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maio 29, 2007

Melbourne, Sidney (faixas bônus)

Encontrei algumas notas de viagem rascunhadas e tendo em vista a boa recepção das impressões sobre a viagem, decidi estendê-lo. Se lembrar de alguma coisa a mais, provavelmente vai entrar como nota individual.

Melbourne não é uma cidade feia; em vários cantos destila até um certo charme europeu. Mas tem o que deve ser a praça central mais feia do mundo: Federation square. As hordas que ali se aboletam para um descanso rápido, uma espiada no jogo do telão, para uma olhadela no rio Yarra (feio, também: de aspecto barrento, estreito) aparentemente não se incomodam com a agressão visual dos prédios da secretaria de turismo ou do museu da imagem móvel ou mesmo dos simples degraus que levam ao plano alto. Mas que a Federation square é feia, é.


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E já que estou no assunto: o Luna Park de Melbourne é um daqueles parques de diversão à moda antiga norte-americana, com maçã caramelada, algodão doce e montanha-russa com estrutura original em madeira treliçada, tal como vários que se espalharam pelo sul da Califórnia e Flórida na primeira metade do séc XX. Muitos deles foram sucateados, alguns sobreviveram assim assim, e poucos foram reformados & conservados e continuaram prestigiosamente em atividade, como é o caso do Luna. Mas aquela entrada em forma de uma boca sorridente, além de terrivelmente sinistra -- só consigo pensar nas crianças chorando de medo ao vê-la -- está em TODAS as antologias de bizarrices arquitetônicas ou decorativas australianas.


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Se você não quiser alugar um helicóptero para um passeio aéreo, provavelmente a melhor vista que terá da baía de Sidney é do topo da ponte de Sidney. Como grande parte dessas contruções monumentais modernas, a ponte foi erguida durante a depressão, de sorte que hoje é mais que motivo de orgulho para seus habitantes: combateu o desemprego, bateu um recorde em tamanho, adornou a paisagem e facilitou o transporte. Faltava o que? Explorá-la como ponto turístico de maneira industrial, digamos. Isso vem sendo feito há quase 3 anos por uma companhia que levou uns 2 milhões de pessoas a escalarem a ponte: pelo suporte direito, através da viga central e descendo pelo lado esquerdo. Tem tanta segurança e é feita com tanto vagar que perde-se pelo menos uma hora só no treinamento e preparação do equipamento, e olha que não se carrega nem pára-quedas. Caso ainda assim você fique com medo de subir, no saguão de entrada existe uma galeria de celebridades para te estimular. Evidentemente, as estrelas do cinema australianas estão lá: Nicole Kidman, Cate Blanchet. Opa, quer dizer que sir Michael Caine fez essa escalada? Se o Will Smith fez eu também posso fazer. Num canto tem a foto de uma velhinha que fez a escalada com 100 anos, uma maneira sutil de dizer que condições de saúde não são desculpa para a tua preguiça. Fecha-se a questão quando se vê que a Anna Nicole Smith também subiu na ponte.


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O único museu de arte que vale a pena ser visitado na Austrália fica em Melbourne -- a não ser que você tenha um interesse muuuuuito grande em arte australiana; aí é o de Sidney que você tem que visitar. Além dos Rembrandts e Tiepolos que justificam a esticada, uma bela ala asiática cria um contraponto interessante ao ponto de vista hegemônico europeu com o qual se sai de qualquer museu na Europa, por maior que seja a coleção nipo-chinesa-indiana. A Austrália foi erguida por imigrantes e no final do séc XIX os chineses estavam entre os mais representativos; nas ruas de Melbourne é comum ver pares interraciais, inter-étnicos, andando e conversando juntos. Natural que um museu público reflita essa diversidade. Até porque nenhum tipo de fusão cultural oriente-ocidente foi conseguido até agora.


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Quando volta de Nova Iorque, o brasileiro sempre comenta espantado como os chineses apenas vivem e falam com outros chineses, reproduzindo seu estilo de vida em Chinatown. Se prestasse um pouco de atenção, veria que os brasileiros em Sidney sempre se acomodam perto da praia, principalmente Manly (a meia hora de barca do centro da cidade) e Bondi, em cujo pavilhão central oferecem aulas de capoeira. Mas como se sabe, os chineses é que não se adaptam às outras culturas...


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Não me chamem mais para nenhum parque nacional que eu não aguento mais ver bichinho depois de visitar os zoológicos de Melbourne e Sidney. Apesar de maiores, nenhum dos dois tem uma área em que se pode caminhar livremente por entre os animais típicos do país como o de Perth. Melbourne tem a melhor relação custo-benefício: uma excelente variedade de animais e uma área passível de ser coberta à pé. E a experiência de entrar na estufa vedada onde as borboletas voam ao redor de você só pode ser descrita como mágica. Taronga zoo, em Sidney, fica num aclive: pega-se um teleférico até o topo e planeja-se a visita enquanto se desce, ou isso ou vais gastar perna para ver aquele urso que ficou lá atrás. Em compensação, o anfiteatro onde exibem as águias e falcões treinados, com a baía ao fundo, deve ser a vista de zoológico mais bonita do mundo. Claro que nada disso resolve uma irritação básica com a arquitetura dos zoológicos modernos: o fato deles terem sido transformados em pequenos habitats para cada espécie melhorou muito a qualidade de vida delas -- sempre tem uma jaula das antigas, preservada para mostrar como se maltratavam os animais antigamente, quando o foco dos zoológicos era exibição e não preservação; Sidney chega a mostrar o local onde as crianças subiam para passear de elefante. Mas piorou a dos visitantes: qual o motivo de ir num zoológico se você tem que se esticar todo para mal ver o puma andino que se esconde atrás das pedras porque é tímido? O leão costuma ser decepção perene, sempre deitado, de lado, em eterna siesta. Ao menos os gorilas, orangotangos e micos contribuem sempre com algazarra, e com sorte você conseguirá ver um babuíno ou um gibão catando e comendo os piolhos do pelo de outro. E o koala, tão fofinho, é o próprio Dorival Caymmi do mundo animal.

Escrito por Rafael | maio 29, 2007 11:35 PM

Comentário

Dorival Caymmi do mundo animal... caro, essa definição eu vou guardar para a posteridade bloguística. Muito boa!

Escrito por: Lucia Malla | maio 30, 2007 01:58 AM

Viagens, diário ótimo, observações beleza. Mas queremos fotos! Especialmente das Australianas, aquela gênese quase em extinção...

Escrito por: Ram | maio 31, 2007 02:35 PM

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