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junho 08, 2007

Fracassos empresariais

Na semana em que o Polzonoff se preparava para voltar para o Brasil, o NoMínimo anunciou que ia fechar as portas e o Lisandro soprou as velinhas de um ano do fim do sebo do qual era sócio, Le Bon Sebon. Eu já estava morando fora, mas estive presente na inauguração da loja e a concentração para um dos meus bota-foras foi lá; sou amigo dos 5 sócios. Nunca é divertido ler sobre fracassos empresariais, mas pode ser bastante elucidativo -- alô alô Edu Carvalho, você que gosta de ler livros gringos sobre administração, se liga nesses cases tipicamente brazucas.

Nem o Lisandro nem os editores do NoMínimo saíram batendo a porta, mas tem uma nítida diferença de postura nos textos de despedida de cada um deles -- talvez porque ele tenha tido um ano para matutar sobre o assunto, mais provavelmente porque os editores não aprenderam a lição do NoPonto. Na despedida anunciada, escreveram assim:

Nosso patrocinador, a Brasil Telecom, que nos mantém desde o início sob a lógica empresarial de nos comercializar e, sobretudo, municiar com notícia e opinião seus três portais – IG, iBest e BrTurbo -, alega motivos de economia, cortes de despesas, não lhe interessa – o que é pleno direito dela – sequer cogitar participação menos onerosa com novos possíveis sócios na operação. (...)

Desde fins de abril, quando o site recebeu aviso prévio para rescisão do tal contrato de patrocínio, seus editores têm cumprindo à risca todos os rituais cabíveis nessas batalhas em busca de parcerias honrosas para o nosso negócio. Encaramos a Ponte Aérea naqueles dias, batemos às portas de executivos, agências de publicidade, portais, entidades empresariais... Encontramos muita boa vontade, elogios mil, disposição para ajudar a manter
o NoMínimo vivo, aqui e ali até alguma indignação demasiada com a situação, mas dinheiro que é bom, até agora neca.

Chama a atenção como a idéia do patrocinador aparece quase como sinônimo de solução para os problemas financeiros do saite; em momento nenhum levantam-se opções para uma engenharia financeira que saneasse o portal -- anúncios de publicidade, micropagamentos, fechar parcialmente o conteúdo: ou a cornucópia do patrocinador, ou nada; o calcanhar de Aquiles bem exposto à flecha do mercado.

Esses dias chegou na minha caixa postal um interessante comentário lembrando que o YouTube e o Google foram criados por programadores de dados, não por cineastas ou bibliotecários. Os editores e redatores do NoMínimo acreditaram que bastava prover conteúdo de qualidade para serem remunerados. Estavam errados.

Quando se explora a internet no que ela é superior aos outros meios -- interatividade, facilidade de acesso, multimídia, doses cavalares de informação -- o resultado é um sucesso que praticamente independe do conteúdo; não importa se as notícias são relevantes, importa se o mecanismo de busca ordena-as corretamente pela popularidade; não importa se os vídeos são bons, importa se você encontra aquela cena de novela antiga no YouTube. E se pode colocar a sua cena preferida no banco de dados deles. O NoMínimo ainda se comportava demais como uma revista ou jornal, onde cada redator é soberano de seu espaço e pouco ou raramente se digna a interagir com os leitores, segregados em seção à parte. Quando evoluíram do formato de colunas para entradas de blog, se atrapalharam ainda mais, porque abriram mão da perfeição do texto jornalístico extenso sem ganhar em agilidade ou informalidade. Não pintando nenhum patrocinador, a saída dos profissionais será voltar à mídia impressa, de onde, aliás, nunca estiveram muito longe em termos editoriais.

No final rola até uma mal-criação, na linha as-uvas-estão-verdes:

Não à toa, dispomos de uma carteira qualificada de leitores, audiência escolarizada, interativa, bem distribuída no território nacional, com poder de consumo acima da média, formadores de opinião por excelência

Dispõe mesmo? Seria tudo cegueira das agências de publicidade? Ou na verdade o segmento de leitores era ainda suficientemente pequeno e pouco representativo para ser ignorado sem detrimento de mercado? E cadê os dados que comprovam isso? Cadê as estatísticas sobre o público leitor do NoMínimo? A impressão que eu tenho é que basta ter acesso à internet e ler notícias no ar para se transformar em formador de opinião...

Agora vejamos como o Lisandro analisa o fechamento da livraria. Primeiro ele lista os motivos que fizeram os sócios acreditar no sucesso do empreendimento:

Tínhamos a sorte de estar ao lado de alguns dos teatros mais prestigiados do Rio e na galeria que abriga os bares mais freqüentados do Leblon.

