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maio 28, 2007
Got my HAIR
Com somente 40 anos de atraso, assisti uma montagem do musical Hair. O sentimento que me provocou foi o mesmo que costumo ter quando assisto qualquer um desses filmes, peças ou musicais que se tornaram objetos de culto, não clássicos, somente objetos de culto: os elementos que causaram assombro estão ali, mas raramente a história ou o conjunto atraem. Hair ainda se sustenta essencialmente por conta das canções; a arte de compor canções para musicais da Broadway entrou em decadência do mesmo modo que a arte de compôr marchinhas para o carnaval. Os personagens são mais esquematizados do que desenhados, o roteiro é mais uma colagem do que uma narrativa, as situações são mais na linha de provocar a platéia do que construir uma dramaturgia. Mas quem se importa? A platéia do teatro se divertia como eu vi se divertir em qualquer espetáculo vagamente humorístico por aqui e nem o que era para ser chocante incomoda mais.
Um aviso na entrada lembrava que "o espetáculo contém nudez, palavreado de baixo calão, simulação de consumo de drogas e temas adultos". A pretensa seriedade dos temas foi motivo de chacota pelo menos duas vezes: antes do início, quando o auto-falante alertou: "desliguem os telefones celulares, o uso de máquinas fotográficas é proibido -- e, por favor, lembrem-se de passar o bagulho para a esquerda", e a notória cena de nus (quando o elenco quase inteiro aparece pelado no palco, à contra-luz, muito artisticamente, como diria uma capa da Playboy), em seguida à qual um tira adentra o recinto e declarando voz de prisão para toda a platéia: o que um dia foi visto como crítica ao autoritarismo, hoje leva às gargalhadas. Mesmo o que seja talvez a cena mais chamativa, na qual os atores simulam várias posições de cópula (vestidos), só arrancou risadas da platéia. Certamente que muitos dos temas abordados foram absorvidos pelo público médio de musicais nessas quatro décadas e a manchete do jornal do dia, Amamentação pública será legalizada em clubes fechados, não deixava mentir. Mas quando o bebê de colo duas filas atrás não pára de chorar, você se pergunta para o que serviu aquela liberação toda. E a personagem grávida tomando drogas incomoda particularmente.
Um dos grandes baratos em assistir essas montagem fora do tempo e do espaço é ver o que sobrevive nas adaptações: convidaram uma das cantoras reveladas num desses concursos de televisão que quase estragou uma das músicas com suas vocalizações, mas quando se ateve à interpretação original, fez bonito. Além de hoje em dia ter inglês suficientemente bom para entender trocadilhos difíceis como "as Mary Magdalene said, Jesus, I'm getting stoned". E foi bastante engraçado ver o grito de protesto que alguém da platéia soltou logo depois do personagem Claude Bukowski se apresentar como sendo de Manchester, England:
-- Eeeeeeeeeeiiii!!!
Escrito por Rafael | maio 28, 2007 12:32 AM
Comentário
Hair é uma bobagem. Já era uma bobagem na sua época. Tem muitos fãs ainda, assim como Paulo Coelho também tem. Assisti a primeira montagem teatral de Hair, em português. A troupe baixou em Belo Horizonte e trazia Sônia Braga, antes de ficar famosa. Ninguém a conhecia, ainda. No intervalo, fui tomar refrigerante no bar, ao lado da sala do teatro Francisco Nunes. Sônia ficou ao meu lado, no balcão. Tinha ido tomar água. Brincou comigo, sorria, perguntou nome, me convidou para sair (com a troupe) depois do show. Eu, ainda menor (entrei escondido, não me perguntem como), estarrecido, quase mudo, como um adolescente, que eu era, e que certamente tinha visto aquela mulher linda, nua no meio dos outros atores... ufa. Bendito Hair.
Escrito por: Guga Schultze | junho 1, 2007 04:13 PM