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maio 31, 2007

A obra-prima mais subestimada dos quadrinhos?

Tomei contato esses dias com Gasoline Alley, talvez a obra-prima mais subestimada dos quadrinhos. Começou como tira diária num jornal de Chicago em cima da recém-despertada mania pelos automóveis, por conta da própria família do autor: "Meu irmão tinha um carro que ficava no beco, junto com um sujeito chamado Bill Gannon e outros caras. Eu ia na casa dele nos domingos e a gente ia para o beco, encontrava outras pessoas e falávamos sobre carros" -- donde o nome da tira -- mas, a pedido do editor, foi feita uma mudança para, vejam só, atrair leitoras: assim funciona o mundo dos quadrinhos, com a imaginação e a criatividade artística sempre em busca do público. Sem possibilidade de arrumar uma parceira para o solteirão convicto Walt Wallet, Frank King simplesmente depositou um bebê órfão em sua porta no dia dos namorados de 1921. Numa virada surpreendente, Walt assume a criação do guri, batizado de Skeezix (gíria para um bezerro órfão), transformando a história de forma radical.

Primeiro, ao acrescentar semitons emocionais a personagens que pareciam estereotipados; segundo, ao introduzir a evolução cronológica: pode não ter sido a única, mas certamente foi a primeira tira onde os personagens envelheciam -- assim, Skeezix começa bebê de colo, aprende a andar e falar, ler, vai para a guerra e volta. É nesses primeiros vinte anos que se encontra o cerne da obra-prima, com episódios dominicais onde, muitas vezes, não acontece nada: Walt e Skeezix passeiam ociosamente apreciando a paisagem rural americana e tecendo comentários banais e poéticos (tal como Peanuts e Calvin fariam, anos depois). Eventualmente as piadas seriam sacrificadas em nome de um clima nostálgico, bucólico ou simplesmente sereno: é incomparável o jeito caloroso, reconfortante e agradável que a história passa. Frank King criou talvez a melhor definição do que se entende por americana, a lembrança de um tempo meio idílico, não muito distante, quando as coisas eram melhores e tudo ia bem.

O mais interessante é que, com o tempo, King não esmoreceu e continuou a desenvolver os personagens coadjuvantes, expandindo a árvore genealógica e transferindo aos poucos tarefas para ajudantes. A tira foi premiada pela National Cartoonist Society em 1957, 1973, 1980, 1981, 1982 and 1985, 1988. E continua a ser publicada até hoje, nas mãos de um assistente de um assistente. A republicação sistemática dos primeiros 20 anos já está em curso.

Escrito por Rafael | maio 31, 2007 01:22 AM

Comentário

Legal. Gasoline Alley foi uma das boas surpresas que eu tive, fuçando quadrinhos, há muitos anos. Nunca segui porque não havia periodicidade em nenhuma das publicações que eu tive em mãos. Lembro-me que saiu no velho almanaque do Gibi, numa das edições. Quantos anos atrás? 30? Deixa pra lá. Lembro também que Rod Stewart, quando era rockeiro (dos bons), num de seus primeiros LPs (vinil, man), cantava Gasoline Alley, uma das faixas. Lembro da música até hoje. Da letra, não mais. Na época a gente não se ligava em letras, era só o som. Boa lembrança. Vou procurar na internet.

Escrito por: Guga Schultze | junho 1, 2007 03:41 PM

Rafael, queria que você fizesse um post extenso, demorado, sofrido, cheio de referências, mas altamente analítico sobre essa tal de Americana.

Especialemnte se se utilizar desenhos animados, música e quadrinhos como exemplos contundentes.

Aceito minibiografias de pessoas citadas, também.

Amanhã eu passo aqui pra ler :)

Escrito por: Fabio Negro | junho 3, 2007 10:39 PM

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