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julho 09, 2007

Idéias para um mercado editorial auto-sustentável

Essa matéria que saiu na Piauí sobre o mercado editorial de livros espíritas guarda a mesma carga ideológica e preconceituosa de muita coisa espalhada na imprensa. Besteira. Entretanto, como é regra na revista, a matéria é suficientemente informativa para que o leitor tire suas próprias conclusões.

Num país onde um escritor da chamada Literatura comemora quando vendo 10.000 cópias, deveria ser dada mais atenção à vendagens na casa dos milhões atingidas pelos livros ditados por espíritos. Quem compra esses livros? Quem lê? Onde compra? Será possível que uma parcela desse público não possa ser aproveitada pelo mercado não-espírita? Mais: mesmo que se respeite o código espírita, segundo o qual a receita da venda de livros deve ser dedicada à obras de caridade, e o mercado de trabalho para gráficas, diagramadores, capistas, bibliotecários, onde está? Será possível que ninguém nunca levantou esses números ou pensou nessas possibilidades?

Já estava na hora do mercado editorial começar a buscar alternativas além das leis de incentivo caso queira sobreviver e se sustentar. Livros espíritas psicografados de desencarnados famosos poderiam ser vendidos juntos com os livros famosos destes antes de desencarnarem. Livrarias espíritas poderiam ter pequenas seções não-espíritas. Existe todo um sistema ativo e auto-sustentado que poderia ajudar a habituar leitores e compradores de livros, tirando o mercado editorial da eterna dependência de um Paulo Coelho, uma Maria Mariana, uma Bruna Surfistinha.

Nas livrarias australianas existe uma divisão entre Fiction e Literary Fiction. Na primeira fica o que se rotula no Brasil de lixo, porcaria, literatura de gênero, LPB, etc. Na segunda, ficam os chamados autores clássicos, modernos ou antigos; a literatura que escapa de um gênero. Ao contrário do que possa parecer, não vai um critério de valor nessa separação. No começo achei muito curioso, mas depois entendi qual era a da parada: é exatamente a alta vendagem dos livros de Fiction que sustenta a vendagem dos livros de Literary Fiction. No Brasil, não se encontram livros nacionais que se enquadrem em Fiction, a primeira proposta para isso é a LPB. Mas primeiro há que se acabar com a idéia do livro com algo superior e um passo para isso é começar a tratar o leitor de livros espíritas como outro qualquer. Quantas vezes você não ouviu dizer que tem muita gente lendo nos ônibus e trens, mas 90% é só livro espírita? Então isso não é mais livro?

Outra vertente seriam os livros setorializados. Lembrei disso quando me deparei com uma biografia do Ronaldinho Gaúcho na seção de esportes. Será que não seria sucesso de vendas no Brasil? Eu fui no lançamento do livro que o Zico lançou quando fez 50 anos e tiveram que roubar o estoque das outras lojas porque o reservado para os autógrafos simplesmente acabou. No entanto, a biografia do Ronaldinho tinha sido escrita por um jornalista inglês, não brasileiro, e não dava para dizer que era um livro oportunista, porque reconstruía toda a trajetória do jogador, incluindo uma foto do famoso corte que ele deu no Dunga no campeonato gaúcho de 1999. Não comprei o livro do Ronaldinho, mas comprei Once in a Lifetime, The Extraordinary Story Of The New York Cosmos, uma história que sempre tive curiosidade em ler: um momento muito específico em que tentou-se implantar o futebol nos EUA e o seu time mais famoso, New York Cosmos.

O livro é genial, porque compacto e ao mesmo tempo atolado de informações que relatam como num período de 15 anos criou-se uma liga com os mais famosos nomes do mundo -- na segunda metade dos anos 1970 chegaram a jogar nos EUA: Pelé, Beckenbauer, Carlos Alberto Torres, Cruiff, Giorgio Chinaglia e George Best, entre outros -- e ao mesmo tempo não conseguiu-se criar nos espectadores o hábito de assistir ao jogo. Há doses equilibradas de análise econômica, habilidades futebolísticas, reconstituição histórica e fofocas de bastidores -- afinal, o auge do Cosmos coincidiu com o do infame Studio54. Fizeram até um documentário. Por que as editoras brasileiras não tentam despertar o interesse do público com mais títulos assim, que combinam apelo popular e interesse geral?

Escrito por Rafael | julho 9, 2007 06:48 AM

Comentário

Boas sugestões, cara. Deveriam tratar com menos preconceito e ver mais as oportunidades. Agora - vamos ver se as editoras estão, por exemplo, buscando na internet gente que está falando sobre o negócio delas.

Escrito por: Eduardo | julho 9, 2007 10:58 PM

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