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agosto 08, 2007
Humor britânico
Não conseguia achar graça nas tiras do Zé do Boné (Andy Capp) até ter morado na Austrália.
Só depois de obrigado a conviver com o inabalável, e põe inabalável nisso, hábito britânico de frequentar pub semanalmente é que comecei a entender qual era a graça daquelas tiras em que pouco acontecia: um papo com o barman, uma partida de futebol, uma diálogo áspero com a esposa. Um inglês morando há mais de 15 anos em Singapura me confessou que essa é a triste vida de muitos ingleses habitantes de cidades menores, economicamente esvaziadas. A questão é que mesmo numa cidade dinâmica você vai encontrar muita gente com hábitos tão repetitivos e chatos, como frequentar o mesmo pub uma vez por semana, nem mais, nem menos, portanto capazes de se identificar imediatamente com o Zé do Boné. Assim como nas tiras o Recruta Zero, onde o General Dureza parou de dar em cima da Dona Tetê e foi obrigado a passar por um curso de reeducação no ambiente de trabalho, o Zé do Boné também sofreu muito com o politicamente correto, que interrompeu as surras periódicas que dava em sua mulher e retirou-lhe a bituca de cigarro que vivia dependurada em seu bico. Humor inglês tem dessas coisas: vai se transformando com o tempo, lentamente, adotando pequenas modificações para permanecer o mesmo; será de se preocupar o dia em que o Zé do Boné parar de beber, mas aí a tira -- e a Inglaterra -- terá acabado junto.
Porque uma de suas características é essa repetição chata, que pode ter 500 anos de tradição por trás mas nem assim vai ser menos chata.
Isso vem de encontro a outra coisa que eu também só compreendi depois de morar na Austrália. Toda vez que eu lia um guia Lonely Planet, invariavelmente encontrava em alguma parte da cidade ou do país as palavras divertido, alegre, descontraído, animado na descrição. E quando ia visitar, me deparava com algo meio morto, devagar, organizado demais para reivindicar o título de descontraído. A fonte do erro: eu estava usando os meus conceitos, enquanto o guia usava os conceitos dele, que apesar de redatores de diversas nacionalidades, ainda segue o padrão britânico de qualidade original. Era sempre a idéia britânica de diversão, descontração, animação -- que é defintivamente diferente da idéia sulamericana.
Provavelmente por isso que eu não achava graça no Zé do Boné, assim como não acho graça em mais da metade dos comediantes australianos nem nos do festival de Edimburgo. Quando visitei Sydney, uma das atrações vindouras da ópera era exatamente o destaque do festival do ano anterior, com um número entitulado "I am afraid that I started to hate almost everything in the world" ou coisa assim, que em tradução literal seria "Eu temo ter começado a odiar quase tudo no mundo", um título inacreditavelmente rude para um espetáculo de humor. Exceto fazendo circuito de cidades do interior, cômicos não costumam fazer sucesso no Brasil. Na década de 1970 Chico Anysio e Jô Soares lotaram teatros com nada mais que um banquinho e um microfone, e seus espetáculos eram considerados ousados pela frequência de palavrões e piadas que não poderiam passar na censurada televisão. Os primeiros números da revista Pif-Paf, de 1964, elegiam Sergio Porto como instaurador da grossura dentro do humor nacional. Sergio, Chico e Jô eram cândidos se comparados com a truculência do humor médio britânico. Um dos quadros mais famoso do Monthy Python, o do cara que tenta vender um papagaio morto, apóia-se em muito da violência de John Cleese para encontrar sua graça (grande parte dos quadros de John Cleese e do seriado Fawlty Towers, escrito e atuado por ele, se apoiava nisso). Spike Milligan fechou uma das apresentações comemorativas para o público do programa de rádio The Goons expulsando o público.
Polzonoff comenta que brasileiro é muito mau humorado, porque não acha graça em certas piadas. Tem razão; está explicado o porquê.
Escrito por Rafael | agosto 8, 2007 06:16 AM
Comentário
Como diz minha amiga, "eu suuuper te entendo!". Os ingleses são muito estranhos. Seríssimos e fechadíssimos, não dão papo nenhum. Aí depois de dois pints começam a te contar que a mulher tem problema para engravidar, que tem tesão pela colega de escritório, que acha a chefe uma imbecil. O povo aqui não tem meio termo.
O pior é que eu gosto deles, pelo menos até agora.
Escrito por: baxt | agosto 10, 2007 11:09 AM
Sei que tua praia é mais comics, mas olha que blog bacana de animação: http://animation-treasures1.blogspot.com
Beijinho
Escrito por: Anna | agosto 10, 2007 11:42 AM
Ei, Rafael!
Fiquei feliz de você ter-me lembrado o Zé do Boné, a figura dele, bem fresca em minha memória, sempre portando aquele indefectível cigarrinho, a puxar a mulher pelos cabelos..:-) Não há mais isso? Uma pena.:-( Atribuo isso ao típico e famoso humor-negro dos ingleses. Como você disse, de fato é possível que cada povo tenha seu mote de humor. E ainda bem que no Brasil há muitos bons, vide Millôr Fernandes, Laerte, Fernando Gonzalez
Escrito por: Carla Cristina | agosto 10, 2007 10:53 PM
Acho que a diferença principal é que brasileiro jamais ri de si mesmo. Inglês não é tanto assim, nem americano, já australiano, se for como meu roommate, tem ranço de "quero provar que não sou bandido".
Quer um exemplo? O comercial do macaco do Estadão, que deixou quase todos "blogueiros" que eu conheço reclamando, conclamando pelo boicote e etcetra. A piada é engraçada quando envolve o gordo, o bicha, o português, desde que você não seja nenhum deles. Assim é o "bom humor" tupiniquim.
Bom humor é sinal de classe e desenvolvimento, e ainda estamos muito longes disso.
Escrito por: Ram | agosto 14, 2007 08:13 AM