Aparecemos três ou quatro vezes na coluna Gente Boa do Joaquim Ferreira dos Santos com nossas brincadeiras, sem contar com outros colunistas que se encantaram com o nosso jeito gaiato de ser.

Quando a vaca foi pro brejo, houve os esperados atritos entre os sócios. Faz parte do processo de aceitação do leite derramado a caça de um bode expiatório:

Botei a culpa do nosso fechamento em um monte de coisas: no fim do ESPAÇO LEBLON DE CINEMA, na baixa qualidade de algumas peças, na pouca divulgação que o nosso dinheiro nos permitiu fazer, na situação econômica do país, e até no mau olhado de alguns desafetos.

Se um ano não foi tempo suficiente para pagar as dívidas, foi para esfriar a cabeça e entender o que aconteceu. As respostas são tão simples que vê-las é mais um exercício de percepção do que de técnica gerencial:

Sei agora que o nosso planejamento (isso, esse sebinho teve business plan) pecou em diversas premissas. A primeira foi que por estarmos no Leblon, bairro rico e de tradição cultural, iríamos vender bem. Ledo engano. De 70 a 80% das ligações e pessoas que recebíamos queriam vender e trocar livros. Comprar? Foram poucos, mas bons, e a eles agradeço.

A segunda foi que o teatro atrairia público para nós. Besteira. O teatro não é mais um evento cultural, mas, sim, social.

E por fim, só para não ficarmos remoendo os meus enganos por tempo demais, os bares. Achávamos que o clima boêmio da galeria teria tudo a ver com cultura. Que nada! Quem vem a bar, fique bem entendido, quer beber.

Resumindo: premissas erradas. O que matou o Le Bon Sebon, basicamente, foi a constatação de que, num bairro rico, o interesse por cultura se dá essencialmente como uma questão de status, de poder; ninguém está muito interessado no saber. Foi entender que existia um abismo por parte dos clientes entre a idéia de obter conhecimento e a idéia de pagar por ele: assim como os frequentadores do Leblon não estavam interessados em consumir cultura de formas que não expressassem riqueza -- comprar livro usado certamente não é uma -- os leitores de NoMínimo acreditam piamente que o conteúdo deve ser gratuito e aberto. Que venha o maná cultural do céu.

Numa sociedade que acredita no mercado como forma de distribuir riqueza, estão ambos, essencialmente, errados. Talvez a melhor parte do que o Lisandro escreveu está nas soluções possíveis que, hoje, ele enxerga para salvar o sebo:

O que você poderia ter feito para nos ajudar? Doar livros legais, o que diminuiria os nossos custos. Comprar mais, afinal, por pior que isso seja, era a falta de dinheiro que nos afligia. Trazer amigos para conhecer a loja era uma boa; bons e novos clientes poderiam ter levantado o nosso ânimo e as nossas finanças. Quem sabe divulgar a loja; quanto mais pessoas soubessem de nós maiores as nossas possibilidades de sobrevivência.

E a generalização que faz para Fazer do Mundo Um Lugar Melhor:

Se você gosta de um determinado lugar ou loja, freqüente-o com regularidade. Se sentir que os negócios não vão bem, fale com os donos ou gerentes. Pergunte o que pode fazer para ajudar e leve seus amigos para conhecer o lugar.

É difícil? Paca. Mas é melhor do que negar-se a mudar de comportamento e ficar se queixando das injustiças do mercado, da mesquinharia dos patrocinadores, das agruras do capitalismo ou qualquer um dos vilões de plantão. Quando não se quer resolver um problema, mil justificativas aparecem.

Escrito por Rafael | junho 8, 2007 12:41 AM

Comentário

Muito interessante o seu enfoque. Realmente, onde está a responsabilidade dos leitores no fechamento do NoMinimo? Faltou ao pessoal do site, como a nós, um tanto de humildade para recorrer a quem poderia realmente lhe ajudar.

Escrito por: Lisandro | junho 8, 2007 08:56 AM

Caramba, Rafael. Um texto perfeito.

Escrito por: Pedro Sette Câmara | junho 10, 2007 12:29 AM

Perfeita a análise, Rafa. E olha o que acabei de ler:

http://blog.pmarca.com/2007/06/the_pmarca_guid_1.html

Fundamental para quem quer montar empresas.

Abçs!

Escrito por: Eduardo Carvalho | junho 20, 2007 07:50 PM

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