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maio 28, 2007

É dura a vida de brasileiro exilado

Sexta fomos almoçar na barraquinha brasileira do mercado de Subiaco. A maranhense que é uma das sócias não demorou muito em vir na nossa mesa mostrar um recorte de jornal, orgulhosa. A brasileira que dias antes adentrara a casa do Big Brother australiano era sua filha! Uma morena de 24 anos, em foto grande, ao lado da tasmaniana que, como ela, ganhara a chance de entrar no jogo. Contou-nos que a filha era formada em jornalismo e enxergar aquela chance de se promover profissionalmente, já tendo se inscrito duas vezes nos anos anteriores sem sucesso. Estava ao mesmo tempo um pouco decepcionada por ver a filha no programa e contente porque a popularidade estava em alta e ela tinha se entrosado bem -- mudara-se para a Austrália aos 12 anos, não tinha sotaque, apesar da televisão ainda apresentá-la como Brazilian born.

Se despediu dizendo que estava pensando em botar um aviso na biboca pedindo para votarem em favor da filha dela pela internet.


* * *

Sábado de tarde. SBS: o canal multicultural daqui, que apresenta filmes europeus, asiáticos e latino-americanos, anuncia um documentário sobre Caetano Veloso. Não demora muito, tá lá o baiano castigando aquele inglês que ele aprendeu durante o exílio londrino. Demora menos e logo aparece Gilberto Gil, anunciado como ministro da cultura, falando exatamente naquele ritmo pausado dele, só que em inglês. Quem apareceu falando com mais desenvoltura foi Nelson Motta, mas isso não foi tudo. Ilustraram um discurso papo-cabeça do Caetano sobre a miscigenação cultural e a riqueza das tradições africanas na Bahia com que? Com um trio elétrico no circuito Barra-Ondina tocando axé. Quando você acha que já viu de tudo nessa vida, entram cenas -- provavelmente recortadas de algum show -- de Caetano e Gil cantando sucessos, Alegria alegria, Domingo no Parque, com legendas em inglês. O ápice ficou quando da aparição do grupo Afroreggae, apadrinhado por Caetano, levando Eu tô bolado, que foi traduzido por I'm mad.

No começo da década de 1990 uma turma de amigos se reunia para jogar Call of Chtulhu, um jogo do tipo RPG onde cada jogador cria um personagem para si. Os atributos de cada personagem eram sorteados no dado: força, destreza, inteligência e, particularmente, sanidade; os jogos se passavam no universo ficcional da literatura de H.P. Lovecraft, profusamente habitada por seres sobrenaturais. Encontrar com eles não era uma experiência trivial e a cada contato, os personagens perdiam pontos de sanidade, não raro terminando um jogo loucos.

Sempre que eu vejo uma tentativa de traduzir ou explicar em inglês a baianidade de um Caetano, eu lembro do Call of Chtulhu por conta dos meus pontos de sanidade perdidos...

Atualização: ontem de noite fui ver Vinícius, documentário que eu já tinha assistido em 2005, rara chance de apreciar alguma coisa da cultura brasileira que não seja macumba pra turista, exibido dentro da mostra do cinema ESPANHOL. Brasil, América Latina, Espanha: tudo a mesma coisa. Já me confundiram com italiano e francês; o Brasil não existe: um profissional brasileiro que tenha atravessado dois oceanos para trabalhar fora? Abstração, loucura. Camila Morgado e Ricardo Blat interpretando poemas, depoimentos de Gil e Caetano com legendas em inglês. Minha sanidade se esvai, lentamente.

Escrito por Rafael | maio 28, 2007 02:34 AM

Comentário

Ah, Chtulhu... se lembra daquele jogo na 1a. RPG Rio em que um personagem passou a aventura toda preparando litros e litros de curare só para se ferir com a sua própria faca embebida no veneno na sua primeira ção de combate? Bons tempos.

Escrito por: Lisandro Gaertner | maio 28, 2007 03:37 PM

folgo em saber que aí o big brother desfruta de popularidade, embora um pouco menos que no brasil, mas ainda assim um sucesso.

tô lendo teu blog todo agora, pra me informar do mundo (eu descobri muito tarde na vida que viajar cansa e dá pra conhecer a coisa toda pela internet e atlas, dammit).

besos

Escrito por: seesaw | maio 29, 2007 10:04 PM

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