há o inevitável choque cultural: Galera horrorizado com um portenho que lhe cumprimenta com um beijo no rosto, Cecília tentando conceber como tem gente que vai à praia (artificial) com sol de 12 graus e JP surpreendendo-se com festinhas em boates cujos figurinos e loucuritas fazem o bas fond carioca parecer um jardim da infância. Mas os comentários são em maioria pertinentes e os autores deram-se ao trabalho de correr os riscos de suas curiosidades, mesmo que para isso tenham aberto mão de roteiros mais tradicionais: nem um jardim público em Tóquio? Nem um show de tango em Buenos Aires? Nem um pulinho no Pergamon, na Ilha dos Museus de Berlim? Espero que tenham voltado bastante inspirados para o livro que os espera.
Destaco, particularmente, esse trecho da Cecília Giannetti, que caracteriza perfeitamente os exilados:
Há duas maneiras de se viver no estrangeiro. Uma delas é deixando de ser estrangeiro. Guardar as raízes numa caixa dentro do closet, para serem retiradas novamente apenas como fotografias quando surgir a pergunta "De onde você é?" -constantemente ouvida e repassada entre pessoas de tantos lugares distantes, em cidades de imigrantes como Nova York, Londres ou Berlim. (...) Assim protegida, sua história pertence mais ao presente que ao passado. Não é muito acessada, enquanto o estrangeiro se mistura à cor e hábitos locais. (...)Outra maneira de se viver em uma terra que não é a sua é entrando na caixa da identidade nacional alheia. Protegido por suas paredes, usa-se a caixa como bote salva-vidas, flutuando cautelosamente pela cultura e pelo dia-a-dia do novo país. Nesse caso, o estrangeiro raramente cruza as fronteiras da Chinatown de NY, onde vive e trabalha entre a sua própria gente, trocando meia dúzia de expressões em inglês por dia (...)
Ou seja, a dicotomia entre a síndrome nunca vencida da saudade do feijão e a temida aculturação (o que a esquerda hoje chama de globalização e antes era americanização). Mas isso só vale para classe média; elite é elite em qualquer lugar e a ralé, no final das contas, é quem resiste.
Escrito por Rafael | maio 21, 2007 11:58 PM
Comentário
surpresa boa, não sabia que estava lendo lá (perdoa-me as baboseiras...)
cá pra nós: descobri ainda que toda cidade do mundo - com exceção de paris - tem ao menos um lugar igual a maricá e/ou outro igualzinho à ilha do governador. sério, cara, vai por mim.
certo estava raymond russel...
Escrito por: seesaw | maio 29, 2007 10:36 PM