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junho 07, 2007

O irmão do presidente e a academia

Guilherme de Figueiredo é um dos meu escritores prediletos. Quando descobri Bacchus, do Eddie Campbell, suas peças de teatro foram a primeira coisa que me veio à cabeça; se você achou original a idéia de Neil Gaiman em colocar deuses da mitologia antiga armando presepadas, saiba que pelo menos 45 anos antes, e no Brasil, com indefectível sotaque carioca, Guilherme de Figueiredo já o fazia, no teatro, com Um deus dormiu lá em casa.

Teve uma biografia tão interessante quando a obra literária: dizia ser o único brasileiro que teve um pai prisioneiro político -- líder da revolução constitucionalista de 1932, encarcerado por Getúlio Vargas -- e um irmão presidente -- o último da linhagem dos generais, que deu nome a um dos melhores blogs que já se escreveu nessa terra, Saudades do Presidente Figueiredo. Guilherme fez colégio militar e, se não seguiu a carreira da família, também não perdeu a dureza dos militares jamais. É curioso que isso não tenha embotado seu gosto pela gastronomia, música, pelas artes: traduziu Tartufo de Moliére, pesquisou para um compêndio sobre pratos típicos brasileiros.

Reli esses dias o que talvez seja seu livro mais interessante, As Excelências, no qual conta como foi derrotado para uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Quando de sua candidatura, no começo dos anos 1960, Guilherme tinha pelo menos dois fortes cabos eleitorais lá dentro: Aurélio Buarque de Hollanda e Jorge Amado. E um fortíssimo oponente: Deolindo Couto. Quem?

Deolindo Couto era médico e amigo dos vários então acadêmicos; concorria pela quarta vez. À base de muita política, conseguira a promessa de inúmeros votos, apesar de não ter obra literária. Cada capítulo de As Excelências narra o encontro com um dos imortais, a protocolar visita de pedido de voto que era norma na instituição antes do email e do telefone, na qual o candidato se apresentava formalmente e presenteava um pacote de suas obras, com dedicatória. Guilherme cumpre o requisito, mesmo sabendo que a maioria de seus anfitriões já tinha declarado voto em Deolindo, e aos poucos vai compreendendo o mecanismo de uma eleição.

Muitos acadêmicos justificam o voto situando Deolindo na cetagoria dos expoentes, gente notória que Joaquim Nabuco teria convencido Machado de Assis a incluir na academia para agregar celebridade e vulto à casa: numa dessas vagas, teria entrado originalmente o aviador Santos Dummont. Só que Deolindo não era o Pitanguy de seu tempo. Não desenvolvera nenhuma técnica excepcional nem era reconhecido mundialmente: sua grande força fora a insistência em cooptar votos e consciências através de favores prestados ao imortal ou sua família. É aqui que o livro de Guilherme cresce, na sua intransigência em esfregar na cara de cada eleitor o papelão que fez ao preterir um escritor em nome de um médico. Sua capacidade em recortar somente a parte fundamental dos diálogos é a do grande dramaturgo, que caracteriza um personagem com duas falas -- e mesmo que hoje em dia os nomes Viriato Correa, Rodrigo Otávio Filho ou Afrânio Coutinho lembrem mais ruas do Leblon do que grandes escritores, tem-se a noção exata de quem é cada um deles através da descrição do ambiente e do diálogo que se seguiu.

Nesses momentos, é notável como Guilherme Figueiredo fica parecido com seu irmão presidente, no humor duro das respostas curtas que desfere ante as mesuras dos imortais. Raimundo Magalhães Junior, visivelmente constrangido pelo tratamento grátis que Deolindo prestara à sua esposa, confessa:
-- Na próxima vaga, votarei em você.
-- Não. Votará no seu quitandeiro. Depois, no vendeiro. Depois, no alfaiate. Quando você estiver quite, então será minha vez.

Parece ou não parece o finado general afirmando que, ganhasse salário mínimo, daria um tiro no côco?

E é assim com quase todos, ou pelo menos, todos os eleitores supostos de Deolindo. Em momento algum, entretanto, o amargor toma conta do relato e se sobrepõe à trajetória de Guilherme Figueiredo, que constrói um livro ao mesmo tempo ágil e tocante. Sua história, entretanto, não é nova.

Pleitos assim colocaram Monteiro Lobato fora e Getúlio Vargas dentro da academia. Juscelino Kubitschek ia entrar mas o então presidente, Austregésilo de Athayde, fez o jogo da ditadura e manobrou para que ele ficasse apenas um par de votos atrás da consagração. A inclusão dos chamados expoentes sempre foi motivo de polêmica, particularmente quando o adversário era escritor conhecido ou intelectual respeitado, raça cada vez mais rara. O último expoente eleito foi o cineasta Nelson Pereira dos Santos; note-se que não se deve colocar Paulo Coelho nessa categoria, apesar de José Sarney ter entrado claramente mais por motivos políticos do que por sua extensa obra literária.

Os mesmos critérios, aliás, que fizeram o ex-vice presidente da república Marco Maciel derrotar o jornalista Fernando Morais. Pode parecer incompreensível que Manoel Bandeira tenha votado em Deolindo Couto contra Guilherme de Figueiredo, mas quando se vê Nélida Piñon declarando apoio a Maciel desde a primeira hora, entende-se como a casa funciona, quem pretendo colocar para dentro. Fernando Morais acabou vítima do próprio veneno ao ser protocolarmente político sobre o resultado, mesmo sob a frustração de ter tido metade dos votos que esperava, porque sabe o quanto pode precisar daqueles apoios no futuro. Guilherme não sofria desse mal e deu nome a cada vaca sagrada. É exatamente nesse ponto que está a qualidade do livro, na sua sinceridade rascante, na fidelidade canina a um tipo de comportamento. A todos os acadêmicos que lhe recomendam aceitar a derrota para candidatar-se de novo e não se preocupar com a vaidade, responde o mesmo: não se candidatará novamente, porque entende que um escritor só deve fazê-lo se sua obra tiver melhorado entre as candidaturas (uma estocada clara em Deolindo, que só crescia a monta de favores entre uma e outra eleição) e a vaidade era de seu pai, não dele, já idoso, teria a satisfação de ver um filho imortal. Mais uma vez, a firmeza de um general.

Escrito por Rafael | junho 7, 2007 05:30 AM

Comentário

saberia me dizer qual a profissão q Guilherme Figueiredo exerceu?!

obrigado

Escrito por: rudá moreira | julho 19, 2007 12:34 PM

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